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Ensino médio é sonho distante para surdos


Verônica Fraidenraich
Do Diário do Grande ABC

10/05/2005 | 11:32


É insignificante o número de alunos com deficiência auditiva no Grande ABC que consegue concluir o ensino médio. Os poucos que terminam não têm domínio da Língua Portuguesa escrita e sofrem com as dificuldades de integração na sociedade. A falta de pessoas que dominem a Libras (Linguagem Brasileira de Sinais) nos mais variados ambientes, como bancos, cartórios, hospitais, universidades e inclusive nas escolas, é o principal problema apontado pelos surdos.

As Prefeituras da região, a Secretaria Estadual de Educação e o MEC (Ministério da Educação) não têm dados sobre o número de surdos concluintes do ensino médio, mas especialistas confirmam. “Pouquíssimos concluem o ensino médio porque são empurrados ou mesmo por abandonarem os estudos”, explica a fonoaudióloga Marisa Sacoloski, professora de Fonoaudiologia da Universidade Metodista.

A presidente da Apasma (Associação de Pais e Amigos dos Surdos de Mauá), Daisy Della Santa Pereira, reitera: “É muito pequena, quase irrisória a quantidade de surdos que termina o colegial.” Para Daisy, eles não conseguem engrenar. “O professor faz de conta que ensina e os alunos fazem de conta que aprendem”, sentencia.

Foi no início da década de 90 que passou a ser exigido o cumprimento da diretriz governamental estabelecida pelo MEC de que a educação dos surdos deve ser realizada na rede regular de ensino. Esse princípio sugere que os surdos e outros alunos com necessidades educacionais especiais – deficiências visual, mental, física etc – assistam às aulas como ouvintes.

Extinção – São Bernardo, São Caetano e Diadema têm escolas especiais para surdos, mas a tendência é que desapareçam. As turmas especiais que ainda existem, como na Escola Estadual Antônio Fortes, de Ribeirão Pires, também devem seguir o mesmo caminho. Em Santo André e Mauá, os alunos estão totalmente inseridos na rede regular e contam com programas de apoio. Em Mauá, existe o Cemei (Centro Municipal de Educação Inclusiva), que presta atendimento a alunos com diversas deficiências.

Douglas Maurício da Silva Lima, 7 anos, de Mauá, freqüenta o Cemei desde 2003. Com surdez entre moderada e profunda, tinha dificuldades de aprendizado. Além de não ouvir, não enxergava bem. Depois de várias visitas a oftalmologistas, a mãe descobriu que o filho precisava de óculos. “Desde que ganhou os óculos, melhorou muito. Não tropeça nem bate em coisas que antes não via, e acompanha melhor as aulas”, lembra a diretora do Cemei, Denise Aparecida Debatolo Pereira.

Na sala de recursos, as profissionais trabalham a Libras com Douglas e as defasagens neurológicas e cognitivas, já que ele não acompanhava bem as aulas. “Trabalhamos redação, escrita, matemática. Quanto mais for estimulado, mais vai aprender”, comenta Denise, que é a favor da inclusão, desde que acompanhada de outros pilares. “Tem que existir o tripé família, escola e terapia. É o eixo sem o qual a inclusão não acontece.”

Funil – Na região, não chega a mil o número de deficientes auditivos matriculados nas escolas municipais. Eles representam pouco menos de 0,5% dos quase 200 mil estudantes do Grande ABC. Os números da região acompanham dados do país que mostram que pouco mais de 1% do total de alunos matriculados na educação básica no Brasil são deficientes auditivos – cerca de 62 mil, segundo o Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira).

Para Kátia Barbosa, coordenadora-geral de Planejamento da Seesp (Secretaria de Educação Especial) do MEC, esses números não assustam, já que a população de deficientes auditivos no país representa cerca de 3% do total. De acordo com dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), existem no Brasil 5,7 milhões de surdos.

Mas Kátia admite que o término do ensino médio é glória de poucos. “É um funil, e é muito difícil para que avancem.” Mesmo assim, ela defende a inclusão como a melhor opção não só para o deficiente auditivo, mas para todos os deficientes e até mesmo para aqueles que têm dificuldades na aprendizagem.

