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Polícia irá investigar descaso em cemitério de Rio Grande da Serra

Serão ouvidas testemunhas em inquérito policial visando identificar os responsáveis por suposto crime contra a administração pública

Por Renan Soares e Cleber Ferrete
06/12/2023 | 07:00
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A Polícia Civil irá instaurar inquérito policial para investigar suposto crime contra a administração pública em Rio Grande da Serra, após os acontecimentos no Cemitério Municipal São Sebastião, onde uma família teve de abrir por conta própria a cova de Paulo da Silva Júnior, 26 anos. O delegado Márcio Antônio Pereira Macedo, titular da delegacia de polícia do município, disse ao Diário que busca, com o processo, apurar a responsabilidade no referido episódio, que aconteceu no último domingo (3). O crime prevê pena de um a cinco anos de prisão.

Maura Conceição da Silva, 49, mãe de Paulo, esteve ontem na delegacia para abrir um Boletim de Ocorrência sobre o caso e diz que já recorreu a um advogado. Conforme explica a mãe, que é auxiliar de enfermagem, familiares foram ao cemitério para realizar o sepultamento de Paulo – que morreu afogado em um riacho do município – mas funcionários do local explicaram que não seria possível fazer o serviço, já que todos os túmulos do espaço estavam ocupados e que eles não eram contratados para a função de coveiro, além de não poderem realizar exumação para liberar vaga.

“Quando cheguei ao cemitério, o pessoal da funerária me disse que não havia coveiro, cova aberta e espaço para abrir uma nova, porque não foram feitas exumações para novos locais. Mas o que eu e a população de Rio Grande da Serra têm a ver com isso?”, questiona Maura, sobre a versão apresentada pelos funcionários. “Estava preocupada apenas em velar o corpo do meu filho e não deu. Todos os meus amigos e familiares, que viram meu filho crescer, estavam esperando pelo sepultamento. Eu não sabia se chorava ou se atendia eles”.

Segundo o delegado, após a abertura do inquérito – que não tem data para ser finalizado –, serão ouvidas pessoas envolvidas no episódio, como os familiares de Paulo e os funcionários da Prefeitura. O secretário de Serviços Urbanos de Rio Grande, Wilson de Souza, também deve prestar esclarecimentos, já que vídeos gravados no dia mostram discussões acaloradas entre ele e trabalhadores do cemitério (leia mais abaixo). Ontem o Diário esteve no cemitério e constatou problemas de zeladoria, mas, ao contrário do último fim de semana, diversos funcionários trabalhavam fazendo manutenções e até exumações.

ENTENDA O CASO
O jovem Paulo da Silva Júnior morreu afogado na sexta-feira (1°). Segundo Mauricio Aparecido da Silva, 43, tio de Paulo, ao chegar no cemitério para enterrá-lo no domingo (3), havia dois funcionários no local dizendo que não seria possível realizar o sepultamento, pois todas as covas estavam ocupadas, sendo necessário aguardar uma nova disponibilidade de vaga.

Além disso, os funcionários justificavam que não poderiam abrir a cova, pois eram contratados para outras funções. A família estava acompanhada do vereador Akira do Povo (Podemos), que foi acionado pela família. Depois de um breve diálogo, os trabalhadores apontaram um local onde poderia haver uma vaga. A família, então, começou a abrir a cova por conta própria.

A Prefeitura de Rio Grande da Serra enviou nota ao Diário anteontem em que se defende sobre os eventos ocorridos naquela tarde, no Cemitério Municipal. O Paço confirmou a presença de dois funcionários no local, sendo um roçador e um servente de serviços gerais, e acusou os profissionais de se recusaram a executar o serviço, baseado em uma Lei Municipal.

Secretário acusa vereador de armação
A Prefeitura de Rio Grande da Serra vai instaurar processo administrativo disciplinar para apurar a conduta dos funcionários Renato Orlando Passareli e Petterson Calavan Conceição que teriam se recusado a fazer o enterro de Paulo da Silva Júnior. Também será apurada a conduta do administrador do Cemitério Municipal, Claudinei Pereira.

