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Cacá Diegues chega aos 60 anos ao lado de Deus


Do Diário do Grande ABC

14/05/2000 | 14:40


A poucos momentos de completar 60 anos, o cineasta Cacá Diegues decidiu enfrentar Deus - nao em um embate teológico, mas na Sua transformaçao como objeto de filmografia. Ele, o Ser Supremo, é o personagem principal de "Deus É Brasileiro", inspirado no conto homônimo de Joao Ubaldo Ribeiro, que Cacá começa a rodar em setembro. O projeto encerra o ciclo de comemoraçoes de aniversário do cineasta, que será na sexta-feira - no dia anterior, a obra de Cacá já estará disponível para os pesquisadores na Internet e, em setembro, ele participa do lançamento oficial de Orfeu, em Nova York. Na semana passada, Caetano Veloso deixou um artigo escrito sobre o filme para o jornal "The New York Times", que vai publicá-lo na época do lançamento.

"Nao estou preocupado em fazer um debate teológico. O meu Deus é um personagem literário, o protagonista, aliás, do livro mais importante do mundo, e o filme será uma fábula sobre o elogio da perfeiçao", comenta Cacá que, sexagenário, confessa ser um homem mais tolerante e compreensivo, mas menos seguro. "Quando jovem, é fácil imaginar-se como um Deus e ser capaz de fazer qualquer tipo de mudança", observa. "O tempo, porém, nos faz constatar que nem sempre temos razao, o que faz diminuir a segurança." Assim, confessa o cineasta, a afliçao da estréia é maior a cada filme.

Apesar de medir cada passo, Cacá envereda por diversos caminhos. Ao lado da mulher, Renata de Almeida, com quem está casado há 19 anos, trabalha na produtora Rio Vermelho, no Leblon carioca, que tem ainda Paula Lavigne como sócia. É lá que dá os últimos retoques em seu novo site na Internet, administra a preservaçao de seus 14 longas-metragens e organiza projetos futuros. Além de "Deus...", Cacá finaliza dois documentários encomendados pela Prefeitura do Rio: um sobre o carnaval, outro sobre o réveillon.

O cineasta vai participar ainda do lançamento de um livro, organizado pelo crítico José Carlos Avellar, com uma coletânea de seus textos sobre cinema. E há ainda a ediçao de um CD, pela Natasha Records, com as cançoes das trilhas sonoras de seus filmes, produzido por Leonardo Teixeira. "Fico lisonjeado com tantos eventos, mas, afinal, completo 40 anos de cinema em novembro."

Cansaço de Deus - O roteiro de "Deus É Brasileiro" vem sendo escrito com Joao Emanuel Carneiro, com quem já trabalhou em Orfeu. A idéia inicial era utilizar todos os contos do livro "Já Podeis da Pátria Filhos", de Joao Ubaldo Ribeiro, cujos direitos de filmagem pertencem a Cacá desde 1997. "Nao conseguimos, porém, juntá-los em uma só história. Entao nos concentramos em "O Santo Que nao Acreditava em Deus." A idéia é curiosa: cansado da humanidade e disposto a tirar férias, Deus vem à Terra procurar um santo que possa substituí-lo. "Vamos fazer um filme sobre a realidade brasileira, sobre as esquinas das nossas ruas."

A busca de uma brasilidade sempre marcou a carreira do cineasta, um dos mais representativos do Cinema Novo. Sua filmografia reflete as diversas fases e preocupaçoes do movimento: do olhar crítico sobre os problemas sociais (como o episódio que dirigiu em "Cinco Vezes Favela") evolui para as leituras alegóricas da história brasileira ("Ganga Zumba", "Os Herdeiros") até atingir a busca de uma comunicaçao mais direta com o público via cultura popular ("Xica da Silva", "Quilombo", "Bye, Bye Brasil", "Orfeu").

Durante sua formaçao, a amargura militante dos primeiros filmes foi cedendo lugar a uma visao mais doce e poética do homem brasileiro. "Nao tenho uma fórmula para filmar", confessa. "Os filmes podem nascer até mesmo de uma simples cançao; afinal, sou um músico frustrado, gostaria de ser compositor." Foi essa compreensao do cinema como reflexo da cultura popular que naturalmente convenceu Sônia Braga, detentora dos direitos, a convidá-lo a dirigir "Tieta do Agreste", um projeto pessoal da atriz. "Adoro a literatura de Jorge Amado, embora a considere muito difícil de adaptar para o cinema", afirma.

