Inovação

O bacharelado em neurociência da UFABC, iniciado neste ano, é a primeira graduação do gênero no País. A iniciativa da universidade foi elogiada ontem por uma das maiores autoridades mundiais no assunto: o brasileiro Miguel Nicolelis, pesquisador da Universidade de Duke, nos Estados Unidos, e um dos 20 cientistas de maior destaque do planeta, segundo a revista Science.
A convite da UFABC, Nicolelis palestrou ontem no Cenforpe (Centro de Formação dos Profissionais da Educação), em São Bernardo, para plateia de quase 2.000 estudantes de diversas universidades da região, todos interessados em ouvir as palavras do cientista que quer fazer uma criança com lesão medular irreversível andar e chutar a bola na abertura da Copa do Mundo de 2014, no Brasil.
O projeto The Walk Again (Andar de Novo, em português) foi criado há quatro anos e reúne cientistas de todo o mundo, incluindo Nicolelis, com a meta de fazer a ciência transformar a vida de pessoas com deficiência. O principal objetivo é criar uma espécie de robô, chamado de exoesqueleto, que possa se movimentar impulsionado por estímulos cerebrais da criança escolhida para o "gol histórico da ciência brasileira para toda a humanidade", como diz o neurocientista e palmeirense roxo, apesar de ter morado mais de 30 anos nos Estados Unidos. O exoesqueleto está sendo construído em partes por cientistas da Alemanha, que começaram a testar o uso das pernas mecânicas em macacos.
Para quem vê a possibilidade de uma criança paraplégica voltar a andar e chutar uma bola como um sonho distante, fica o alerta: Nicolelis e sua equipe conseguiram fazer macacos nos Estados Unidos moverem um robô humanóide no Japão por meio de estímulos cerebrais transmitidos por uma rede de internet superpotente. Enquanto os macacos norte-americanos caminhavam numa esteira a fim de movimentar uma imagem virtual do robô à frente deles, o robô japonês, por sua vez, respondia a cada pensamento com 20 milissegundos de antecedência. Ou seja, o robô dava o passo antes do macaco, porque o cérebro do animal pensava antes de agir.
NEURÔNIOS
A culpa disso tudo é dos neurônios, que são estimulados em grupos sempre que aprendemos qualquer tarefa motora, desde andar a entender a diferença das cores de um semáforo. Até o fim do século 19, cientistas acreditavam que cada neurônio correspondia a um exato comportamento motor. A partir de 1949, cientistas começaram a derrubar esse conceito, mas só foi possível começar a observar vários neurônios agindo para executar uma determinada tarefa a partir da década de 1990.
O primeiro trabalho de Nicolelis conseguiu medir os impulsos elétricos de 26 neurônios. Hoje, a ciência é capaz de registrar 10 mil deles em plena atividade, chamada de tempestade neural, ou brainstorm, em inglês.
A intenção de Nicolelis é aplicar os resultados de seus experimentos em pessoas que perderam a mobilidade, mas mantêm a capacidade de produzir impulsos neurais intacta. "Se não conseguirmos fazer o garoto ou garota andar na Copa do Mundo, temos um plano B: a abertura da Olimpíada. Mas o mais importante é o caminho que percorremos até aqui e a perspectiva constante de superar a si mesmo. Nada é impossível quando o sonho é grande e a alma ousada", garantiu.
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