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Pobreza mantém crianças na rua


Danilo Angrimani
Do Diário do Grande ABC

18/10/2003 | 20:03


Programas sociais das prefeituras, atuação das Organizações Não-Governamentais (ONGs), fiscalização dos conselhos tutelares. Nada disso parece ter resultado pleno: crianças e adolescentes continuam nos faróis do Grande ABC.

Meninos e meninas, com idades entre 10 e 16 anos, vendem doces, distribuem folhetos e limpam pára-brisas de carros com rodinhos. O dinheiro arrecadado socorre as famílias em situação econômica precária.

A reportagem do Diário percorreu as ruas de quatro cidades da região (Santo André, São Bernardo, São Caetano e Diadema) na tarde de quinta-feira e manhã de sexta-feira, e localizou 28 crianças e adolescentes ganhando a vida nos semáforos.

Malabaristas – Na esquina das avenidas Antonio Piranga com Fábio Eduardo Ramos Esquível, em Diadema, cinco crianças, com idades entre 11 e 16 anos, faziam malabarismos na faixa de pedestres. Elas manipulavam três pedaços de madeira emborrachada e entretiam os motoristas.

D.O., 11 anos, que mora no Jardim Luso, em Diadema, disse que vale a pena passar a tarde nessa atividade: "A gente ganha até 50 contos (R$ 50) por dia." Depois de dividido o dinheiro, sobra cerca de R$ 12 para cada garoto. "Tem sete pessoas na minha casa, meu pai é frentista de posto de gasolina e o dinheiro que eu ganho dou todo para a minha mãe."

No corredor que liga Santo André e São Bernardo a Diadema, o Diário verificou a presença de vários jovens vendendo doces e outros alimentos. Nas proximidades da via Anchieta, em São Bernardo, os vendedores de amendoim torrado J.C.S. e R.S.E., ambos de 15 anos, contaram que saem diariamente do Jardim Campanário, em Diadema, para o ponto de venda.

Eles trabalham para uma terceira pessoa. Dizem que recebem R$ 30 por dia. O dinheiro, eles contam, é entregue para a mãe. "Ela compra mistura, feijão e roupas para a gente", conta R..

O sonho de R. é se formar em medicina. "Quando eu vejo uma pessoa passando mal, gostaria de ser médico para poder ajudar."

Na esquina da rua Afonsina com avenida Lauro Gomes, divisa de Santo André com São Bernardo, os irmãos A.P.V.J., 13 anos, e F.P.V., 10 anos, passam as tardes vendendo balas de goma. Eles compram a caixa de doce por R$ 5,70 e revendem cada pacote por R$ 0,50. O lucro é de R$ 9,30. Somando as caixinhas, eles voltam para casa com R$ 30.

Pequeno, esperto, desinibido, F. chama a atenção dos motoristas. "Outro dia, uma garota me deu R$ 0,50 e me perguntou o que eu lhe daria em troca. Falei que dava um beijo e beijei ela na bochecha. Era uma loirinha da hora", conta ele, se divertindo com a história.

Pára um ônibus e F. sai correndo. Ele entra no veículo, cumprimenta o motorista e volta voando para a calçada. "É um amigão meu." F. pega o bloco de anotações do repórter e mostra que sabe escrever e fazer contas. Os dois irmãos ajudam no sustento da casa, onde vivem sete pessoas, no bairro Sacadura Cabral, em Santo André.

F. faz pose para o fotógrafo e se vê contando vantagem para os amigos: "Vou ficar famoso".

Forasteiros – Há casos de adolescentes que trabalham para empresas de São Paulo, moram na capital e são transportados para o Grande ABC para distribuir folhetos. Vários menores entregavam, no centro de São Bernardo, um folheto de venda de veículos, com uma manchete que parecia uma ironia: "Prefeitura de São Bernardo investe na juventude".

D.P.S., 15 anos, disse que mora no bairro do Jabaquara e trabalha nos fins de semana distribuindo panfletos de propaganda. "A gente deveria receber R$ 160 por mês, mas como tem muita menina, a empresa não paga tudo de uma vez."

Outras garotas, também menores, disseram que moravam no bairro de Heliópolis e eram deslocadas para trabalhar na região. Na manhã de sexta-feira, elas entregavam papéis de divulgação nas proximidades do Paço Municipal de São Bernardo e, em Santo André, na avenida Pereira Barreto com Caminho do Pilar.

Nesse mesmo cruzamento, as meninas N.L.S. e J.G., ambas com 16 anos, distribuíam um panfleto de uma vidente, onde se lia: "Não precisa falar nada, ela fala tudo".



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