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'Até agora, nada foi
provado contra mim'

Ex-reitor da Fundação Santo André, Odair Bermelho
ganhou quase todos os processos que respondeu


Elaine Granconato
Do Diário do Grande ABC

01/07/2012 | 07:00


O professor Odair Bermelho, 62 anos, ex-reitor da Fundação Santo André e alvo de série de denúncias de desvios de verbas e falsidade documental, a partir de 28 de abril de 2008, volta ao cenário acadêmico.

Desempregado há quatro anos, hoje o mestre em Literatura Portuguesa pela USP (Universidade de São Paulo) figura nos bancos escolares como aluno do quarto ano de Direito na Universidade Mackenzie, na Capital, onde mora há 13 anos.

Paralelamente, não deixa de acompanhar os andamentos processuais nas esferas cível e criminal, resultado de ações interpostas pelo Ministério Público contra o ex-reitor andreense, nascido no Parque das Nações. Em Santo André viveu 48 anos. Atualmente, só vem para a região por conta de consultas com os médicos endocrinologista e urologista, além da dentista. "Acabaram com a minha vida, mas nada foi provado", afirmou, no escritório de sua casa, junto a processos e decisões favoráveis a que a equipe do Diário teve acesso.

Durante a conversa, em nenhum momento o professor alterou a voz, mesmo quando expôs o nome de seus desafetos. Indagado sobre a Justiça, o estudante de Direito respondeu, com críticas, que ela atende aos interesses dela própria e que vive mudando, lenta e imperfeita. Deixou claro que sofreu retaliação política de grupo organizado e liderado pelo atual reitor da instituição, Oduvaldo Cacalano. A seguir, alguns trechos da entrevista exclusiva.

DIÁRIO - A que o senhor atribui tantas denúncias?
ODAIR BERMELHO -
Primeiro, à vontade de meu vice-reitor Oduvaldo Cacalano, atual reitor da FSA (Fundação Santo André), de ocupar o meu lugar, além do grupo ao qual ele pertence. E segundo, que colocaria no mesmo plano, é pelo fato de eu ter deixado de atender aos interesses do então prefeito João Avamileno (PT), que enviava projetos em nome da Prefeitura de Santo André.

DIÁRIO - O senhor utilizou os valores em notas e despesas apontados nas denúncias?
BERMELHO -
Nunca. Fui acusado de uma coisa e paguei por ela. Não há prova nenhuma que esse dinheiro chegou em minha mão. Muito menos cheques.

DIÁRIO - Judicialmente, o que foi feito para apurar as denúncias?
BERMELHO -
Na área criminal, o hoje Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) entrou com dois PICs (Processos de Investigações Criminais) para apurar supostos crimes de peculato e falsificação de documentos. Um da viagem que fiz ao Maranhão. E outro, ao mesmo tempo, de duas outras viagens. Uma à Paraíba, junto com grupo da Fundação, para participação de simpósio. E outra feita ao Rio de Janeiro, junto do assessor jurídico da instituição, para uma reunião sobre assuntos jurídicos relativos às fundações. Que também, alegam eles (promotores), tinham notas rasuradas por mim referentes a refeições. Tudo envolve dinheiro de comida.

DIÁRIO - E tem outros?
BERMELHO -
O MP (Ministério Público), por meio da Promotoria de Curadoria das Fundações, entrou com ação civil pública alegando suposto crime de peculato, ou seja, que as ações tinham causado danos financeiros para a Fundação. O órgão pede o ressarcimento de R$ 10 mil, além de danos morais que havia causado à instituição. Nada foi comprovado.

DIÁRIO - E como estão os andamentos dessas ações na Justiça?
BERMELHO -
Até o momento, tanto nas áreas cível quanto criminal, tenho as ações julgadas improcedentes pela Justiça, inclusive em segunda instância. Os acórdãos (decisões) são todos do Tribunal de Justiça de São Paulo. Apesar das denúncias e até pedido de prisão preventiva negado, nada ficou provado contra mim.

DIÁRIO - A representação da denúncia ao Gaeco foi feita por quem?
BERMELHO -
Por alguns alunos e professores, além do vice-reitor que queria o meu cargo e hoje é o atual reitor da Fundação Santo André.

DIÁRIO - O que o senhor faz hoje?
BERMELHO -
Depois das denúncias, não consegui mais emprego. Mandei pelo menos 200 currículos. Era aprovado para direção de estabelecimento, professor e coordenação de campus, mas quando chegava a hora de contratar, desapareciam.

DIÁRIO - E o que representa isso para o senhor, um profissional ligado à Educação?
BERMELHO -
Se não estivesse estudando agora, além de poder contar com o apoio de minha ex-mulher e dos meus dois filhos, e ter esses passarinhos para eu cuidar, sinceramente, já teria ido para o hospício. Estudo desde os seis anos. Nunca fiquei nenhum ano sem estudar.

