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Feliz com seu trabalho?

Pouca gente sabe, mas com certeza desconfia...


Carlos Ferrari

01/05/2013 | 00:00


Pouca gente sabe, mas com certeza desconfia, pois não precisa ser um grande estudioso para confirmar os dados de pesquisas que nos mostram o elevado nível de insatisfação do brasileiro com seu trabalho.

Atualmente, somos uma verdadeira potência quando o assunto é gente infeliz com o que faz. Por conta disso, tem uma grande quantidade de pessoas buscando respostas para entender quais os culpados de tanta insatisfação e, acreditem, tem muita coisa bacana para ler sobre o tema.

Os salários daqui da terra do samba e do futebol, mesmo não sendo um dos piores do mundo, acabam também aparecendo nas primeiras posições de níveis de insatisfação global, deixando claro para quem queira ou não ver que quando o assunto é trabalho a infelicidade do brasileiro é quase geral. 

Decidi, nesta semana do dia 1º de maio, trazer um pouco dessa conversa para nosso encontro, pois, como muitos sabem, sou liderança do movimento de pessoas com deficiências no Brasil, e hoje uma de nossas principais bandeiras de luta é, sem dúvida, a oportunidade por um espaço no mercado de trabalho. Para começar a prosa alguém poderia perguntar: ‘Diante do problema exposto e do assunto luta das pessoas com deficiências trazido à baila, é correto afirmar que essas pessoas são mais satisfeitas com o que fazem'? Estudos realizados a partir de cases de colocação monitorados ou, até mesmo, de depoimentos de profissionais ligados à inserção de pessoas com deficiências no mercado apontam que sim. Muitas das falas que permeiam essa constatação indicam que a valorização da oportunidade é um dos principais elementos que mantêm esses trabalhadores com pique na função. 

Leitura rasa dessas informações poderia levar a várias conclusões preconceituosas, como, por exemplo:

1 - Pessoas sem deficiências são ingratas e não valorizam suas oportunidades de trabalho;

2 - Pessoas com deficiências são pouco exigentes, logo, simples fato de estar trabalhando já lhes é suficiente.
Com certeza, temos muitas pessoas com deficiências também descontentes em suas funções. E o ponto crucial desse nosso bate-papo é, sem dúvida, o nível de expectativa em torno do que nos propomos a fazer.

Culturalmente fomos criados com a ideia de que trabalhamos para viabilizar nossas necessidades de consumo, ou mesmo para garantir nossa subsistência familiar. Dificilmente aprendemos, ou mesmo vemos ser exautados, os demais ganhos do trabalho como o fortalecimento da autoestima, o autoconhecimento e a ressignificação social diante de cada novo desafio. Assim é comum ouvir algum amigo dizer: ‘Caso eu ganhasse na loteria, jamais trabalharia novamente'.

Infelizmente, nossa insatisfação com o trabalho, além de todas as injuções decorrentes de um processo perverso de precarização da mão de obra, ainda é fruto de uma concepção equivocada desse conceito que consolidamos quase inconscientemente ao longo da vida. Voltando às pessoas com deficiências, muitas delas almejaram por anos uma oportunidade laboral. Com isso, acabaram descobrindo o trabalho como uma possibilidade de renascimento diante de sua família, da comunidade e, principalmente, de si mesmo. 

Enfim, podemos passar a refletir sobre a qualidade de nosso trabalho, considerando não apenas as condições que nos são oferecidas em determinado momento, mas, principalmente, qual o significado de trabalhar e do que temos feito para a construção de nossa história. 

Para terminar, é importante dizer que este não é, necessariamente, um texto de exaltação ao trabalho, mas sim um convite a exercitarmos a boa e velha capacidade de análise crítica diante do que nos propomos a fazer e, melhor que isso, por que nos propomos a fazer. 

Carlos Ferrari é presidente do CNAS (Conselho Nacional de Assistência Social) e vice-presidente da Fenavape (Federação Nacional das Avapes).



