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Preconceito ainda marca religiões afro

Orlando Filho/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Angela Martins
Do Diário do Grande ABC

20/11/2011 | 07:00


Que atire a primeira pedra quem nunca usou o termo macumba para se referir às atividades relacionadas às religiões de origem afro-brasileiras. Cercadas de mistérios para a maioria da população, a Umbanda e o Candomblé são alvo de preconceito da sociedade. Muitos dos frequentadores, inclusive, preferem permanecer no anonimato. Hoje, no Dia Nacional da Consciência Negra, o culto aos orixás é uma das heranças celebradas.

"A estimativa é de que 15% da população do Grande ABC sejam praticantes dessas religiões, mas temos dificuldade em quantificar nossos seguidores, já que muitas pessoas se dizem católicas ou espíritas para fugir do preconceito", explica o presidente da Federação Umbandista do Grande ABC, Ronaldo Antônio Linares, ou apenas Pai Ronaldo. Com 40 anos de atividade, a entidade possui hoje 2.200 associados.

Anterior à fundação da instituição, o Santuário Nacional da Umbanda, localizado em Santo André, é refúgio para quem quer levar suas oferendas e orações aos orixás, caboclos e outros guias. São 645 mil metros quadrados, com menos de 5% de área construída. "Quando chegamos aqui, em 1972, era um local devastado por décadas de exploração mineradora. Hoje temos uma floresta exuberante", orgulha-se Pai Ronaldo.

Fundada pelo carioca Zélio Fernandino de Moraes em 1908, a Umbanda é um culto espírita, ritmado e ritualizado, de origem euro-afro-brasileira. Misturando elementos brancos, negros e indígenas, hoje seus seguidores são em sua maioria de cor branca. Na gira - o culto - os umbandistas fazem preces, cantam, tomam bênçãos, fazem a defumação com ervas e incorporam guias como pretos-velhos, baianos, boiadeiros, ciganos, marinheiros e cablocos.

"Neste momento fico um pouco perdida, tenho meu ‘eu' afastado do meu próprio corpo. No começo tinha medo, mas agora sei que a entidade não fará mal e cuidará bem de mim", diz a babalorixá - dirigente espiritual - Dirce Paludetti, 71. São 30 anos na função e 40 de Umbanda. "Na verdade, não há nada melhor do que poder ajudar aos outros", define.

Muito semelhantes em seus rituais, o Candomblé e a Umbanda se diferenciam, principalmente, porque no primeiro caso existe o sacrifício de animais (leia reportagem ao lado), e não há a incorporação de guias espirituais, somente dos orixás. Em ambos, a figura do Exu - intermediário entre os deuses e os homens - está presente. "Exu é o guardião da Casa, nos protege de tudo que é ruim, dos bandidos. Muita gente pensa que Exu e Pombagira só servem para fazer o mal, mas não é verdade", afirma Marli Raquel Rodrigues do Amaral, ou simplesmente Mãe Sessé, ialorixá do terreiro Ilé Ache de Oxumarê, o mais antigo de São Bernardo, com 300 seguidores.

Sessé herdou a "roça" após o falecimento da mãe, há 12 anos. "A responsabilidade é muito grande. Fui escolhida aos 9 anos e hoje cuido dos meus filhos com carinho. É preciso ensinar desde cedo a respeitar nossa terra."

Sacrifício de animais é tabu para sociedade 

O sacrifício de animais para rituais no Candomblé é um dos elementos que mais assustam a sociedade. A explicação dos seguidores é que os orixás alimentam-se da energia do sangue. "O que não pode haver é o exagero que vemos em muitos terreiros por aí. Também é preciso que as pessoas entendam que nós consumimos a carne do animal", explica Mãe Sessé.

Um projeto de lei que proíbe o sacrifício de animais em práticas de rituais religiosos no Estado de São Paulo está preocupando os seguidores da religião. Proposto pelo deputado estadual Feliciano Filho (PV) o texto prevê multa de 300 Ufesp (Unidade Fiscal do Estado de São Paulo) ou R$ 5.200 para cada infração, dobrando de valor em caso de reincidência. "Se aprovado, voltaremos à época dos escravos, que faziam seus trabalhos escondidos durante a madrugada", lamenta a ialorixá.

Segundo a professora e pesquisadora da área de Antropologia da Religião na Universidade Federal do ABC, Ana Keila Mosca Pinezi, não é possível compreender um ritual fora de seu contexto. "Os rituais que ocorrem no Candomblé, como em qualquer outra religião, precisam ser compreendidos a partir de seus símbolos e significados. Os sacrifícios religiosos estão, em geral, voltados para oferendas a uma divindade ou para um ritual iniciático."

Para a especialista, o respeito deve estar presente em todas as relações sociais que se travam no contexto do contato com os diferentes, o que não significa a adesão ou mesmo o estabelecimento de único gosto ou valor que todos deverão tomar para si.

População negra e parda aumenta nos últimos 10 anos

O número de negros e pardos aumentou na região, de acordo com dados do Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, divulgados nesta semana. São 896.064 pessoas que se declaram negras ou pardas no Grande ABC, representando a parcela de 35,1% do total. Em 2000, eram 655.886 habitantes, aumento de 10,4% em 10 anos.

Em todas as cidades houve crescimento da população negra e parda, enquanto o número de brancos diminuiu. No levantamento de 2000, eram 1,650 milhão de pessoas que se declaravam brancas e agora são 1,61 milhões. Na região, Rio Grande da Serra é a cidade que mais concentra negros e pardos, com 52,1%. Em segundo lugar fica Diadema, com 49,6%.

O índice registrado no Grande ABC é maior do que o registrado pelo País. Nacionalmente, a população negra e parda aumentou 6,1% entre os dois levantamentos do IBGE, contabilizando 30 milhões de pessoas.

ETNIAS

Os que se declaram da raça amarela passaram de 28.767 para 34.056 pessoas, concentrados em sua maioria nas cidades de São Bernardo e Santo André. Já os indígenas perderam espaço na região. Em 2000, eram 3.789 habitantes e hoje são 2.358.



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