O cineasta credita a paixao pelos assuntos populares como influência do trabalho do pai, o antropólogo Manoel Diegues Júnior, que o levou aos reisados e outras festas populares em Maceió, em Alagoas, onde nasceu. Veio para o Rio com 6 anos e viveu no bairro do Botafogo.

Para além de seus filmes, o cineasta tem sido um dos mais influentes e ativos intelectuais do País na discussao sóciocultural. Algumas de suas formulaçoes ficaram célebres, como a denúncia das chamadas "patrulhas ideológicas", no fim dos anos 70, ou a rejeiçao do "autolinchamento" dos brasileiros, no ínicio dos 90. "Sempre gostei de ser um cineasta preocupado com a atualidade", comenta. "Faço filmes para meus contemporâneos, nao faço um simples arquivo de idéias."

Foi também solidário com os colegas de ofício, associando-se a vários deles: roteirizou "A Estrela Sobe", de Bruno Barreto; co-produziu "Terra em Transe", de Gláuber Rocha; e produziu "Dedé Mamata", de Rodolfo Brandao.

Discussoes - Com tal combatividade, Cacá comprou uma série de brigas ao longo de sua carreira, como a contra a extinta Embrafilme; ou ao apontar as imperfeiçoes da atual Lei do Audiovisual. Nao esconde também seu desprezo pelas elites. "Os mais ricos nao gostam do Brasil, torcem o nariz e preferem Miami ou Nova York", afirma. "O Brasil é realmente amado pelas pessoas de camadas mais populares."

Garante, porém, que nao fez inimigos. E, apesar da paixao explícita pelo debate, prefere nao levar as discussoes para casa, o que nem sempre é possível. Afinal, a mulher e a mais velha dos quatro filhos, Isabel, fruto de seu casamento de 11 anos com a cantora Nara Leao, também participam ativamente no cinema.

Isabel, por exemplo, fundou sua produtora, a Sambascope, e realizou o curta "Vila Isabel", sobre o famoso bairro carioca, reduto de grandes sambistas. Já sua mulher, Renata, cuidou do making of de "Quilombo". "Sao atividades que, ao final, realizamos naturalmente", comenta o cineasta.



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Cacá Diegues chega aos 60 anos ao lado de Deus

Do Diário do Grande ABC

14/05/2000 | 14:40


A poucos momentos de completar 60 anos, o cineasta Cacá Diegues decidiu enfrentar Deus - nao em um embate teológico, mas na Sua transformaçao como objeto de filmografia. Ele, o Ser Supremo, é o personagem principal de "Deus É Brasileiro", inspirado no conto homônimo de Joao Ubaldo Ribeiro, que Cacá começa a rodar em setembro. O projeto encerra o ciclo de comemoraçoes de aniversário do cineasta, que será na sexta-feira - no dia anterior, a obra de Cacá já estará disponível para os pesquisadores na Internet e, em setembro, ele participa do lançamento oficial de Orfeu, em Nova York. Na semana passada, Caetano Veloso deixou um artigo escrito sobre o filme para o jornal "The New York Times", que vai publicá-lo na época do lançamento.

"Nao estou preocupado em fazer um debate teológico. O meu Deus é um personagem literário, o protagonista, aliás, do livro mais importante do mundo, e o filme será uma fábula sobre o elogio da perfeiçao", comenta Cacá que, sexagenário, confessa ser um homem mais tolerante e compreensivo, mas menos seguro. "Quando jovem, é fácil imaginar-se como um Deus e ser capaz de fazer qualquer tipo de mudança", observa. "O tempo, porém, nos faz constatar que nem sempre temos razao, o que faz diminuir a segurança." Assim, confessa o cineasta, a afliçao da estréia é maior a cada filme.

Apesar de medir cada passo, Cacá envereda por diversos caminhos. Ao lado da mulher, Renata de Almeida, com quem está casado há 19 anos, trabalha na produtora Rio Vermelho, no Leblon carioca, que tem ainda Paula Lavigne como sócia. É lá que dá os últimos retoques em seu novo site na Internet, administra a preservaçao de seus 14 longas-metragens e organiza projetos futuros. Além de "Deus...", Cacá finaliza dois documentários encomendados pela Prefeitura do Rio: um sobre o carnaval, outro sobre o réveillon.

