Setecidades Titulo Consciência Negra
Bailes funk e soul foram resistência da cultura negra no Grande ABC

Músicas conectam população negra à ancestralidade

Beatriz Mirelle
20/11/2023 | 07:00
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DGABC


Cabelo crespo arredondado e com spray, calça boca de sino, suspensórios, camisa confortável e sapato mocassim. Esses eram os elementos que não poderiam faltar para quem quisesse curtir um bom baile nas décadas de 1970 e 1980 no Grande ABC. A estética de quem era figurinha confirmada nas noites e a potência dos cantores negros que agitavam os palcos com funk e soul foram essenciais para resgatar a autoestima da população preta da região, que se deparava com a ditadura militar (1964-1985), grandes greves sindicais (1978-1980) e contínuas ondas de opressão por causa do racismo e violência policial. Hoje, 20 de novembro, data que comemora o Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra, personalidades do Grande ABC reforçam a importância da música para potencializar a ancestralidade africana. 

“Era roupa colorida, sapato de duas cores, cabelo black. A gente era um terror. Os caras nos viam como alienígenas. Para dançar o soul, funk, você tem que estar no estilo, senão é falta de respeito até mesmo com quem criou a dança. Nossos bailes eram um grande encontro familiar, independentemente se era aqui no Grande ABC, no Palmeiras, na Chic Show ou na Zona Leste. Aprendemos a nos cuidar por causa dos bailes, tanto que estamos vivos até hoje”, relata Joaquim de Oliveira Ferreira, conhecido como King Nino Brown, pesquisador, DJ e militante dos movimentos negros de resistência. Foi metalúrgico, participou das grandes greves, morou boa parte da adolescência no Jardim Calux, em São Bernardo, e é um dos fundadores da Pose Hausa, organização destinado à cultura Hip-Hop e à Zulu Nation Brasil (entidade nacional da instituição criada pelo DJ estadunidense Afrika Bambaata).

“Teve uma vez que eu e um amigo fomos colocados dentro de um camburão. Eles me bateram e na minha ficha estava escrito ‘cabelo black desordeiro’, Olha o meu título! As pessoas não podem confundir o uso do cabelo black com consciência. Tem gente que pensa só em estética. Os bailes blacks eram uma forma da gente se organizar, criar autoestima, amar os nossos semelhantes. Consciência negra é algo sério”, reforça King Nino Brown.

Co-fundadora da entidade Negra Sim – Movimento de Mulheres Negras de Santo André, Rosana Aparecida, 57, relembra com carinho das épocas de baile black. “Frequentei dos meus 14 aos 23 anos. Eu, minha irmã e minhas primas curtimos muito o Cev, em Santo André. Tínhamos que chegar antes das 19h para não pagar. Então, subíamos um escadão correndo.” 

Na década de 1980, o Cev promovia concursos de dança e a Rosana criou a equipe Afrika Bambaataa. “Tinham várias equipes formadas por só homens. Então, decidimos criar a nossa de mulher e do meu irmão. Bordamos as roupas de cetim para todos termos o mesmo estilo, ensaiamos os passos no quintal de casa e nos apresentamos. Pena que não tinha câmera fotográfica na época. Seria legal ter esse registro”, conta a moradora da Vila Lutécia.

A preparação para o baile não se resumia em apenas um único dia. O evento era praticamente canônico e a oportunidade perfeita para encontrar amigos e paqueras. “Pensávamos na roupa que iríamos e lavávamos durante a semana. Pintávamos as unhas, comprávamos ingressos, planejávamos o melhor salto. Quando começamos a ir para o baile, não existiam muitas trançadeiras. Hoje chamam de trancistas. Então, ficávamos umas cinco horas na fila esperando a nossa vez no salão. Era muita gente para uma única trançadeira. Depois veio o kanekalon de molinha. Lembro que muitas vezes, a gente perdia um rabinho de kanekalon porque não existiam as técnicas (de fixação) que têm hoje. Íamos básicas, mas era muito bacana.” 

Cev, Kaskata’s, Sunshine, Choppapo: festas dominam região

A Chic Show é uma das festas paulistanas de música black mais conhecidas no Brasil. Os eventos nas décadas de 1970 e 1980 trouxeram nomes como James Brown, Earth, Wind & Fire, Tim Maia e Carlos Dafé para a sede do Palmeiras, na Água Branca, Zona Oeste. O Grande ABC não ficava para trás na organização de bailes. 

O ativista e pesquisador King Nino Brown relata que a sede da Associação de Moradores do Jardim Calux, em São Bernardo, foi o primeiro baile que frequentou. “Ia muita gente do Taboão, Piraporinha, Vila Planalto. Na hora que o DJ tocava James Brown, o baile parava. Era o ápice, o batismo. O pessoal abria uma roda e cada um dançava um pouco. O som do James Brown me cativou e aquilo ficou na minha cabeça, me apaixonei pelos bailes.”

Rosana Aparecida, 57, co-fundadora da entidade Negra Sim - Movimento de Mulheres Negras de Santo André, relembra que no Club House (conhecido também como Kaskata’s) teve a oportunidade de ver a Sandra de Sá, em 1987. “Ela estava grávida e cantou Olhos Coloridos. Foi lindo. Era o auge da luta antirracista na questão de assumir os cabelos crespos.”

O Club House e o Sunshine, no Parque das Nações; Cev, na Vila Vitória; Clube Primeiro de Maio, no Centro de Santo André, assim como as casas noturnas Babaréu e Hipnoses, em São Caetano, eram espaços onde o cantor andreense Péricles costumava frequentar. “Nas festas, tinham aqueles que queriam dançar as novidades da black music ou do samba. Os bailes ajudaram a população negra do Grande ABC a se empoderar porque a gente se dava um olhar de exigência para ir com as melhores roupas e sapatos. Exigíamos de nós mesmos uma melhor postura”, comenta. “Lembro de quando o Two Live Crew, grupo de hip hop de Miami, veio ao Kaskata’s. Eles foram precursores da batida do funk carioca. A região começou a receber novos artistas e isso nos deu coragem. Queríamos acreditar que poderíamos fazer daquela forma também.” 

Em 1991, a Choppapo Produções Artísticas, que tinha o baile da Choppapo, no Centro de São Bernardo, produziu álbum com diversos artistas, incluindo o Exaltasamba. O primeiro álbum próprio do grupo foi Eterno Amanhecer (1992), lançado pela Kaskata’s Records.




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