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Bilinguismo, celulares e memória!
Por Antonio Carlos do Nascimento
08/05/2023 | 06:00
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A cognição é a habilidade de processar e assimilar as informações de diferentes fontes e neste contexto a memória tem indispensável importância, pois permite armazenar e recuperar dados, possibilitando o aprendizado e critérios para decisões. 

Estudos sobre cognição têm surgido em profusão em centenas de centros de pesquisas do mundo todo. Muito embora, estas investigações contemplem principalmente avaliações relacionadas ao envelhecimento, algumas abordam as várias faixas etárias. 

Publicado em fevereiro de 2022 pelo jornal “Frontiers in Humans Neuroscience", o estudo intitulado "Bilingualism and Aging: Implications for (Delaying) Neurocognitive Decline (Bilinguismo e Envelhecimento: Implicações para (Retardar) o Declínio Neurocognitivo), sugere fortemente que falar duas línguas retarda o declínio neurocognitivo. 

A suposição do estudo supracitado é reafirmada no artigo publicado pela revista Neurobiology of Aging em abril deste ano, "Linking early-life bilingualism and cognitive advantage in older adulthood" (Ligando o bilinguismo no início da vida e a vantagem cognitiva na idade adulta).

Embora não existam afirmações inequívocas, é provável que exercitar nosso cérebro para a aprendizagem e domínio de mais de um idioma seja proveitoso para retardar, ou mesmo evitar a perda cognitiva relacionadas ao envelhecimento.

Mas, do lado oposto dessa resenha, entre os principais candidatos a malfeitores para a memória, e consequentemente para a cognição, estão os nossos inseparáveis smart phones. As acusações contra estes pequenos eletrônicos são tão numerosas que citarei apenas alguns resultados de pesquisas mais famosas.

Em um clássico estudo de 2014, estudantes universitários foram submetidos a várias arguições cognitivas, com telefones celulares presentes e fora de vista. A presença destes aparelhos, ainda que desligados, afetou negativamente a atenção e o desempenho nestes testes. Noutra pesquisa, de 2016, escolas inglesas que proibiram o uso destes dispositivos por todo o período de aula, promoveram melhor nível de aprendizado para seus alunos.

Porém, algumas perguntas clamam por respostas: quais os riscos futuros para a nossa memória, se transferimos a maior parte das informações para o smart phone? A dúvida resolvida em alguns clicks no Google gera conhecimento ou entorpece o raciocínio? Sobra-nos mais espaço no cérebro para retermos o que mais nos interessa?

Tabaco, entorpecentes, ultraprocessados, sedentarismo e noites em claro, todos em seus modos e intensidades são danosos para a cognição atual e futura, enquanto o álcool permanece há muitas décadas no limbo investigativo, mesmo para seu consumo moderado.

Mas, se os celulares inteligentes nos tornarão idosos mais confusos ou espertos, o tempo dirá, contudo, para qualquer das alternativas, parece valer a pena dominar dois idiomas!

Antonio Carlos do Nascimento é doutor em endocrinologia pela Faculdade de Medicina da USP e membro da Sociedade de Endocrinologia e Metabologia.




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