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Livro apresenta duas décadas de conversas sobre música popular

Jornalista Adriana Del Ré traz histórias de alguns dos principais nomes da MPB ao mesmo tempo em que revela bastidores de reportagens

Evaldo Novelini
Do Diário do Grande ABC
03/06/2023 | 09:23
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Gal Costa concede entrevista a Adriana Del Ré no lançamento de ‘A Pele do Futuro’, em 2018 (FOTO: Arquivo Pessoal)


Em 2018, por ocasião do lançamento de A Pele do Futuro, a cantora baiana Gal Costa recebeu, na Capital paulista, a jornalista Adriana Del Ré para falar sobre o seu mais recente disco. Ao se sentar em um dos cantos de um sofá verde, onde concederia a entrevista, a artista descalçou os sapatos e pôs os pés no estofado, para ficar mais à vontade. Instintivamente, a repórter fez o mesmo. Estava estabelecida a sintonia necessária para Gal se desnudar diante do gravador ligado.

“Ela decidiu tirar os sapatos. Para deixá-la à vontade, durante a entrevista, também tirei os meus. Tudo sem planejar. Engatamos numa conversa boa, ao melhor estilo olhos nos olhos e pés livres”, relata Adriana no livro Conversas sobre MPB – 30 Entrevistas com Importantes Nomes da Nossa Música (Letras do Brasil, R$ 68, 196 páginas), que será lançado dia 14, a partir das 18h, na Livraria da Vila (Rua Fradique Coutinho, 915, Vila Madalena, Capital).

A obra é uma coletânea de reportagens sobre música popular brasileira publicadas ao longo de 18 anos no jornal O Estado de S. Paulo, onde a autora trabalhou. Mas a cereja do bolo são os textos inéditos sobre o backstage das conversas, onde Adriana fala de sua relação com o entrevistado e da criação do ambiente de intimidade necessário para que o bate-papo flua com naturalidade – e revelações curiosas e saborosas possam ser feitas.

Foi nesta sintonia que Gal Costa, em oportunidade anterior à entrevista de pés no sofá, sentiu-se à vontade para contar em detalhes por que pediu a Rita Lee licença para alterar a palavra “pai” por “mãe” na letra de Ovelha Negra ao incluir a música no disco Gal Bossa Tropical. Os pais da cantora foram casados cerca de oito anos e durante todo esse período tentaram ter um filho. Os dois brigaram e, no dia em que se encontraram para acertar a separação, ele a seduziu.

“Minha mãe ficou grávida, mas eles não retomaram a relação. Então ela se tornou meu ponto de referência, foi meu pai e minha mãe”, revela Gal Costa (1945-2022) para Adriana em 2002 – e a jornalista, por sua vez, repassa aos seus leitores em reportagem publicada em 13 de dezembro daquele ano.

Adriana não precisa, contudo, estar frente à frente para extrair episódios saborosos do entrevistado. Como prova o bem-humorado texto sobre Rita Lee (1947-2023), que, a partir de determinado momento da carreira, decidiu que não iria mais falar com a imprensa pessoalmente. “Querida, as entrevistas por e-mail são muito mais práticas, posso responder na comodidade do meu lar, nem preciso passar um batonzinho. Quer coisa mais chata do que aquele gravadorzinho que sempre emperra?”, justifica a cantora.

Na maior parte, lê-se Conversas sobre MPB com sorrisos nos lábios. Como quando Elza Soares (1930-2022) explica por que não revelava a idade de forma alguma: “Em outros países, velhice é acúmulo de experiência; no Brasil é o acúmulo de caduquice”. Mas há partes comoventes. Como a de Marisa Monte contando que o filho de Cássia Eller (1962-2001), Chicão, gostava mais dela do que da mãe ao microfone: “Quando perguntavam o que seu filho achava dela cantando, ela respondia: ‘Ele gosta da Marisa Monte, porque acha que eu grito muito’”.

Zélia Duncan, na quarta capa, dá testemunho sobre a autora e fala do valor de se perenizar em livro a efemeridade do trabalho jornalístico. “É muito importante conversar com quem sabe por que está ali, alguém que conhece nosso percurso e preza o que está ouvindo. As melhores entrevistas sempre partem do entrevistador, a meu ver. Em como ele desperta no entrevistado o desejo de falar, de se abrir (...). Adriana gosta do que faz. E isso a gente sente no tipo de silêncio atento em que ela mergulha quando respondemos às suas perguntas.”




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