DIÁRIO - Como o senhor se sentiu em ter seu nome exposto na mídia?
BERMELHO -
Invadido. Não sei nem explicar. Ligava a televisão para ver reportagem, e, de repente, via meu rosto estampado. Na internet a mesma coisa. Tive meu telefone grampeado. Abri meus sigilos fiscal e bancário, mas até hoje não encontraram nenhum cheque da Fundação na minha conta bancária. Nem depósito em dinheiro que funcionário tivesse feito.

DIÁRIO - Como ocorria o reembolso?
BERMELHO -
Nas viagens, levava quantia em dinheiro ou, às vezes, trazia as notas fiscais. Não era eu quem assinava os cheques da Fundação. Existe uma portaria que designa o próprio reitor financeiro e administrativo de assinarem os cheques, junto da gerência do departamento contábil.

DIÁRIO - O senhor já se sente aliviado?
BERMELHO -
Ainda não. Falta ainda ser reconhecido pela Justiça do Trabalho, porque fui mandado embora por justa causa. Para mim, que trabalhei desde os 13 anos, é um peso muito grande carregar esse fardo. E a minha vida inteira estudei em faculdade pública, porque não tinha dinheiro para pagar. Fiz mestrado e doutorado estando casado e com filhos. Nesse sentido, eu acho que a vida foi muito ingrata.

DIÁRIO - Como está esse processo?
BERMELHO -
Entrei com ação trabalhista para o meu retorno à Fundação, além de pedido de recebimento dos salários atrasados. Até agora, perdi em primeira e segunda instâncias, mas o meu advogado recorreu. O total não chega a R$ 18 mil. Perdi toda a minha carreira. Perdi tudo.

Atual reitor, Oduvaldo Cacalano rebate acusações recebidas

O atual reitor da Fundação Santo André, Oduvaldo Cacalano, rebateu as acusações feitas por Odair Bermelho. "Na época, assumi o cargo porque era o vice-reitor. Não por outro interesse, absolutamente."

Ao ser informado pelo Diário de que tivera seu nome mencionado pelo ex-reitor Odair Bermelho, o também professor Cacalano usou da ironia: "Ele não poderia deixar de me citar". Depois, no entanto, foi mais crítico: "Tudo isso é uma mentira muito grande. Ele sabe porque saiu".

Para Cacalano, a situação para o ex-reitor chegou no limite. "A Justiça apresentou provas contundentes e que, até então, desconhecíamos. Soubemos pela imprensa", afirmou. Em nenhum momento da entrevista, Cacalano mencionou o nome de Odair Bermelho - apenas o tratou por "ele".

Confirmou que, na ocasião, ficou à frente das investigações, inclusive de ter enviado outras provas aos promotores do Gaerco (Grupo de Atuação Especial Regional para Repressão e Prevenção ao Crime Organizado) - hoje Gaeco (Grupo Especial de Combate ao Crime Organizado).

Inconformado, Cacalano afirmou que o ex-reitor não ganhou nada em lugar nenhum. "Detalhes dos processos não sei, mas minha secretária geral, que é advogada, pode lhe informar. A verdade só tem um caminho", disse. A equipe do Diário teve acesso aos processos e confirma as informações de decisões favoráveis, até o momento, para o professor Bermelho.

A promotora de Justiça Patricia Sanvito Moroni informou, por meio da assessoria do MP (Ministério Público), ter recorrido da decisão da Justiça que determinou a extinção da ação civil pública - que pedia a destituição de Bermelho do cargo e apuração de irregularidades.

Com recursos rejeitados por peculato e uso de documento falso no Tribunal de Justiça, o Gaeco ofereceu novas denúncias - uma em dezembro de 2011; outra em maio de 2012.


Avamileno diz que conflitos políticos motivaram queda

Ex-prefeito de Santo André pelo PT e quem nomeou Odair Bermelho como reitor na Fundação Santo André, João Avamileno avaliou que as denúncias foram frutos de "conflitos políticos" entre alunos e professores. Como resultado: o afastamento do então presidente da instituição.

E o petista foi além ao dizer que a Fundação Santo André é uma instituição difícil de ser administrada. "Não importa quem esteja lá. Sempre os problemas políticos existirão", avaliou.

Sobre as acusações de Bermelho, Avamileno confirmou que pediu para o então reitor se afastar do cargo. "Era a melhor coisa que ele tinha para fazer. Eu também sofria desgaste político, mas nunca duvidei dele", disse.

E rebateu a acusação de Odair Bermelho de não atender aos seus interesses na administração. "De minha parte isso nunca ocorreu. Pode ter sido de minha equipe de governo", afirmou, ao ressaltar que ficava "feliz pela inocência" do ex-reitor.



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