Estranho no ninho – Rodrigo Alves Mariano, 19 anos, deficiente auditivo morador de Rio Grande da Serra, aponta o problema do desinteresse manifestado por parte dos professores. Em 2004, ele estudava numa classe especial em Ribeirão Pires, assistindo aulas com ouvintes. “Não aprendia muita coisa. Os professores não sabem a língua de sinais”, diz. Além do ensino, ele se queixava de não poder conversar com os colegas ouvintes, já que quase nenhum dominava a Libras. Ele está na 4ª série, sabe usar a língua de sinais, mas não sabe ler e escrever.

Para Danilo Figueiredo, 13 anos, de Santo André, conversar com ouvintes não é tão difícil. Mesmo sendo o único aluno surdo da sala do segundo ciclo (antigas 3ª e 4ª séries) da Emeief Comendador Piero Pollone, em Santo André, os colegas desenvolveram formas próprias de comunicação. A professora não sabe a língua de sinais e o garoto ainda não é alfabetizado. Para ajudá-lo, são realizadas em algumas escolas atividades nas salas de referência, com uma professora do Cade (Centro de Atenção ao Desenvolvimento Educacional) e um instrutor surdo. “Eles têm aulas de Libras, mas também desenvolvemos trabalhos de leitura, contos, ou outros projetos, de acordo com o interesse dos participantes”, explica a professora Mary Lopes Esteves Frizanco, do Cade.

A professora de Fonoaudiologia Nídia Regina Sá diz que a inclusão é questionável. Ela acredita que a iniciativa é interessante, por valorizar as diversidades, mas não o melhor caminho para o surdo. “Porque este usa estratégias cognitivas diferentes dos outros, e o professor não consegue usar duas línguas ao mesmo tempo.” A professora completa que o ideal seria um ambiente lingüístico vivo, onde todo mundo falasse a língua de sinais. “Assim, iriam adquirir um conhecimento aprofundado e a proeficiência dessa língua.”

Polêmica – Se a discussão sobre a inclusão é polêmica, o fato é que poucos surdos que concluem o ensino médio dominam a Língua Portuguesa. Depois de ter passado no mínimo 11 anos estudando, essas pessoas conseguem interagir com a sociedade, mas ainda enfrentam muitos problemas. Vale lembrar que há uma dificuldade adicional para o aprendizado dos surdos, já que a Libras só tem um canal de expressão gestual-visual e carece de forma escrita.

Humberto da Silva Brito, 21 anos, morador de Mauá, terminou o 3º ano do ensino médio em classe de ouvinte e ainda não domina a Língua Portuguesa. Mesmo assim, é bastante procurado pelas empresas preocupadas em atender às exigências da lei 8.213/91. A legislação determina a reserva de 2% a 5% das vagas para pessoas portadoras de deficiências, quando a companhia tiver quadro de mais de 100 funcionários.

O que deveria ser uma alegria para Humberto tornou-se um problema. Empregado de uma fábrica de chocolate com um salário de R$ 300, ele se queixa de maus-tratos e exploração. Conta que, além de estar sempre mudando de função na empresa, o encarregado não o trata bem. “Às vezes, quero falar, mas ele não me dá bola. Quando me dá bronca, fala rápido e não consigo entendê-lo.”

Humberto reclama da falta de intérpretes em locais públicos como bancos, hospitais e maternidades. “Às vezes, tenho dificuldades quando vou ao banco; as pessoas até tentam nos entender, mas depois de uma, duas, três tentativas, acabam desistindo.”

Fernando Izidro Barbosa, 24 anos, empregado numa fábrica de pães, está satisfeito com o trabalho, mas também se queixa das dificuldades de comunicação. Ele cursou o ensino médio, sabe escrever e usar o computador, e pretende ser professor de Libras. “Tem de haver instrutores de Libras em bancos, escolas e médicos para ajudar o surdo a se comunicar. Eu não preciso, pois se o ouvinte fala devagar, eu entendo e, se não entender, peço para ele escrever num papel, mas outros surdos precisam.”


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