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Tecnologia ainda não seduziu a todos


Vanessa Fajardo
Do Diário do Grande ABC

30/08/2009 | 07:00


Na casa do aposentado Cezar Livio, 66 anos, em São Bernardo, DVD ou Ipod não tem vez. Lá, a vitrola fabricada em 1923 e o rádio a válvula, de 1940, dominam. Livio sabe que manter os aparelhos está fora de moda, mas como funcionam perfeitamente - ele faz questão de frisar isso - nem se preocupa que o tempo tenha os tornado obsoletos.

Também não se rendeu aos encantos do celular. Os filhos já quiseram presenteá-lo sob o argumento de que o objeto é necessário, mas ele recusa. Aceitou uma TV nova, mas exigiu "que o controle remoto não tivesse muitos mecanismos." Parentes e amigos reclamam da resistência de Livio em "partir para o mundo moderno." Ele? Nem se abala, pois faz parte do grupo de pessoas avessas à tecnologia.

"As coisas de antigamente duravam mais. Hoje, tudo quebra", diz. "Meus filhos dizem que os faço passar vergonha. Uma vez fui ao mercado e perguntei se não havia sabonete da marca Life Boy (da década de 1950)", conta, aos risos.

Do computador, Livio passa longe. "Não sei nem ligar. Quando parei de trabalhar, em 1990, já tinha computador, mas minha secretaria fazia tudo por mim", lembra. A máquina de datilografia ele deixou em Nova Friburgo (RJ), sua cidade natal. Distante dela, o jeito é escrever - algo que adora - com caneta e papel.

Questionado se sente-se parado no tempo, o aposentado rebate. "De jeito nenhum. Gosto de ler e ver TV., Adoro rádio, durmo com ele ligado. Vejo debates no Congresso e estou sempre atualizado."

SAUDOSISMO - Morador de Santo André, Alberto Luiz Grisaro, 79 anos, também mantém em casa máquinas de datilografia da década de 1980, discos de vinil e uma vitrola. De vez em quando arrisca escrever nas máquinas, pois acha que são mais rápidas que os computadores.

"No computador fica mais bonito, mas demora para ligar. Às vezes penso em fazer um curso, mas ainda não peguei gosto pela internet. Acho que não teria paciência de ficar muito tempo em frente à tela."

Desde que ganhou um "toca CD" de presente, dispensou a vitrola. Mas o estilo musical das antigas perdura: chorinho e música brasileira. "Tenho saudades do tempo de moço", confessa.

DIVERSIDADE - Professor da Escola Politécnica da USP (Universidade de São Paulo), Marcelo Zufo não vê problemas com as pessoas que não querem aderir à tecnologia. "É a diversidade da vida moderna. Temos de respeitar e ser tolerantes com essas pessoas."

Para ele, a humanidade dá os primeiros da primeira fase da revolução tecnológica e ainda há muito a evoluir.

Eletrônica é indispensável para muitos

Se tem gente que prefere viver alheia à tecnologia, há quem não dispense equipamentos eletrônicos. Aliás, para muitos, a tecnologia é fonte de renda. Caso do empresário Francisco Antonio Soeltl, 59 anos, morador de São Caetano, que possui uma empresa que oferece soluções de tecnologia.

"Sou usuário intensivo. Sem tecnologia não consigo viver", diz. Na década de 1980, já tinha notebook e usava o sistema de correio eletrônico dentro das empresas que prestava consultoria.

Em 1975, pediu para a escola em que trabalhava adquirir retro-projetores para dinamizar as aulas. "Não concordo que as pessoas mais velhas tenham mais dificuldade em aderir à tecnologia. Talvez deixem de usar porque não enxergam utilidade na ferramenta. Meu pai, por exemplo, tem 85 anos, usa skype e tem e-mail. Recentemente dei para ele um notebook com webcam embutida. Ele adora. Achar que a idade cria barreiras é muito ultrapassado."

NOVA GERAÇÃO - Giulia Andrade Sperandio, 12 anos, de Santo André, nunca ouviu o som de um disco vinil. Desde os nove tem telefone celular e já faz tanto tempo que foi apresentada ao computador que nem se lembra mais quando foi. "Não imagino o mundo sem tecnologia. Adoro TV, vídeo games e principalmente internet." Giulia até tentou inserir a avó materna no mundo digital, fazendo o cadastro dela no Orkut, mas ela nunca acessa a rede.

A irmã Giovanna, 16 anos, também aproveita as ferramentas do mundo moderno. Costuma estudar com os amigos pelo MSN, diz que não viveria sem o telefone celular, usa o Ipod para escutar música, mas faz críticas ao excesso de informalidade. "Acho que a tecnologia facilita a vida das pessoas, mas, ao mesmo tempo, as afasta umas das outras, Tem muita gente que só conversa pelo computador."

‘Hoje, os equipamentos são mais frágeis', diz alfaiate

Morador de Santo André, Bertho Pístola, 75 anos, tem uma profissão que possivelmente não vai resistir ao tempo: ele é alfaiate. Na verdade, há oito anos, passou o bastão ao filho de 47 anos, único entre os cinco herdeiros que decidiu seguir o ofício do pai. "Ensinei ele, mas às vezes venho aqui para cortar um paletó. Antes tinha muita freguesia, mas aos poucos foi caindo por causa das confecções. Hoje, pedem mais consertos do que roupas."

Os instrumentos usados na alfaiataria da família, como o ferro de dez quilos, a tesoura alemã, as almofadinhas e cavaletes de madeira de apoio para passar os ombros dos paletós têm mais de meio século. "Usava desde quando comecei na profissão, aos 11 anos. Hoje, os equipamentos são mais frágeis."

Pístola sabe que os alfaiates perderam para a tecnologia, mas não se queixa. Para ele, a atual indústria têxtil substituiu o trabalho deles com rigor. "Tem coisa boa que veste direitinho. A gente reconhece de longe. Os artistas da TV estão sempre bem vestidos."

Aposentado das máquinas de costura, linhas e agulhas, Pístola agora só pensa em "descansar e pescar." Também tem planos de aprender a usar o telefone celular que sua esposa ganhou. "Vou ver se consigo."



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