Entrevista da Semana Titulo Sindicato
“Fortalecer a indústria é um dos nossos desafios”
Nilton Valentim
20/05/2024 | 08:00
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André Henriques


 O Sindicato dos Metalúrgicos do ABC acaba de completar 65 anos. À frente de uma das instituições mais combativas da região, Moisés Selerges destaca a necessidade de fortalecimento da indústria e também da mudança de comportamento do movimento sindical, que deve participar da vida do trabalhador inclusive quando ele está desempregado.

Conduzido ao cargo mais importante do sindicato pelas mãos de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Selerges destaca a amizade com o presidente da República, se emociona ao falar do dia de sua prisão e não se intimida em criticar a gestão do amigo na condução do País.

O Sindicato dos Metalúrgicos do ABC acaba de completar 65 anos. Qual é o seu sentimento de estar à frente desta instituição neste momento?

O Sindicato dos Metalúrgicos é uma das instituições mais tradicionais e mais combativas que a gente tem aqui no Grande ABC. Não é o maior sindicato do País e nem tem a maior base de trabalhadores, mas é um sindicato histórico. Ficou muito marcado na época da ditadura militar, da redemocratização do País. Com a vinda das montadoras aqui para a região, o sindicato já nasceu forte. Então, eu penso que em qualquer lugar do País que você vá e fale do Grande ABC, a primeira coisa quem vem à mente é a questão dos metalúrgicos. Isso gera uma responsabilidade muito grande. O sindicato chega aos 65 anos muito forte. Por mais que essa seja uma conjuntura difícil, pois o movimento sindical sofreu ataques muito fortes na história recente, mas chega forte e com protagonismo. E estamos trabalhando para manter esse protagonismo, essa luta.

Quais os principais desafios do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC neste momento?

São vários desafios. A questão da indústria é um desafio para o sindicato. Nós acreditamos que um país para ser forte, para ser grande, precisa ter uma indústria forte. Então, a indústria é um tema que está diariamente na pauta do sindicato. Mas nós temos outros desafios também. Um dos desafios que eu coloco como importante é a transição geracional. Eu sou o último da minha geração. Precisamos plantar sementes para que daqui a 10, 20 anos tenhamos lideranças que também que possam dar continuidade a essa luta. Para ter uma sociedade melhor, uma sociedade mais justa, é importante ter essa transição geracional. Eu penso que é hora de o sindicalismo se reinventar. O novo sindicalismo, que é uma marca do nosso sindicato e que tem como característica a organização no local de trabalho, é fundamental e deve continuar. Mas eu acredito que esse novo sindicalismo já está um pouco velho. Então, nós temos que pensar qual é o caminho de sindicalismo. Tem a questão da mudança tecnológica, o surgimento de novas tecnologias. Enfim, o mundo não é mais o mesmo dos anos 1970, 1980… E o sindicato precisa rever a sua postura, a forma de trabalhar, de se comunicar.

E vocês estão trabalhando esse, digamos, ‘novíssimo’ sindicalismo?

Internamente sim. Esse ‘novíssimo’ sindicato é um processo de convencimento. Precisamos falar com outros sindicatos, debater com universidades, com outros setores da sociedade e não só com aqueles ligados ao movimento sindical. Se nós queremos ter uma sociedade melhor no futuro, se nós temos essa responsabilidade de entregar um mundo melhor, é necessário discutir o que nós estamos fazendo e o que nós temos que fazer. Onde nós estamos e onde nós queremos ir.

O novo sindicalismo ganhou força quando o ministro Luiz Marinho esteve à frente do sindicato, nos anos 1990?

A primeira coisa que marca o novo sindicalismo é a organização do local de trabalho, as comissões de fábrica. A primeira foi da Ford e depois a da Volkswagen. O sindicato tem de estar organizado no local de trabalho, não pode ser apenas um prédio no centro de São Bernardo. Tem de estar na base. Então isso marca um pouco no sindicalismo, que deixa de ser aquele sindicato pelego que existia para um sindicato que vai na porta da fábrica, que vai dialogar com os trabalhadores no local de trabalho. Com o Marinho veio mais o sindicato cidadão, aquele sindicato que representa o trabalhador não só da cerca para dentro da fábrica, mas da cerca para fora também. Que discute políticas públicas para onde o trabalhador mora, a questão da saúde, da educação, da cidadania.

E esse avanço que o senhor vislumbra, como seria?

O movimento sindical sofreu muito na reforma trabalhista, tentaram quebrá-lo. E a grande maioria dos sindicatos no Brasil está quebrada. Com isso, nós temos que rever a maneira como é formada a estrutura sindical. Hoje, é formada por categoria profissional. Existem, por exemplo, os sindicatos dos metalúrgicos de São Bernardo, da Paraíba... O sindicato por regiões e categorias profissionais, a questão da unicidade sindical. Penso que talvez o caminho que o sindicalismo deveria seguir seria a criação de sindicatos nacionais de acordo com as suas atividades da economia. Por exemplo,um sindicato nacional dos trabalhadores na indústria, com metalúrgicos, químicos, indústria de alimentos… Ser um grande sindicato nacional. Porque ficaria mais forte se a gente fosse assim. Dessa forma, teríamos seis ou sete grandes sindicatos nacionais e não esse monte de sindicato que a gente tem hoje, em que, muitas vezes, o trabalhador não sabe sequer onde fica, não sabe que existe. Temos de rever a estrutura sindical, que é de muitos anos atrás e que não vai funcionar mais desse jeito. Outra questão é o papel do sindicato. Tem de ir além de discutir as condições de trabalho e de salário para os trabalhadores. Isso é importante, mas temos que ir além. Tem de debater formas de ajudar a população. O sindicato pode, por exemplo, buscar realocação para aqueles que não estão empregados. Tem de criar a estrutura para isso. O sindicato tem de conversar com o governo sobre a questão previdenciária e levar a Previdência Social dentro da favela, para que quem mora lá possa ver se tem direito a um benefício, se já consegue se aposentar. O trabalho tem de ser no sentido de expandir, dialogar mais com a sociedade. É preciso colocar uma coisa na cabeça, o sindicato representa o trabalhador quando ele tá empregado, sim, mas também quando ele tá desempregado. Nessa hora, ele precisa mais.

