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'Faltou competência no Pan do Rio', diz ministro


Angelo Verotti, Nilton Valentim, Raphael Ramos

06/07/2008 | 07:07


Baiano, torcedor do Vitória e ex-líder estudantil. Essa pode ser uma visão simplista de Orlando Silva, que aos 37 anos, se transformou em um dos homens mais importantes na estrutura do governo Lula. Nunca o Ministério do Esporte teve um papel tão central no País como nos últimos anos.

Com a organização dos Jogos Pan-Americanos do Rio em 2007, a eleição do Brasil como sede da Copa do Mundo de 2014 e a escolha da capital carioca como uma das finalistas da Olimpíada de 2016, o Brasil entra definitivamente na rota dos grandes eventos esportivos do planeta. Envolvido no escândalo dos cartões corporativos, quando devolveu R$ 30.870,38 aos cofres públicos, Orlando Silva trata a transparência nos gastos de sua pasta como uma prioridade.

Ele, inclusive, critica as sucessivas revisões no orçamento do Pan do Rio, que teve um aumento de 700%. Para a Copa de 2014, o ministro garante que tudo será diferente. E as contas não estarão abertas apenas para conferência do TCU (Tribunal de Contas da União) e da CGU (Controladoria Geral da União). Ele também quer colocar entidades da sociedade que costumam acompanhar de perto o Governo para fiscalizar os gastos do Mundial e, assim, evitar novas tensões e desgastes. Leia abaixo trechos da entrevista concedida na segunda-feira ao Diário.

DIÁRIO - Como o senhor vê a proibição de bebidas alcoólicas nos estádios?
ORLANDO SILVA - A CBF (Confederação Brasileira de Futebol) baixou uma resolução que sei que não vai resolver o problema da violência, mas serve para inibir. Hoje, temos poucos conflitos nos estádios. Temos mais conflitos no entorno, nos acessos e nos pontos críticos de confluência do tráfego. Mas acho que a redução no consumo do álcool pode contribuir para isso. No mundo inteiro, as grandes rendas vêm da transmissão da TV, da transferência de atleta e da bilheteria. Então, sou a favor que criem espaços confortáveis nos estádios para atrair as famílias. Quanto mais renda, melhor para o futebol.

DIÁRIO - Qual a sua opinião sobre os contratos de TV? Temos vários casos de total dependência dos clubes.
SILVA - Na medida em que o clube antecipa tantos anos da sua cota de TV, ele se vincula a um contrato antecipadamente. Temos aí, dois problemas: você inibe a concorrência e cria uma gestão nos clubes que gera dependência de uma única fonte de receita. Mas sou otimista. Há uma evolução no futebol brasileiro. Aqui mesmo em Santo André tem um clube que implantou uma gestão empresarial, pois tem a dimensão que o futebol é um negócio e deve ser tratado profissionalmente.

DIÁRIO - Há confederações e clubes que têm presidentes que se perpetuam no cargo. Isso pode mudar?
SILVA - A gestão pública deve, obrigatoriamente, seguir as leis do país. No Brasil, a constituição estabelece que a administração do esporte tem um caráter privado. As entidades têm autonomia para se organizar do jeito que quiserem. O principal é que cada entidade tenha uma gestão profissional, com planejamento e organização. Quando isso acontece, as críticas são menores. Veja o caso do vôlei, que ganha a maior parte dos torneios que disputa. Assim, se ouve pouca crítica do Ary Graça (presidente da CBV). Mas acredito no planejamento e na cultura que valoriza, sobretudo, os atletas.

DIÁRIO - Quais são as chances de o Rio ser escolhido sede da Olimpíada de 2016?
SILVA - Estive em Atenas quando foram anunciadas os finalistas e vi que o Brasil goza de um prestígio internacional muito grande. A estabilidade e o crescimento econômico contam muito. O Brasil é mais confiável. O fato de duas agências terem classificado o Brasil como um destino seguro de investimentos aumenta a credibilidade. Até comentei que o COI (Comitê Olímpico Internacional) deu o terceiro grau de investimento ao País, quando reconheceu que o Rio poderia ser finalista. Também há outro fator: o impacto do Pan no Rio foi muito grande. Os dirigentes se surpreenderam com as instalações, o padrão da Vila e os serviços de transporte, segurança, saúde e alimentação. A terceira questão que me deixa otimista é o legado. Cidades como Tóquio, Madri e Chicago estão prontas. O impacto dos Jogos nessas cidades é muito pequeno. No Rio, não. O aeroporto vai ficar novinho em folha, o projeto de mobilidade urbana vai contemplar a expansão do metrô, a criação de corredores de ônibus e algumas áreas serão revitalizadas. A cidade vai ganhar tanto que pode sensibilizar o COI. Creio que a importância para nós é muito maior do que para os outros e isso pode ser levado em conta.

DIÁRIO - As deficiências são os pontos fortes do Rio?
SILVA - Seguramente. O desafio é fazer dos limões uma boa limonada.

