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Caminhar é preciso
Por Rodolfo de Souza
02/02/2024 | 09:07
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Fernandes


O homem caminha pelo calçamento irregular. Aparentemente não se importa com as antigas pedras, polidas pelo ir e vir de pessoas por décadas, senão séculos, considerando a idade do lugar.

Os anos dourados lhe são agora figuras desbotadas na mente. É o que me revelam a sua aparência e seus passos incertos. 

Não sei bem, mas penso que a presença do sujeito, numa rua qualquer da Espanha, tenha voltado meu olhar para os dias que se vão feito locomotivas. Aprendizado este recebido lá nos primórdios da existência, que, às vezes, é deixado de lado, num canto da consciência, mas que, vez ou outra, é preciso resgatar sob pena de cair no esquecimento a passagem do tempo. Não que estar consciente disso impeça o caminhar apressado das horas, mas talvez sirva para se degustar com mais paixão o que temos para hoje. Afinal, minutos e segundos seguem como as águas de um rio, que passam e não voltam, quer gostemos ou não. 

Mas foi a intromissão desse homem na minha vida que trouxe de volta tudo isso e despertou em mim alguma curiosidade, aguçando-me, por que não, as ideias, sempre atentas ao ser humano e seus movimentos. Até porque, não se trata de um homem qualquer, trata-se de um homem velho. Viejo, como se diz por aqui. Gente que percorreu longa jornada e que talvez não lhe ocorra mais olhar para a estrada que, aos poucos, desaparece no retrovisor. 

E é neste exato momento que desvio o foco do vai e vem de pessoas para observar a figura de andar difícil e semblante sôfrego. Traja-se com elegância o sujeito. Aliás, de acordo com o frio que é senhor nestas paragens, nesta época do ano. 

E lá vai ele caminhando. Percebo-o indiferente ao meu olhar e, sobretudo, ao meu pensamento que anda lado a lado com o seu. É provável que nem o tenha notado. As circunstâncias – crônicas, diga-se de passagem, são frutos de circunstâncias – permitiram que eu o encontrasse e visse nele inspiração para escrever algo inquietante sobre o tempo e seus caprichos. Porque, afinal, também eu já percorri jornada suficiente para me permitir observar o outro e refletir sobre sua determinação em vencer mais um trecho da longa estrada percorrida até aqui, passo a passo.

E o velho homem caminha sempre adiante, como se fosse necessário não parar, como se suas pernas, de extensa quilometragem, exigissem continuar, uma forma de talvez adiar a aproximação do fim. Assim é a vida, afinal de contas: um constante caminhar para todas as partes ou para parte alguma.

Logicamente que o calçamento de pedras não facilita as coisas. Mas, provavelmente habituado com o lugar, ele anda, mesmo tropeçando aqui e ali. Determinado, não se deixa vencer pelos movimentos incertos das pernas, que já não lhe obedecem como antigamente. Admiro-o de fato, sem sequer conhecê-lo. Nem suspeita de que se tornaria protagonista desta reflexão, assim como outros tantos o foram, de aqui e de acolá. 

É possível até que nem tenha notado a minha presença.

Rodolfo de Souza nasceu e mora em Santo André. É professor e autor do blog cafeecronicas.com.




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