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Inflação e arrocho salarial mobilizam oposição e sindicatos na Argentina
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16/12/2023 | 07:50
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Javier Milei já avisou que os próximos meses serão terríveis para os argentinos, em uma tentativa de se blindar daquilo que está por vir: uma possível inflação de até 30% ao mês e o aumento da pobreza. O problema é que os salários foram congelados e não acompanharão os preços, uma ação deliberada para forçar a queda do consumo e a circulação de moeda, combinação que será um teste de fogo para um presidente que tem margem de erro curta e governabilidade frágil.

Na terça-feira, 12, o ministro da Economia, Luis Caputo, anunciou um pacote de dez medidas para conter o déficit e evitar a hiperinflação. A principal delas foi a desvalorização de 55% do peso, que teve reflexo imediato nos preços: os supermercados já começaram as remarcações com reajustes acima de 20% nos alimentos.

Logo após o anúncio, as centrais sindicais acusaram o governo de "não cortar da casta, mas do povo" e convocaram protestos em massa para o dia 20, dia em que a Argentina relembra o massacre da Plaza de Mayo, a onda de protestos durante a crise econômica de 2001.

De maneira profilática, a ministra da Segurança, Patricia Bullrich, anunciou um novo protocolo de ações das forças de segurança, prometendo reprimir as manifestações. Entre as medidas está o uso da força para a liberação de espaços públicos, como ruas, avenidas e estradas. Todos os manifestantes que participarem de atos considerados ilegais serão identificados e processados.

Mas a oposição não se mostrou intimidada pelas novas regras, chamadas de "repressoras". "É uma espécie de estado de sítio", disse Eduardo Belliboni, líder de um grupo de piqueteiros que prometeu mobilizar 50 organizações sociais para protestar contra o governo. "Não queremos a paz dos cemitérios", afirmou Gabriel Solano, dirigente do Partido Operário.

Ontem, autoridades de Buenos Aires ameaçaram não aplicar o protocolo de Bullrich nas ruas da capital, alegando que o Executivo federal não teria jurisdição local. Segundo o secretário de Segurança de Buenos Aires, Diego Kravetz, o governo local trabalhará com uma "lógica própria" para manter a ordem e o direito de manifestação na cidade.

Desemprego

Segundo o instituto de estatísticas da Argentina, a inflação de novembro chegou a 160%, indicando que deve fechar o ano perto de 200%. Com o fim do controle de preços, adotado pelo governo de Alberto Fernández, a vida ficará mais cara.

Os combustíveis devem ser reajustados em 30%. A redução de subsídios para energia, gás e transporte terá impacto a partir de 1.º de janeiro, um tema que sempre foi explosivo na Argentina.

Segundo o economista da Universidade Católica Argentina, Juan Carlos Rosiello, a decisão de congelar salários visa conter o consumo e reduzir a inflação, um choque de demanda com toques recessivos. "Quando você gasta mais do que recebe, sua única alternativa é diminuir gastos", explica. "O problema é quanto tempo as pessoas vão aguentar esse esforço."

A vendedora Sandra Prado, de 47 anos, está preocupada com o congelamento de salários e prevê seis meses sombrios pela frente, mas confia no presidente. "A situação é preocupante, mas temos de fazer um esforço e cortar gastos". Milei, porém, já pediu mais tempo. Agora, em entrevistas, ele fala em até dois anos para que a inflação comece a retroceder.

O indicador que corrobora o baixo poder de compra dos argentinos é o desemprego. Segundo dados oficiais, quase metade dos argentinos vive na informalidade. O governo projeta que as medidas anunciadas reduzirão em 40% o poder de compra dos aposentados, que recebem um mínimo de 160 mil pesos (pouco mais de R$ 800). Com o fim dos reajustes bimestrais, a inflação deve pulverizar as pensões.

Compensações

O porta-voz da presidência, Manuel Adorni, sugeriu que o governo pode reavaliar a situação. "Se a inflação seguir sua tendência de aumento, os aposentados perderão muito mais do que vinham perdendo", admitiu. A intenção é acabar com um esquema previdenciário que transformou os aposentados em indigentes. A solução, segundo Adorni, pode ser conceder aumentos esporádicos por decreto.

A aposentada Griselda Binzttel, de 78 anos, reclamou que parou de comprar carne com a aposentadoria que recebe, mesmo quando os preços eram subsidiados. "Agora, não sei como será o futuro", afirmou.

Fabio Rodriguez, economista da Universidade de Buenos Aires, lembra que choques de austeridade, como o de Milei, exigem compensações sociais para evitar os distúrbios causados pelo empobrecimento. O pacote do governo praticamente ignorou essa ameaça.

"Há apenas duas medidas específicas de aumento em dois programas: o benefício universal por filho (AUH, na sigla em espanhol), um programa semelhante ao Bolsa Família brasileiro, e o Cartão Alimentação", afirma. Ambos são voltados para famílias pobres e com crianças. O aumento desses dois programas sociais foi a única medida para conter a insatisfação com o aperto econômico.

Cortes

Para Rosiello, o governo aposta que terá apoio popular cortando o que Milei chama de "casta" - a elite da burocracia estatal. Já no seu primeiro decreto, ele reduziu o número de ministérios e de secretarias, o que por si só faz pouca diferença em sua cruzada contra o tamanho do Estado, segundo Rosiello.

"Se você tem 100 funcionários públicos concursados, que não podem ser demitidos, distribuídos em 10 ministérios, quando você reduz o número de ministérios, eles terão de ser realocados nos ministérios que sobraram. Não é um corte real de gastos", afirma.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.




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