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Mensalão ainda
existe, diz deputado
Walter Feldman

Marina Brandão/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Um dos maiores escândalos políticos da história do Brasil, o Mensalão não acabou. Tampouco essa prática se restringe à relação da gestão de Luiz Inácio Lula da Silva (PT, 2003 a 2010) com o Congresso.


Bruno Coelho
do Diário do Grande ABC

21/07/2013 | 07:02


 Um dos maiores escândalos políticos da história do Brasil, o Mensalão não acabou. Tampouco essa prática se restringe à relação da gestão de Luiz Inácio Lula da Silva (PT, 2003 a 2010) com o Congresso. Trata-se de um vício ilícito enraizado no sistema político do País e atinge parlamentos municipais, estaduais e federal. Ainda que admita não ter provas e não cite nomes, essa é a visão do deputado federal Walter Feldman (PSDB-SP), que abraçou a criação o projeto da ex-presidenciável Marina Silva: a Rede Sustentabilidade. Para Feldman, a Rede é uma agremiação em sintonia com as manifestações populares, que sinalizam desgaste à classe política e anseiam por um sistema mais humanitário, justo e combativo à corrupção. Apesar de propor o novo, o parlamentar refuta que Marina não enxergue o passado bem-sucedido do PSDB e PT no comando do Brasil, mas aponta que essas legendas já cumpriram seu papel na história e hoje pouco se diferenciam. Ele afirma ainda que os partidos sequestraram a política, dominada por poucos e distantes de muitos, além de avaliar que a presidente Dilma Rousseff (PT) se curvou aos interesses do Congresso Nacional e não é capaz de promover as mudanças requisitadas nas ruas. Em relação a Lula, deputado acha que o maior líder do petismo está assustado ao ver que o PT perdeu o controle dos movimentos de massa. Confira abaixo os principais trechos da entrevista com Feldman, em que também condena o atual modelo eleitoral, classificando a eleição como uma “indústria”.

 

 

DIÁRIO –Há dificuldades de oficializar a Rede nos cartórios?

WALTER FELDMAN – É um processo burocrático e complexo. Pois você faz o preenchimento da ficha, que precisa ser presencial, e isso faz com que tenhamos de administrá-las para ver se não há algum tipo de erro que pode ocorrer em detalhes suficientes para impugnar. Normalmente, a rejeição seja na administração de quem organiza seja no cartório vai de 30% a 40%. Então, normalmente é necessário coletar o dobro do mínimo necessário, de 491 mil assinaturas. Mas estamos com as datas contadas e, se tudo der certo, é possível termos no começo de setembro a Rede aprovada.

 

DIÁRIO –Como foi a participação do Grande ABC nesse processo?

FELDMAN – Muito grande, seguramente uma parcela ponderável. São Paulo, claro, foi onde obteve mais assinatura. Tínhamos uma meta 203 mil assinaturas, já estamos próximos de 210 mil, significa um quatro de todo cenário nacional.

 

DIÁRIO –O sr. foi do PMDB, está desde 1988 no PSDB, mas agora trabalha para fundar a Rede. Qual a diferença dos dois partidos?

FELDMAN –Diria que há três momentos éticos muito fortes do questionamento da estrutura partidária e do sistema político do Brasil. A primeira é a criação do PT, no fim da década de 1970, esforço para incorporar os trabalhadores na vida política no Brasil, que ainda não tinham um protagonismo direto. A segunda foi o PSDB, que questionava o modelo de uso de máquina, sistema de contratação que o PMDB utilizava. E hoje vivemos uma estagnação partidária, os partidos se assemelharam muito nas suas práticas. Esse presidencialismo de composições partidárias estranhas e contraditórias pela governabilidade pós-eleitoral fez com que as legendas se acomodassem. Então, a Rede vem como terceira onda ética, que se propõe ser um novo modelo partidário como mudar o sistema político do Brasil.

 

DIÁRIO –Como o sr. enxerga a reação dos partidos às manifestações das ruas?