Em entrevista ao Diário, o secretário de Serviços Urbanos da cidade, Wilson de Souza, acusa o vereador Akira do Povo (Podemos) de armação e conluio com os próprios servidores do cemitério. “Os funcionários já estavam combinados com o vereador que não iam fazer o sepultamento e o vereador já estava preparado para fazer o show. É um vereador que já está acostumado a fazer uma política de baixo nível, espetaculosa. Foi tudo orquestrado. E, diante disso, a família enlutada sem saber que estava sendo usada politicamente.”

De acordo com Souza, os funcionários já prestam serviço no cemitério há bastante tempo e não havia motivos para a recusa. “Eu estou aqui na administração há cerca de um ano e meio e desde que entrei aqui essas pessoas são responsáveis pelos serviços de sepultamento. Eles decidiram não ser coveiros naquele dia (no domingo)”, fala. Sobre a versão de que os funcionários estariam em desvio de função, Souza rebate. “Eles recebem um adicional no salário para prestarem esse tipo de serviço e também têm garantidos todos os direitos previstos em lei.”

O secretário municipal disse que os dois funcionários já foram remanejados para as suas funções de origem (um é roçador e outro serviços gerais) e que vai protocolar o processo administrativo disciplinar no Departamento Jurídico nesta quarta-feira (6), inclusive contra o administrador do cemitério, que também já foi substituído. “No momento que ele (administrador) deveria dar amparo, ele não estava lá e nem o telefone atendeu. E coincidentemente chegou ao cemitério junto com o vereador Akira. Agora tudo deverá ser apurado”, conclui.

Sobre a sua conduta no domingo, na qual se dirige aos gritos contra um dos funcionários do cemitério (vídeo que circula pelas redes sociais), Souza admite o excesso, mas diz que se colocou no lugar da família. “Não podia ver aquilo e me calar. Eu estava cobrando a realização do serviço. Ainda continuo indignado com a postura. Depois quero me desculpar com a família”, finaliza.

Sobre o inquérito policial, Souza considera importante para que haja oportunidade de esclarecer os fatos.

Akira afirma que vai levar caso ao Ministério Público
Vereador de Rio Grande da Serra, Akira do Povo (Podemos) afirmou ontem que pretende levar o caso ao conhecimento do Ministério Público. Segundo o parlamentar, o Cemitério Municipal São Sebastião vive um colapso, com falta de vagas e falta de funcionários. “O local está lotado, inclusive já avançou para área de manacial. Esse não foi o primeiro caso e não será o último. A Prefeitura não se antecipou e os problemas se agravaram”, denuncia.

Sobre os ataques feitos pelo secretário de Serviços Urbanos, Wilson de Souza, que o acusou de estar mancomunado com os funcionários e que teria arquitetado a farsa, Akira diz estar tranquilo. “Tenho total tranquilidade. Domingo, por volta das 14h, eu estava indo levar as minhas filhas para um evento de ginástica rítmica, quando recebi uma ligação pedindo ajuda para este caso. Cheguei lá (ao cemitério) e o secretário já estava aos berros com os funcionários”. E complementa. “O papel da administração nesse momento é mentir e jogar a culpa nos funcionários para mascarar uma coisa que era obrigação dela”, ressalta.

Akira do Povo rebate a versão de Souza de que os funcionários teriam se recusado a fazer o sepultamento. Segundo o vereador, diante da superlotação do cemitério, os servidores teriam que fazer exumação para liberar o jazigo e, por isso, houve a recusa. “Esses funcionários estão tendo que mexer em corpos para liberar covas. Não é função deles”, acusa.

Sobre ter ajudado a família a cavar o jazigo, o vereador explica que os funcionários acreditavam que a cova 44 poderia estar vaga, mas não tinham certeza. “A organização do cemitério é muito falha. Os funcionários não estavam convictos se havia corpo no local ou não. Resolvemos arriscar. Caso tivesse algo pararíamos imediatamente”, esclarece o parlamentar.

Por fim, Akira do Povo pede publicamente a exoneração do secretário Wilson de Souza. “O mínimo que a prefeita Penha pode fazer é demitir o secretário como forma de retificar o erro da sua administração”, finaliza.
 




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