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Feliz com seu trabalho?

Pouca gente sabe, mas com certeza desconfia...

Carlos Ferrari

01/05/2013 | 00:00


Pouca gente sabe, mas com certeza desconfia, pois não precisa ser um grande estudioso para confirmar os dados de pesquisas que nos mostram o elevado nível de insatisfação do brasileiro com seu trabalho.

Atualmente, somos uma verdadeira potência quando o assunto é gente infeliz com o que faz. Por conta disso, tem uma grande quantidade de pessoas buscando respostas para entender quais os culpados de tanta insatisfação e, acreditem, tem muita coisa bacana para ler sobre o tema.

Os salários daqui da terra do samba e do futebol, mesmo não sendo um dos piores do mundo, acabam também aparecendo nas primeiras posições de níveis de insatisfação global, deixando claro para quem queira ou não ver que quando o assunto é trabalho a infelicidade do brasileiro é quase geral. 

Decidi, nesta semana do dia 1º de maio, trazer um pouco dessa conversa para nosso encontro, pois, como muitos sabem, sou liderança do movimento de pessoas com deficiências no Brasil, e hoje uma de nossas principais bandeiras de luta é, sem dúvida, a oportunidade por um espaço no mercado de trabalho. Para começar a prosa alguém poderia perguntar: ‘Diante do problema exposto e do assunto luta das pessoas com deficiências trazido à baila, é correto afirmar que essas pessoas são mais satisfeitas com o que fazem'? Estudos realizados a partir de cases de colocação monitorados ou, até mesmo, de depoimentos de profissionais ligados à inserção de pessoas com deficiências no mercado apontam que sim. Muitas das falas que permeiam essa constatação indicam que a valorização da oportunidade é um dos principais elementos que mantêm esses trabalhadores com pique na função. 

Leitura rasa dessas informações poderia levar a várias conclusões preconceituosas, como, por exemplo:

1 - Pessoas sem deficiências são ingratas e não valorizam suas oportunidades de trabalho;

2 - Pessoas com deficiências são pouco exigentes, logo, simples fato de estar trabalhando já lhes é suficiente.
Com certeza, temos muitas pessoas com deficiências também descontentes em suas funções. E o ponto crucial desse nosso bate-papo é, sem dúvida, o nível de expectativa em torno do que nos propomos a fazer.

Culturalmente fomos criados com a ideia de que trabalhamos para viabilizar nossas necessidades de consumo, ou mesmo para garantir nossa subsistência familiar. Dificilmente aprendemos, ou mesmo vemos ser exautados, os demais ganhos do trabalho como o fortalecimento da autoestima, o autoconhecimento e a ressignificação social diante de cada novo desafio. Assim é comum ouvir algum amigo dizer: ‘Caso eu ganhasse na loteria, jamais trabalharia novamente'.

Infelizmente, nossa insatisfação com o trabalho, além de todas as injuções decorrentes de um processo perverso de precarização da mão de obra, ainda é fruto de uma concepção equivocada desse conceito que consolidamos quase inconscientemente ao longo da vida. Voltando às pessoas com deficiências, muitas delas almejaram por anos uma oportunidade laboral. Com isso, acabaram descobrindo o trabalho como uma possibilidade de renascimento diante de sua família, da comunidade e, principalmente, de si mesmo. 

Enfim, podemos passar a refletir sobre a qualidade de nosso trabalho, considerando não apenas as condições que nos são oferecidas em determinado momento, mas, principalmente, qual o significado de trabalhar e do que temos feito para a construção de nossa história. 

Para terminar, é importante dizer que este não é, necessariamente, um texto de exaltação ao trabalho, mas sim um convite a exercitarmos a boa e velha capacidade de análise crítica diante do que nos propomos a fazer e, melhor que isso, por que nos propomos a fazer. 

Carlos Ferrari é presidente do CNAS (Conselho Nacional de Assistência Social) e vice-presidente da Fenavape (Federação Nacional das Avapes).

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