FELDMAN – Os partidos convencionais reagiram de maneira limitada, achando que têm autoridade e governança para fazer mudanças que o povo nem falou direito o que quer mudar. Os governantes perderam a capacidade de ouvir, apresentam fórmulas prontas, respostas rápidas. A Dilma talvez seja o melhor exemplo disso e os resultados das pesquisas demonstram que ela está inabilitada para fazer essa transição, principalmente porque está preocupada para sua reeleição.

 

DIÁRIO –Vimos a popularidade da maioria que têm mandato cair e da Marina aumentar. O que levou a isso?

FELDMAN – O cidadão se sente muito distante do governante e o governante, de forma arrogante, acha, depois das eleições, que se sente preparado para dizer o que o povo quer. Então, vamos ser humildes e tentar entender que é uma energia que vem das ruas que não pode ser tratada por polícia e respostas rápidas. Por isso que a Marina está crescendo (nas pesquisas), porque ela foi humilde e não quis ser oportunista, fazer de conta que era cabeça do processo. Há oportunismo, seja do PT que tentou capitalizar e eventualmente até comandar o movimento, como esses vândalos se aproveitando dos protestos.

 

DIÁRIO –PT e o PSDB perderam seus DNAs?

FELDMAN – Diria que atualmente PT e PSDB são muito diferentes de suas origens. Acho que o quadro político é de um novo momento. A Rede e a Marina podem oferecer isso, porque reconhece o passado. Quem não tem laços com passado é perigoso. O novo deve ser aquele que reconhece os avanços do passado e reconhece que é o momento de dar o salto. Esse novo, reconhecendo o passado, é avançar na estabilidade econômica e principalmente ter um modelo de Estado que não seja esse, inchado, que gasta parcelas ponderáveis dos recursos da população para alimentar a própria máquina, que cria estruturas para corresponder à governabilidade. Hoje no Brasil, os partidos (de maneira geral) sequestraram a política. Mas a política não é dos partidos. Dentro dos partidos, existem os caciques. Há dez pessoas que mandam na política brasileira, enquanto 200 milhões querem participar.

 

DIÁRIO –A Dilma tem 39 ministérios, frutos de relação política com o Congresso Nacional. Como implantar um novo sistema político entre deputados e senadores?

FELDMAN – O modelo do Brasil é o presidencialismo de coalizão (de partidos), em que o presidente compõe a maioria depois da eleição, com quem aceitar compor, independentemente de sua história e projeto. Leva à governabilidade de resultados, ou seja: ‘Venha para cá e em troca terá a contrapartida que desejarem’. Isso gerou o Mensalão. Trata-se de uma abertura do sistema ético jamais visto na história brasileira. Os parlamentares, segundo decisão consagrada do Supremo Tribunal Federal, foram pagos para votar a favor do governo. Isso existe no Brasil ainda? Existe em Câmaras municipais, Assembleias (Legislativas) e Congresso Nacional. Não estou dizendo que sei e que posso provar, mas são formas de cooptação, seja através de ministérios, cargos e emendas.

 

DIÁRIO –Como mudar esse cenário?

FELDMAN – É preciso mudar o sistema profundamente. Tenho uma origem parlamentarista. Por que o parlamentarismo seria melhor? Porque vai ao governo quem venceu as eleições, diferentemente do que é feito hoje. Pegaríamos os melhores quadros do sistema para gerenciar a estrutura do Poder Executivo. Se pegarmos o ministério da Dilma, vai ser duro dizer que os melhores quadros nacionais estão nas respectivas Pastas (...) O Executivo dá o espírito público. Por isso, o governante pode colocar o seu modelo de governança no Congresso. Mas, se for fraco como a Dilma, coloca o Congresso exigindo um modelo de trocas em que o governante terá de se curvar. No modelo brasileiro os governantes se curvaram ao Congresso.

 

DIÁRIO –Sem se curvar, dá para fazer parcerias com PMDB, PT e PSDB?

