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A Sensibilidade

A palestra já passava de duas horas e por conta do grande número de perguntas e reflexões havia se transformado em um maravilhoso bate-papo


Carlos Ferrari

15/09/2010 | 00:00


A palestra já passava de duas horas e por conta do grande número de perguntas e reflexões havia se transformado em um maravilhoso bate-papo. Falar de acessibilidade sempre foi extremamente gratificante para mim, pois a partir desse assunto podemos entender toda a questão da deficiência sob olhar moderno e esclarecedor. O que era até a alguns anos encarado como patologia, praticamente institucionalizada como doença, atualmente toma outra dimensão, a de uma limitação que pode ser maior ou menor de acordo com as barreiras de caráter social e ambiental.

"Então, em muitos momentos a sociedade também se mostra deficiente?" Essa pergunta veio como um presente, porque me permitia dar uma série de exemplos da inadequação de nossa sociedade para os indivíduos que fazem parte dela. Pensei alguns segundos e devolvi a pergunta para o grupo. O resultado não poderia ter sido melhor. Em poucos minutos foram dados exemplos de barreiras impeditivas não só a deficientes físicos, sensoriais ou intelectual, como também a obesos, idosos, gestantes, anões enfim, a constatação de que o desenho social a cada dia exclui mais.

Desta forma ficou fácil mostrar o grande paradoxo em que vivemos. Estamos na era da segmentação, produtos dirigidos para mercados específicos. As ferramentas de marketing a cada dia nos oferecem maiores subsídios para conhecer o segmento adequado para um produto específico e vice-versa. No entanto, ainda nos deparamos com uma pessoa com deficiência com dificuldades na hora de definir um pacote turístico, ir ao shopping, ou mesmo fazer compras pela internet. Neste caso, quem é deficiente, o consumidor ou o mercado?

Felizmente, a luta de movimentos sociais organizados, somada à sofisticação na legislação e ao esforço de algumas iniciativas no setor privado, tem mudado rapidamente este cenário. A desmistificação da acessibilidade como problema de caráter exclusivamente arquitetônico fez com que a preocupação com a informação e a ambientação entrasse para esse debate.

Nas palavras de Barton, "o isolamento das instituições constitui a mais mortal de todas as deformidades" (Barton, 1996). Um cadeirante impedido de acompanhar um espetáculo teatral, um cego sem alternativas para operar um terminal bancário, um surdo sem possibilidades para acompanhar um filme, são exemplos claros dessa violência institucional.

Por fim, a pergunta que deu origem a esse artigo, uma senhora responsável por um museu me questionou, "Além de todos os aspectos técnicos e das leis relacionadas à acessibilidade, o que mais você destacaria como importante para inclusão de pessoas com deficiência?" Nesse momento, creio que falou mais alto toda a minha história e as pessoas que fizeram parte dela, sem dúvida a resposta era simples: a sensibilidade. A expressão, que soa muito parecida com acessibilidade, com certeza foi alicerce de muitas de nossas conquistas.

A sensibilidade do médico que contou aos pais sobre a deficiência do filho, mas soube também dizer "vá em frente, ele pode e o senhor e a senhora podem"; a sensibilidade de tantos que contrataram não pela lei, mas pela certeza do talento e pela responsabilidade enquanto empregador; a sensibilidade de amigos, maridos e esposas que amaram incondicionalmente, além das limitações, as potencialidades.

A sensibilidade abre caminhos e faz com que toda a beleza de Monet possa ser admirada por cegos. Faz com que surdos dancem com toda a leveza da primavera de Vivaldi e que cadeirantes emocionem o mundo com seu basquete mágico.

Então fica aqui a minha proposta: transformemos a sensibilidade em lei! Não temos a necessidade de ir ao congresso, fazer plebiscito ou pedir ao presidente que edite medida provisória. Para que ela entre em vigor faz-se necessário muito exercício. Podemos começar olhando para nós mesmos e percebendo o quanto somos e podemos ser diferentes. Quantas limitações colecionadas e não percebidas ao longo dos anos! O próximo passo é olhar para o outro, entendo o quando podemos nos completar superando limites e identificando potencialidades. O exercício pode ser repetido frequentemente e, em questão de dias, a lei passa a vigorar em caráter irrevogável.



