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Antropólogo se nutre do gosto pelo outro


Aparecida Vilaça
Especial para o Diário

10/05/2010 | 07:14




Nascido em Bruxelas em 28 de novembro de 1908, Claude Lévi-Strauss pode, sem hesitação, ser considerado o maior antropólogo do século 20, tanto por suas criatividade teórica e sensibilidade etnográfica, quanto pelo fato de sua atuação acadêmica estender-se por boa parte daquele século.

Sua obra trata de temas diversos, como parentesco, organização social, guerra, arte, mitologia, xamanismo e ritual entre os povos nativos de vários continentes, além de trazer reflexões originais sobre o pensamento ocidental, como aquelas sobre a história e a ciência. Um pressuposto aqui apresentado é que o sucesso do autor em selecionar conceitos e discernir problemas próprios ao pensamento indígena está ligado ao seu interesse pela diferença, ao gosto pelo outro, e à capacidade de se colocar em seu lugar e pensar como ele.

A força da obra de Lévi-Strauss deve-se à sua capacidade de manter fina sintonia com o pensamento indígena, extraindo dali os conceitos sobre os quais erige suas análises. Essa opção é particularmente visível nas monumentais Mitológicas, compostas de quatro volumes principais, publicados entre 1964 e 1971. Ali, um conjunto de mais de 800 mitos é analisado a partir de categorias próprias aos nativos, algumas relacionadas com o mundo sensível, tais como cru e cozido, quente e frio, alto e baixo, e outras propriamente sociológicas ou cosmológicas, como conterrâneo e estrangeiro, parente e inimigo, humano e não humano.


Análise se torna ‘pensamento selvagem'

O sucesso de Lévi-Strauss em selecionar conceitos e discernir problemas próprios ao pensamento indígena está relacionado a um gosto pelo outro, que se configura de modo semelhante àquele descrito aqui: o interesse por sua diferença. Não se trata - e isso é essencial - de uma diferença que hierarquiza, ao despir o outro de sua humanidade, mas que, ao contrário, o humaniza. É essa humanidade partilhada a condição de possibilidade do encontro.

Mais do que isso, entretanto, essa sintonia pode ser relacionada com uma concepção do trabalho intelectual que às vezes - certamente no que diz respeito à produção das Mitológicas - surpreende por sua continuidade com o "pensamento selvagem". Em entrevista concedida ao escritor e filósofo francês Didier Eribon, ao falar sobre a escrita das Mitológicas, mas referindo-se à sua obra como um todo, Lévi-Strauss observou: "O livro passa através de mim. Eu sou o lugar em que, durante alguns meses ou anos, as coisas se elaboram e se organizam e depois separam-se como se fossem uma excreção."

Na abertura de O cru e o cozido, primeiro volume das Mitológicas, Lévi-Strauss afirma que: "(...) finalmente dá no mesmo que, neste livro, o pensamento dos indígenas sul-americanos tome forma sob a operação do meu pensamento ou o contrário. O que importa é que o espírito humano, indiferente à identidade de seus mensageiros ocasionais, manifesta aí uma estrutura cada vez mais inteligível (...)" E conclui: "Não pretendemos, portanto, mostrar como os homens pensam nos mitos, mas como os mitos se pensam nos homens, e à sua revelia." O resultado dessa empresa não poderia ser outro senão um mito, ou seja, um produto da mesma natureza que aquele produzido pelos índios. As palavras do autor são precisas: "E querendo imitar o movimento espontâneo do pensamento mítico, nosso empreendimento (...) teve de se curvar às suas exigências e respeitar seu ritmo. Assim, este livro, sobre mitos, é, a seu modo, um mito."

Ao gosto pelo outro do antropólogo soma-se então um "pensamento selvagem", capaz de se colocar no lugar desse outro, adotar a sua perspectiva e falar como ele. AV


Interesse pela diferença filtra visão sobre culturas

Esse gosto pelo outro fica claro nas relações dos índios com os primeiros europeus. Como explicar, indaga-se Lévi-Strauss, a docilidade e rapidez com que os conquistadores foram acolhidos pelos habitantes do Novo Mundo e incorporados em sua mitologia, como se nela já existisse um lugar vazio à sua espera? Mas esses amantes do outro se depararam com a sua obsessão com a identidade dos europeus, empenhados em transformar os índios em réplicas de si mesmos, projeto quase sempre fadado ao fracasso, o que justificou as mais diferentes empresas de extermínio e subjugação.

É importante observar, entretanto, que a sua diferença em relação aos outros é preservada pelos indígenas de um modo peculiar, sugerindo, à primeira vista, uma coincidência entre os movimentos levados a cabo pelos europeus e pelos nativos. Assim, se os primeiros queriam transformar os índios em réplicas de si mesmos, estes pareciam aceitar, de bom grado, as atitudes dos invasores, insinuando que estavam prontos a acatar seu projeto.

Não se trata, como poderia parecer a um leitor menos familiarizado com esse tema, do reconhecimento esperado da superioridade dos costumes e das invenções dos brancos, pois há um aspecto desse comportamento que também não passou despercebido pelos autores: a sua oscilação. Como explicá-la?

São diversos os trabalhos antropológicos que tratam do modo como os nativos se apropriam da alteridade, digerindo-a e incorporando-a, para depois reconstituí-la, visto que a anulação da diferença tem como consequência a paralisia da "máquina do universo", conforme expressão de Lévi-Strauss em História de lince. Ao modo dos xamãs, que devem conviver com os deuses ou espíritos animais para adquirir uma capacidade suplementar, fundada justamente na transformação propiciada por essa proximidade, os índios desejam estar perto dos brancos, experimentar suas coisas, seus alimentos e suas roupas. Adquiridas as capacidades, esse outro é ‘re-situado' em seu lugar original, pois só assim, em sua plena diferença, pode continuar a prover as sociocosmologias nativas com os elementos para a sua transformação.



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