FELDMAN - Fizemos isso no governo Mário Covas. Acho que esse momento é melhor, pois as ruas não aceitam mais o velho modelo. Naquela época, não tínhamos as ruas nos apoiando. A Marina disse que gostaria de governar com os melhores quadros do PT, PSDB e todos aqueles que tivessem uma visão republicana.

 

DIÁRIO –Qual sua avaliação do Lula ir a público defender a reforma política, se nos oito anos de governo, o tema não teve avanços?

FELDMAN – Lula precisa se colocar de alguma maneira nesse novo momento. Ele ficou quietinho durante os períodos das manifestações, até porque na cabeça dele era difícil imaginar essas manifestações ocorrerem sem o comando do partido dele. O Lula é um homem assustado, acuado.

 

DIÁRIO –Ainda há espaço para o José Serra diante dessa mudança de pensamento político?

FELDMAN – Os movimentos do Serra levam a ideia de que ele será candidato a presidente por um outro partido. Acompanhei o Serra na última eleição. Em seguida comuniquei que estava encantado da proposta da Rede com a Marina. Então, não me sinto muito à vontade para opinar sobre o Serra. Ele tem direito e tem capacidade.

 

DIÁRIO –O sr. é a favor da reeleição?

FELDMAN – Sou contra a reeleição, não acho democrática, acho ruim, pois o candidato que concorre para se manter no poder tem uso de máquina, captação de recursos e publicidade desigual aos outros. Além disso, é uma incapacidade do partido em apresentar também alguém que tenha a mesma linha. Todos avaliam que cinco anos de mandato seria melhor.Sou a favor da unificação das eleições. O Brasil não pode viver a cada dois anos períodos eleitorais, é desgastante. A eleição virou uma indústria, onde grande parte dos recursos é canalizada para os construtores de imagens.

 

DIÁRIO –Se o Palácio do Planalto tem dez anos de PT, o PSDB tem 20 anos de Palácio dos Bandeirantes, o sr. também defende mudanças no governo estadual?

FELDMAN – Há um desgaste generalizado dos governantes e dos políticos em geral. Por isso, é muito provável que na próxima eleição dê uma varrida grande e produza alternativas aos atuais ocupantes. Tenho grande respeito ao governador Geraldo Alckmin, mas houve nessas manifestações desgastes dos governantes, ninguém ficou ileso. Se há uma renovação de 40% ou 50% em todas as eleições, acredito que na próxima será muito maior, levando para história muitos parlamentares e governantes.

 

DIÁRIO –Nesse processo de renovação, o sr. será candidato a governador de São Paulo pela Rede?

FELDMAN ­ - Na Rede é proibido falar de eleição, nem da Marina, pois ela não deixa, corretamente. Há um espírito na rede que antes de qualquer debate eleitoral, é preciso promover um debate organizado.

 

Região adere projeto da Rede, de Marina

Lideranças políticas do Grande ABC mostram empenho para a formação da Rede Sustentabilidade, partido idealizado pela ex-senadora Marina Silva. Um exemplo disso foi a coleta de assinaturas. Segundo o vereador de Santo André Almir Cicote (PSB), a região contribuiu com 50 mil apoiadores, sendo 25 mil de Santo André. Para o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) dar sinal verde para a criação da nova agremiação, são necessárias 491 mil adesões.

O resultado é fruto de uma ação direcionada nos sete municípios para coleta de assinaturas. Pelo Brasil, a Rede já tem coletada mais de 500 mil assinaturas, mas, como há margem para erros nas assinaturas, a meta é conseguir uma quantia segura para o partido ser legalizado até setembro, prazo limite.

Cicote afirma que há um grupo atuante em Santo André, mas confessa que muitos interessados ainda buscam vantagens políticas. Para ele, o desafio da Rede será mudar a mentalidade. “Há pessoas querendo participar, mas às vezes não sabem como é a linha de conduta dentro da Rede”, discorre.

Atuante na política andreense, a médica Ana Glória Kahn se entusiasma com a criação da legenda. “Posso dar testemunho que tenho amigos no Facebook que são prefeitos e vereadores. É impressionante como eles estão interessados em saber como é o partido.”



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