DIÁRIO - No Pan do Rio, o orçamento extrapolou 700%. Para a candidatura do Rio, a verba inicial de R$ 85 milhões já passou para R$ 120 milhões. Por quê?
SILVA - Nos Jogos Pan-Americanos houve erro no planejamento. Isso gerou um desgaste enorme, pois o Governo Federal administra dinheiro público e temos de prestar contas de cada centavo que é gasto e a sociedade se surpreendia com revisões sucessivas no orçamento. Quando se apresentou a candidatura do Rio para o Pan, falou-se em gastar US$ 200 milhões. Mas em 2002, o câmbio estava quase um para quatro, então estávamos falando em R$ 800 milhões. Em 2008, US$ 200 milhões são R$ 300 milhões. Mesmo assim, houve um crescimento quatro vezes maior do que o original.

DIÁRIO - Como pode se explicar isso?
SILVA - O problema não foi fazer o investimento, foi não ter previsto esse investimento. Por isso, considero que faltou competência na preparação. E não quero dizer que foram os governos municipais, estaduais, federais ou o governo anterior. Foi um problema conjunto. Faltou competência para prever os investimentos. O caso da Olimpíada é diferente. A candidatura do Rio tem um orçamento já aprovado pelo COI de US$ 42 milhões. Mesmo se quiserem gastar mais, não é possível, pois a verba que o COI autorizou é essa. O que existe são outros projetos que vão de encontro à candidatura, mas são independentes.

DIÁRIO - Para a Copa de 2014 vai ser diferente?
SILVA - No planejamento da Copa vamos separar bem o público do privado e criar espaço para que o privado participe mais. No Pan, a participação privada ficou aquém do esperado. Acreditamos que, como a Copa envolve grandes patrocínios, isso possa desonerar um pouco a participação do Estado. Também tenho procurado algumas instituições da sociedade para acompanhar a organização. No Governo, temos o Tribunal de Contas da União e a Controladoria Geral da União, que nos controlam, mas acho importante dialogar com algumas instituições que fazem o acompanhamento do Estado para que não haja tensões e dúvidas com relação aos gastos.

DIÁRIO - Nenhum estádio tem condições de sediar a Copa. Em seis anos, dá para deixar tudo pronto?
SILVA - Confesso que os investimentos em infra-estrutura me preocupam mais, como a rede hoteleira, os aeroportos, as estradas e os portos. O tempo é curto, mas o Brasil tem capacidade e potencial.

DIÁRIO - O que a Copa e a Olimpíada podem trazer de benefícios para regiões como o Grande ABC, que não estarão envolvidas diretamente nessas competições?
SILVA - Na Copa, o Grande ABC, pelo peso econômico e estrutura hoteleira que possui, pode se qualificar para participar da aclimatação das seleções. A região tem muitas tradições culturais com a presença de italianos, alemães, árabes e orientais. Muitas dessas seleções buscarão um clima favorável para o período de preparação. Tudo vai depender das cidades estruturarem um bom projeto e investirem em espaços para treinamento. Já no caso da Olimpíada, a participação do Grande ABC pode ser no suporte da preparação brasileira. Historicamente, tivemos muitos atletas formados aqui ou que vieram para cá por causa das instalações que a região oferece. O esporte brasileiro depende do Grande ABC para se fortalecer nacionalmente.

‘Rezo para não tirarem o Dinei do Vitória'

Ao lado da organização da Copa do Mundo de 2014 e da candidatura do Rio para a Olimpíada de 2016, o ministro Orlando Silva trata outra questão como prioritária para o desenvolvimento do esporte no Brasil: conter o êxodo de jovens talentos para o Exterior.
"Rezo todo o dia para que não levem o Dinei lá do meu Vitória, que é um dos artilheiros do Brasileiro. O cara faz três ou quatro gols, vira craque e é contratado por uma equipe da Europa", afirmou.

Orlando Silva afirmou que estuda com João Havelange (ex-presidente da Fifa) e Ricardo Teixeira (presidente da CBF) a possibilidade de enviar à Fifa um pedido de mudança na regra de transferência de jogadores de futebol. "Hoje, o regulamento da Fifa diz que o atleta está em formação dos 12 aos 23 anos, excepcionalmente aos 21. Como outro artigo da Fifa aprova a transferência internacional somente a partir de 18, temos uma congruência aí. Queremos que a transferência só possa acontecer a partir dos 21. Esses três anos a mais são importantes, pois poderíamos formar melhor o ídolo. Para cada Robinho no Real Madrid, temos 1.000 jovens perambulando pela Europa", afirmou.

E não é apenas o futebol que o preocupa. O assédio dos estrangeiros atinge várias modalidades. "No vôlei, todos os jogadores da seleção estão fora. No masculino, só me recordo do Bruninho que ainda está no Brasil. No feminino, São Caetano trouxe de volta a Fofão, mas também tem uma quantidade muito grande de atletas fora do País. Poderia falar também da NBA. Quantos brasileiros têm lá? Até no pólo aquático estamos exportando. Um dos melhores jogadores do mundo (Tony Azevedo) é brasileiro e joga na seleção americana."

Para esses esportes, uma das saídas está na Lei de Incentivo ao Esporte. "Recebemos mais de 800 projetos, foi autorizada a captação de cerca de R$ 125 milhões e outros R$ 60 milhões já foram captados por conta dessa lei. Aposto que, com essa lei, as confederações poderão captar patrocinadores e estimular as competições, que é a fórmula de manter os atletas no País."



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