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Alzheimer, insulina e afins: a conexão!
Por Antonio Carlos do Nascimento
13/03/2023 | 08:10
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Responsável por dois terços dos casos de demência, a doença de Alzheimer (DA) é uma condição degenerativa cerebral resultante do processamento celular equivocado de duas proteínas, o que promove o acúmulo de complexos proteicos danosos dentro e fora destes neurônios.

Inicialmente essa deposição proteica compromete a transmissão entre estas células nervosas e após período variável ocorre a morte celular com perda progressiva destes neurônios, essencialmente em regiões do cérebro responsáveis pela cognição, envolvendo memória, linguagem, raciocínio e pensamento abstrato.

Até três ou quatro décadas atrás, pensava-se que a insulina, dado sua dimensão molecular, não romperia a barreira entre o sangue e o cérebro, além do que, seria desnecessária ao tecido cerebral, que diferentemente do restante do organismo, é capaz de captar e utilizar glicose sem qualquer auxílio insulínico.

Foi descoberto, porém, que as células cerebrais, especialmente das áreas cognitivas, possuem um número gigantesco de receptores para insulinae esta tem acesso livre ao tecido cerebral através de setor específico, além de ser fabricada em alguma quantidade em pequena área do cérebro.

Sabe-se que a insulina é receptada por estes neurônios para ativar vários fluxos metabólicos necessários à cognição e adicionalmente, participa da depuração de complexos proteicos danosos.

Quando no restante do organismo ocorre dificuldades para a insulina se ligar ao seu receptor celular e entregar a molécula de glicose, dizemos que existe resistência a insulina (RI), condição que principia um processo que poderá evoluir para pré-diabetes e diabetes tipo 2 (DM2), embora potencialmente reversível a partir de algumas ações severas.

Admite-se a possibilidade de que a RI no tecido cerebral, independentemente da RI periférica, possa ser o fator preponderante no desencadeamento e evolução para DA e que tratamentos que sirvam para reverter ou controlar o DM2 possam mostrar caminhos para conter, ou mesmo reverter essa brutal causa de demência.

Por isso, atualmente vemos uma verdadeira avalanche de estudos em animais com DA induzido em laboratório, assim como em humanos com DA, nos quais são avaliados o uso de medicamentos indicados no DM2, especialmente aqueles fármacos com pouco ou nenhum risco de induzirem hipoglicemia.

Notadamente a Liraglutida (Victoza e Saxenda), Semaglutida (Ozempic e Wegovi) e Tirzepide (ainda não aprovado no Brasil), entre outros, têm sido estudados com perspectivas extremamente animadoras para DA em pacientes com e sem DM2.

Os elementos que interferem na ação da insulina, seja no cérebro ou em outras partes do organismo, são provenientes em grande parte de nossa alimentação, ou, do tecido gorduroso acumulado e não à toa, dietas que nos protejam da obesidade, nos protegerão do diabetes tipo 2 e da Doença de Alzheimer, destaque perene para a Dieta do Mediterrâneo.

Antonio Carlos do Nascimento é doutor em endocrinologia pela Faculdade de Medicina da USP e membro da Sociedade de Endocrinologia e Metabologia. 




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