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'Hoje, os sonhos estão indo embora'


Do Diário do Grande ABC

09/11/2008 | 07:06


A ginecologista Albertina Duarte Takeuti, coordenadora do programa Saúde do Adolescente do Estado é considerada uma das maiores observadoras da juventude. Segundo ela, a perspectiva de futuro faz com que jovens façam escolhas de risco.

DIÁRIO - Quais os principais desafios da juventude desta geração em relação à anterior?

ALBERTINA DUARTE TAKEUTI - As perspectivas mudaram. A geração de jovens dos anos 1980 viveu em tempos de movimentos sociais, como o Diretas Já!. Havia um coletivo de esperança. Hoje, os sonhos estão indo embora. Falta uma perspectiva de futuro e de coletivo.

DIÁRIO - Nesse cenário, como fica a tendência natural de os jovens se agruparem e reivindicarem?

ALBERTINA - São características que permanecem. Eles questionam a família, querem buscar seus pares, mas hoje o meio não oferece perspectivas de um país melhor. Eles têm de encarar realidades que não eram temas de destaque no passado, como a violência. Como precisam se relacionar, isso faz com que eles muitas vezes optem por situações como integrar coletivos perigosos, como as gangues, ou, ainda, isolarem-se, ou melhor, algemarem-se a um namoro.

DIÁRIO - Quais os riscos dessas escolhas?

ALBERTINA - Primeiro, sem o coletivo, o jovem não desenvolve o juízo crítico. Então, ele precisa viver em grupo para testar seus limites e o dos outros. Agora, pergunto, quais sãos os limites de uma gangue? Já sozinho ou só se relacionando afetivamente com uma namorada, o perigo é de se desenvolver poucos limites, o que vai dificultar sua inserção futura na sociedade.

DIÁRIO - Como os pais podem ajudar?

ALBERTINA - O diálogo é a solução. Mas os pais têm de entender que diálogo não é monólogo! Diálogo é ouvir, falar, discutir pontos de vista. Quando os pais não fazem isso, os jovens vão buscar isso nas amizades e no namoro, esquecendo-se até de que seus pares estão passando pelo mesmo momento de perplexidades em relação à vida.

DIÁRIO - Pais podem se colocar na posição de amigos?

ALBERTINA - Isso é uma distorção. Pai é pai e mãe é mãe. Jovens precisam sentir limites, mesmo que seja para contestá-los. Há pais que impõem limites, mas voltam atrás e acabam perdendo a autoridade. Depois não há como reclamar sobre indisciplina.

DIÁRIO - É possível colocar limites quando o assunto é consumo?

ALBERTINA - Sim. A questão é que há pais que fantasiam a realidade para não destruir sonhos e, com isso, acabam dificultando a vida dos filhos. Veja: além de ficarem mais distantes fisicamente por terem de despender mais tempo no trabalho para bancar o consumo, os pais criam a ilusão de que tudo, ou quase tudo, está ao alcance. Resultado é que esses jovens tendem a gastar mais do que podem e, no futuro, acabam se tornando adultos endividados.

DIÁRIO - Como assim?

ALBERTINA - Por exemplo, ninguém pode pensar que no primeiro emprego os jovens terão condições de sustentar seus desejos de consumo.

DIÁRIO - Então o jovem é uma vítima?

ALBERTINA - Sem dúvida. Acho que só os muito fortes conseguem viver na realidade. O grau de exigência de consumo é gigantesco em relação à época de seus pais. Até a alimentação faz parte destas cobranças. Alguém imagina um jovem levando lanchinho feito em casa para comer na escola? Imagine, o legal é ter conta na cantina! O tênis não pode ser genérico ou pirata, tem de ser da marca ‘X'. Aliás, chego a achar que as notas escolares acabaram ficando em segundo plano em relação aos bens de consumo. A pressão é para ‘ter', enquanto no passado recente era para ‘ser'.

DIÁRIO - E a sexualidade?

ALBERTINA - Passa antes pela aceitação do corpo e, de novo, o jovem está encurralado. Antes, a preocupação dos meninos era com o tamanho do pênis. Hoje o assunto é a massa muscular! As meninas também sofrem tantas pressões para que se enquadrem nos padrões que chegam a pedir plásticas para colocar silicone nos seios como forma de se sentirem aprovadas.

DIÁRIO - Se não bastasse a preocupação com as grifes, há a preocupação com o corpo...

ALBERTINA - A plástica acabou se tornando o passaporte para a aceitação. Nesse contexto, como fica a cabeça de quem é baixinho e gordo, quando o biótipo padrão é ser alto e magro?

DIÁRIO - Quando o corpo deixa de ser uma preocupação natural para se tornar exagerada?

ALBERTINA - É natural os jovens sentirem ansiedade e até incômodo com as transformações que eles não controlam, como os braços e rosto crescendo desproporcionalmente, surgimento de acnes. O problema é a crise de identidade visual, provocada pela cobrança social para se ter um padrão de formato de corpo, em geral baseado no visual de ídolos.

DIÁRIO - É que essa geração é bastante visual ...

ALBERTINA - Sites, revistas, programas na TV, tudo impõe um padrão de perfeição até irreal, afinal as mídias fazem o tratamento da imagem, o famoso Photoshop. Imagine como se sente uma garota quando vê que uma artista muda o formato do corpo em poucas semanas e ela não consegue controlar o crescimento dos quadris, por exemplo? Há pesquisas que apontam que 67% de jovens entre 10 e 20 anos estão descontentes com suas formas físicas e outros 33% sentem vergonha do corpo.



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