Como o senhor chegou ao sindicato?

Eu sou filho de operário, meu pai trabalhou na Mercedes-Benz, ele entrou em 1966 e saiu em 1987. Eu entrei na empresa em 1985 e em 1989 fui eleito para integrar a comissão de fábrica. Eu não tinha relação com o sindicato. Aliás, nem de sindicato eu gostava. Mas uma pessoa ligada ao sindicato, o José Alves Bezerra, o Bezerrinha, se aproximou de mim e falou: ‘Aqui na Mercedes, você não vai crescer, você não vai virar chefe, não vai ser diretor. Você fala mais que cego na chuva, você tem que ir para o sindicato’. Ele começou a me levar ao sindicato, comecei a ter formação sindical e me apaixonei pelo movimento. Aí fui da comissão de fábrica durante muitos anos, depois coordenador da comissão e para a direção no sindicato. Eu cuidei da Regional de São Bernardo, depois eu fui cuidar dos departamentos do sindicato, fui tesoureiro, secretário-geral e presidente.

O presidente Lula teve alguma interferência no fato de o senhor se tornar presidente?

Nós temos uma relação muito forte e ele me convenceu, assim meio que goela abaixo, que eu tinha de presidir o sindicato. Eu falei que os meninos deveriam assumir, nós temos vários quadros bons, temos o Wellington (Damasceno, diretor administrativo) e o Aroaldo (Oliveira, presidente da Agência de Desenvolvimento Econômico do Grande ABC), que são meninos bons. Mas ele disse ‘você tem de preparar melhor os meninos’.

Como é a sua relação com o presidente Lula?

É uma relação de amizade. Eu me lembro que quando ele foi diplomado, agora na última na última eleição, eu fui convidado para ir lá (em Brasília) e quando eu encontrei com ele, o Lula me disse ‘você pode dizer que tem um amigo na Presidência da República’. Eu considero ele um amigo, porque um amigo é aquele que ajuda a empurrar o carrinho na subida. É nos momentos difíceis. E a gente sempre esteve junto. É uma relação de família. De um outro lado eu vejo o presidente Lula como pai dos trabalhadores, por causa das políticas que ele tenta implantar. Ele teve sucesso nas políticas sociais que melhoraram a vida dos trabalhadores. Em outros momentos, eu vejo ele como filho dos metalúrgicos. Na época da prisão, ele foi para o sindicato. Poderia ter ido para o Partido dos Trabalhadores, para outro lugar. Mas ele foi para o sindicato, porque o sindicato é a casa dele.

A prisão do Lula foi o dia mais difícil na história do sindicato?

Acho que foi, mas teve outros, como a morte da dona Marisa (Letícia, então mulher de Lula) – neste momento ocorre uma pausa, Selerges chora, e retoma aos poucos. Naquela época, todos nós passamos momentos difíceis, sabe? Eu tinha uma certeza só, que aquilo acabaria. Só não sabia se era amanhã ou depois de amanhã, mas que ia acabar. Quando você conhece uma pessoa muito, você sabe quem ela é. Os defeitos e as qualidades. Então foi difícil, mas a gente costuma dizer internamente que ninguém disse que as coisas iam ser fáceis para nós. E, sem falsa modéstia e sem nenhuma arrogância, mas quem se não nós (os metalúrgicos) para fazer aquilo (Lula se abrigou no sindicato após a decretação da prisão e os metalúrgicos se mobilizaram dentro e fora do prédio). Acho que era a minha tarefa. Mas aí eu vou além, a gente foi preparado para aquilo.

E como o senhor está vendo o terceiro governo Lula?

O governo pegou uma casa bagunçada. No primeiro ano foi mais a questão de arrumação de casa. A partir do lançamento do PAC (Plano de Aceleração do Crescimento) eu vejo que a casa já está arrumada e nós temos que seguir em frente. O governo tem tido acertos, embora nós façamos críticas. Porque os sindicatos nasceram para contestar patrões e governos. E disso eu não abro mão, mas ele sabe disso. Eu acho que o governo ainda erra. Primeiro porque ele tem que dialogar mais com a sociedade, ele tem que ouvir mais. No nosso setor automobilístico existem erros, um deles foi a questão do regime do setor automotivo do Nordeste, que foi criado há muitos anos e com prazo para se encerrar. Mas não se encerra. E isso prejudica a competição entre as montadoras. Na questão das novas tecnologias, eu acho que é papel do Estado é capitanear essa transição energética. Não pode uma montadora pensar no carro elétrico, a outra pensando no carro híbrido, a outra pensar no hidrogênio. Nós temos que ver qual é a cara do Brasil nessa transição energética. Então, nós temos críticas e reconhecemos acertos que o governo fez. De fato, o governo recebe os movimentos sindicais e sociais, mas não significa que está ouvindo. Eu acho que tem que ouvir mais, saber construir a várias mãos, entendeu?

O senhor dá conselhos ao presidente Lula?

De vez em quando a gente dá uns toques. Por exemplo, no 1º de Maio, aqui na Zona Leste (de São Paulo), já tinha acontecido a questão da tragédia no Rio Grande do Sul. Eu falando com ele, disse ‘olha, é importante a sua ida lá. Não apenas uma vez, mas que você fique junto do povo gaúcho’. A gente dá esse toques.




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