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A Sensibilidade

A palestra já passava de duas horas e por conta do grande número de perguntas e reflexões havia se transformado em um maravilhoso bate-papo

Carlos Ferrari

15/09/2010 | 00:00


A palestra já passava de duas horas e por conta do grande número de perguntas e reflexões havia se transformado em um maravilhoso bate-papo. Falar de acessibilidade sempre foi extremamente gratificante para mim, pois a partir desse assunto podemos entender toda a questão da deficiência sob olhar moderno e esclarecedor. O que era até a alguns anos encarado como patologia, praticamente institucionalizada como doença, atualmente toma outra dimensão, a de uma limitação que pode ser maior ou menor de acordo com as barreiras de caráter social e ambiental.

"Então, em muitos momentos a sociedade também se mostra deficiente?" Essa pergunta veio como um presente, porque me permitia dar uma série de exemplos da inadequação de nossa sociedade para os indivíduos que fazem parte dela. Pensei alguns segundos e devolvi a pergunta para o grupo. O resultado não poderia ter sido melhor. Em poucos minutos foram dados exemplos de barreiras impeditivas não só a deficientes físicos, sensoriais ou intelectual, como também a obesos, idosos, gestantes, anões enfim, a constatação de que o desenho social a cada dia exclui mais.

Desta forma ficou fácil mostrar o grande paradoxo em que vivemos. Estamos na era da segmentação, produtos dirigidos para mercados específicos. As ferramentas de marketing a cada dia nos oferecem maiores subsídios para conhecer o segmento adequado para um produto específico e vice-versa. No entanto, ainda nos deparamos com uma pessoa com deficiência com dificuldades na hora de definir um pacote turístico, ir ao shopping, ou mesmo fazer compras pela internet. Neste caso, quem é deficiente, o consumidor ou o mercado?

Felizmente, a luta de movimentos sociais organizados, somada à sofisticação na legislação e ao esforço de algumas iniciativas no setor privado, tem mudado rapidamente este cenário. A desmistificação da acessibilidade como problema de caráter exclusivamente arquitetônico fez com que a preocupação com a informação e a ambientação entrasse para esse debate.

Nas palavras de Barton, "o isolamento das instituições constitui a mais mortal de todas as deformidades" (Barton, 1996). Um cadeirante impedido de acompanhar um espetáculo teatral, um cego sem alternativas para operar um terminal bancário, um surdo sem possibilidades para acompanhar um filme, são exemplos claros dessa violência institucional.

Por fim, a pergunta que deu origem a esse artigo, uma senhora responsável por um museu me questionou, "Além de todos os aspectos técnicos e das leis relacionadas à acessibilidade, o que mais você destacaria como importante para inclusão de pessoas com deficiência?" Nesse momento, creio que falou mais alto toda a minha história e as pessoas que fizeram parte dela, sem dúvida a resposta era simples: a sensibilidade. A expressão, que soa muito parecida com acessibilidade, com certeza foi alicerce de muitas de nossas conquistas.

A sensibilidade do médico que contou aos pais sobre a deficiência do filho, mas soube também dizer "vá em frente, ele pode e o senhor e a senhora podem"; a sensibilidade de tantos que contrataram não pela lei, mas pela certeza do talento e pela responsabilidade enquanto empregador; a sensibilidade de amigos, maridos e esposas que amaram incondicionalmente, além das limitações, as potencialidades.

A sensibilidade abre caminhos e faz com que toda a beleza de Monet possa ser admirada por cegos. Faz com que surdos dancem com toda a leveza da primavera de Vivaldi e que cadeirantes emocionem o mundo com seu basquete mágico.

Então fica aqui a minha proposta: transformemos a sensibilidade em lei! Não temos a necessidade de ir ao congresso, fazer plebiscito ou pedir ao presidente que edite medida provisória. Para que ela entre em vigor faz-se necessário muito exercício. Podemos começar olhando para nós mesmos e percebendo o quanto somos e podemos ser diferentes. Quantas limitações colecionadas e não percebidas ao longo dos anos! O próximo passo é olhar para o outro, entendo o quando podemos nos completar superando limites e identificando potencialidades. O exercício pode ser repetido frequentemente e, em questão de dias, a lei passa a vigorar em caráter irrevogável.

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