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Adolescentes remam para vencer as drogas

Jovens atendidos no Caps Álcool e Drogas de São Bernardo fazem oficina de caiaque no Parque Estoril


Camila Galvez
Do Diário do Grande ABC

26/05/2013 | 07:00


Os remos são como asas, e a Represa Billings é um mundo a se explorar. Na água, é preciso aprender a lidar com medos, frustrações e ter controle sobre o corpo e a mente, concentrados no ato de remar. O esforço é recompensado pela sensação de prazer ao 'caiacar'. E assim as oficinas do projeto Remando para a Vida, realizadas no Parque Estoril, em São Bernardo, ajudam adolescentes em tratamento no Caps ADI (Centro de Atenção Psicossocial - Álcool e Drogas Infantojuvenil) a vencer o vício.

Remar também significa atuar em grupo. Para quem participa pela primeira vez, o passeio é acompanhado, em caiaque duplo. Nem sempre a relação funciona. A jovem Júlia (os nomes são fictícios), 14 anos, que participava pela primeira vez da oficina na quarta-feira, dia destinado aos que estão em regime de internação, assustou-se quando a companheira saltou do caiaque próximo à margem da represa. Pensou que ficaria à deriva e começou a xingar a colega.

O medo dominou Júlia, mas o coordenador da oficina, o professor de Educação Física Ricardo Augusto da Costa, ajudou-a a se acalmar e deu bronca na jovem Roberta, 15. "Isso é apenas uma amostra dos conflitos que a gente tem de resolver durante o tratamento dos adolescentes usuários de drogas. O que vemos aqui é levado para os médicos, a fim de auxiliar na terapia."

Nem só de medo vivem os praticantes de canoagem. Cenas de amor também são comuns. A paisagem da represa é convite para um beijo. Mas também pode gerar ciúmes, como aconteceu com o adolescente Murilo, 17, que deixou o grupo de lado para remar sozinho por não conseguir controlar o sentimento. Na água ou na terra, eles precisam aprender a lidar com frustrações o tempo todo. A lição na represa é levada para a vida.

Além da remada, há momento para reflexão, onde todos os participantes ficam juntos e em silêncio para mentalizar coisas positivas. O silêncio é a parte mais difícil. O jovem Júlio, 17, pede para cantar um rap. Roberta pega na mão da repórter e sorri.

"Bonita a aliança, tia. Quantos anos você tem?"

"Só 12 a mais que você, mas não me chama de tia!"

"É carência. A mãe esteve no Caps hoje e elas discutiram", explica Costa depois da remada.

Os sentimentos que vem à tona durante as aulas deixam claro que os benefícios vão além da prática esportiva e podem ser utilizados no cotidiano do jovem, o que é observado também em outras oficinas de Saúde Mental na região (leia abaixo).

TROCA
O projeto Remando para a Vida foi criado há um ano e envolve as secretarias de Saúde, Segurança e Desenvolvimento Econômico, Trabalho e Turismo. Salva-vidas da GCM (Guarda Civil Municipal) garantem a segurança dos jovens durante as atividades.

Costa destaca que o esporte proporciona troca para os jovens, já que, assim como a droga, gera prazer. Isso ocorre porque uma das áreas ainda em maturação nos adolescentes é o córtex pré-frontal, associado à tomada de decisões e responsável pelo controle dos desejos e emoções. O fato de ainda estar em desenvolvimento pode levá-lo a tomar decisões erradas, como o uso de drogas. O esporte, em especial os radicais e de ação, substituem o prazer decorrente do consumo de entorpecentes.

"Em um ano de atividades do Remando para a Vida também percebemos que a quantidade de medicamentos necessária para controlar as crises dos adolescentes diminuiu", destaca o coordenador da oficina.


Oficinas atendem 1.633 pacientes

Em Santo André, São Bernardo e São Caetano, 1.633 pessoas participam de oficinas de Saúde Mental, que variam desde as clássicas, como artesanato, pintura e música, até as inusitadas, como yoga, Lian Gong e caiaque. Mauá diz atender 507 pacientes nos Caps, e Ribeirão Pires, 1.250, mas ambas não disseram quantos passam pelas oficinas. Diadema e Rio Grande da Serra não responderam.

No Naps (Núcleo de Atenção Psicossocial) I, que atende pacientes com transtornos psiquiátricos em Santo André, uma das atividades mais aguardadas é a oficina de expressão corporal. "Na primeira vez não consegui participar, porque estava impregnada aqui dentro", diz Isaura Xavier, 54 anos e diagnóstico de bipolaridade. "Mas agora adoro, me sinto como se não estivesse num tratamento."

A sensação é compartilhada pela ajudante operacional Rosana Keila Stabilin, 47, que tem crises de depressão. "Aqui relaxamos a mente e aprendemos a sentir o próprio corpo."

Atentos, pacientes de todas as idades e com os mais diversos tipos de transtornos seguem os passos indicados pela coordenadora da atividade, a terapeuta ocupacional Giovana Armonde. Deitam, fecham os olhos, respiram, esticam braços e pernas e, acima de tudo, aprendem a se reconhecer em seus corpos, além de passar a enxergar o próximo, o que auxilia na ressocialização.

"O objetivo inicial da oficina, que começou há oito anos, era o relaxamento. Mas começamos a perceber os benefícios também para a vida social do paciente", destaca Giovana.

A gerente técnica do Naps, Analdeci Moreira dos Santos, afirma que as oficinas fazem parte da política de inclusão do portador de transtornos. "Diferentemente dos manicômios, que trancam e escondem, aqui o paciente leva o que aprende para a vida na sua comunidade."



Atividades ajudam a lidar com situações do cotidiano

As oficinas de Saúde Mental fazem parte das mudanças promovidas pela lei federal 10.216, de 2001, que alterou o modelo assistencial da área e determinou o fechamento de manicômios. A internação e a medicalização saem de cena, substituídas pela política de ressocialização do portador de transtornos psiquiátricos, incluindo usuários de álcool e drogas.

Segundo a psiquiatra da Faculdade de Medicina do ABC Fernanda Piotto Fralonardo, as oficinas têm benefícios comprovados na aderência ao tratamento, que fica mais fácil de ser construído junto ao paciente, melhorando, inclusive, a prática da psicoterapia. "As oficinas trabalham o lado cognitivo e fornecem ferramentas para que a pessoa aprenda a lidar com situações do cotidiano. Por isso são importantes para o tratamento e devem ser indicadas de acordo com a necessidade de cada pessoa."

Exemplo é o paciente que realiza uma pintura, mas que não consegue colocar no papel aquilo que deseja. "Ele precisa aprender a lidar com a frustração, algo que ocorre constantemente nas mais diversas situações da vida."



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