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‘La Mortadela’
Adilson Luiz Gonçalves
26/05/2024 | 09:00
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No portal do Governo Federal, consta a seguinte manifestação atribuída ao Instituto Nacional do Câncer: “Carnes processadas, como presunto, salsicha, linguiça, bacon, salame, mortadela, peito de peru e ‘blanquet’ de peru podem aumentar a chance de desenvolver câncer. O consumo desses produtos deve ser evitado”. Ouvi o mesmo de meu oncologista, e tenho evitado consumi-las, apesar de não conseguir me desvencilhar da “memória afetiva”, ou melhor, gustativa de quando podia.

Outro dia, numa conversa entre amigos que tiveram criação e infância parecidas, do nada surgiu a lembrança dos sanduíches de mortadela, crua e frita, com ou sem queijo. Todos imediatamente salivaram. Um deles pontuou que ainda hoje consome com prazer as que compra na cidade onde vive, no Centro-Oeste.

Hoje, impedido de certos prazeres gastronômicos por questões de saúde, olho para os monumentais sanduíches de mortadela do Mercado Municipal de São Paulo, também disponíveis em alguns bares de Santos, com certa “distância de segurança”, saboreando-os em pensamento. Nesse e em outros casos, me vem à mente a música de Roberto Carlos, com a adaptação pertinente: será que tudo o que eu gosto de comer faz mal à saúde? Bem, qualquer coisa em excesso – até o que alguns militam ser o ideal –, ou mal preparada/conservada pode fazer mal à saúde.

Sobre o tema, lembro de filme estrelado por Sophia Loren, La Mortadela (Itália/França, 1971), em que seu personagem chega aos Estados Unidos trazendo enorme exemplar da dita-cuja, mas é impedida de entrar no país com o produto por questões sanitárias. Como ela se recusa a se livrar da mortadela, fica retida no aeroporto até que seja encontrada solução para o problema.

Esse procedimento é comum em vários países, por múltiplos motivos. Enquanto amigos tentam resolver o problema, ela vai comendo a mortadela até consumi-la por inteiro.

Removido o “pomo da discórdia” – se bem que mortadela nada tem a ver com maçã –, ela pode entrar nos EUA, embora ninguém tenha atentado ao fato de que o resultado do processamento interno do embutido já estava e continuaria a ser depositado em solo daquele país por algum tempo.

Precisei reformular meu cardápio ad aeternum para itens como – o advérbio, não o verbo: mortadela, salame hamburguês, salsichão com mostarda e outra de minhas paixões: linguiça calabresa acebolada! Snif! Mas não sou daqueles chatos que, por ideologia, busca de cumplicidade ou de um desesperado “afasta de mim esse cálice”, não admite ver, sentir o cheiro ou sequer encontrar no cardápio esses produtos.

Apesar desse inominável sacrifício, tenho convivido relativamente bem com essas restrições alimentares. Aprendi a ser criativo na utilização de alimentos menos problemáticos para minha saúde. Ter aprendido a cozinhar desde criança tem ajudado muito, e já foi o tempo em que comida de dieta tinha que ser feia e sem graça, como a que via em restaurantes corporativos, tempos atrás.

Saudades de um belo sanduíche de mortadela e queijo, fritos... Mas me satisfaço “comendo” com os olhos. Afinal, o importante é viver, com moderação!


Adilson Luiz Gonçalves é membro da Academia Santista de Letras.




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