O cineasta vai participar ainda do lançamento de um livro, organizado pelo crítico José Carlos Avellar, com uma coletânea de seus textos sobre cinema. E há ainda a ediçao de um CD, pela Natasha Records, com as cançoes das trilhas sonoras de seus filmes, produzido por Leonardo Teixeira. "Fico lisonjeado com tantos eventos, mas, afinal, completo 40 anos de cinema em novembro."

Cansaço de Deus - O roteiro de "Deus É Brasileiro" vem sendo escrito com Joao Emanuel Carneiro, com quem já trabalhou em Orfeu. A idéia inicial era utilizar todos os contos do livro "Já Podeis da Pátria Filhos", de Joao Ubaldo Ribeiro, cujos direitos de filmagem pertencem a Cacá desde 1997. "Nao conseguimos, porém, juntá-los em uma só história. Entao nos concentramos em "O Santo Que nao Acreditava em Deus." A idéia é curiosa: cansado da humanidade e disposto a tirar férias, Deus vem à Terra procurar um santo que possa substituí-lo. "Vamos fazer um filme sobre a realidade brasileira, sobre as esquinas das nossas ruas."

A busca de uma brasilidade sempre marcou a carreira do cineasta, um dos mais representativos do Cinema Novo. Sua filmografia reflete as diversas fases e preocupaçoes do movimento: do olhar crítico sobre os problemas sociais (como o episódio que dirigiu em "Cinco Vezes Favela") evolui para as leituras alegóricas da história brasileira ("Ganga Zumba", "Os Herdeiros") até atingir a busca de uma comunicaçao mais direta com o público via cultura popular ("Xica da Silva", "Quilombo", "Bye, Bye Brasil", "Orfeu").

Durante sua formaçao, a amargura militante dos primeiros filmes foi cedendo lugar a uma visao mais doce e poética do homem brasileiro. "Nao tenho uma fórmula para filmar", confessa. "Os filmes podem nascer até mesmo de uma simples cançao; afinal, sou um músico frustrado, gostaria de ser compositor." Foi essa compreensao do cinema como reflexo da cultura popular que naturalmente convenceu Sônia Braga, detentora dos direitos, a convidá-lo a dirigir "Tieta do Agreste", um projeto pessoal da atriz. "Adoro a literatura de Jorge Amado, embora a considere muito difícil de adaptar para o cinema", afirma.

O cineasta credita a paixao pelos assuntos populares como influência do trabalho do pai, o antropólogo Manoel Diegues Júnior, que o levou aos reisados e outras festas populares em Maceió, em Alagoas, onde nasceu. Veio para o Rio com 6 anos e viveu no bairro do Botafogo.

Para além de seus filmes, o cineasta tem sido um dos mais influentes e ativos intelectuais do País na discussao sóciocultural. Algumas de suas formulaçoes ficaram célebres, como a denúncia das chamadas "patrulhas ideológicas", no fim dos anos 70, ou a rejeiçao do "autolinchamento" dos brasileiros, no ínicio dos 90. "Sempre gostei de ser um cineasta preocupado com a atualidade", comenta. "Faço filmes para meus contemporâneos, nao faço um simples arquivo de idéias."

Foi também solidário com os colegas de ofício, associando-se a vários deles: roteirizou "A Estrela Sobe", de Bruno Barreto; co-produziu "Terra em Transe", de Gláuber Rocha; e produziu "Dedé Mamata", de Rodolfo Brandao.

Discussoes - Com tal combatividade, Cacá comprou uma série de brigas ao longo de sua carreira, como a contra a extinta Embrafilme; ou ao apontar as imperfeiçoes da atual Lei do Audiovisual. Nao esconde também seu desprezo pelas elites. "Os mais ricos nao gostam do Brasil, torcem o nariz e preferem Miami ou Nova York", afirma. "O Brasil é realmente amado pelas pessoas de camadas mais populares."

Garante, porém, que nao fez inimigos. E, apesar da paixao explícita pelo debate, prefere nao levar as discussoes para casa, o que nem sempre é possível. Afinal, a mulher e a mais velha dos quatro filhos, Isabel, fruto de seu casamento de 11 anos com a cantora Nara Leao, também participam ativamente no cinema.

Isabel, por exemplo, fundou sua produtora, a Sambascope, e realizou o curta "Vila Isabel", sobre o famoso bairro carioca, reduto de grandes sambistas. Já sua mulher, Renata, cuidou do making of de "Quilombo". "Sao atividades que, ao final, realizamos naturalmente", comenta o cineasta.

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