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Dólar sobe 1,65% com temor de recessão nos EUA e cautela fiscal



01/07/2022 | 17:49


A busca global pela moeda norte-americana diante de sinais de perda de fôlego da atividade na Europa e nos Estados Unidos, aliada ao aumento da percepção de risco fiscal com a tramitação da PEC dos Combustíveis no Congresso, pautou os negócios no mercado de câmbio local na sessão desta sexta-feira, 1º de julho. Após encerrar junho com alta de 10,15%, o maior avanço mensal desde março de 2020, o dólar emendou nesta sexta-feira o terceiro pregão seguido de valorização e fechou acima da linha de R$ 5,30 pela primeira vez desde 4 de fevereiro (R$ 5,3220).

O mercado já abriu sob impacto de dados ruins de atividade e inflação na Europa. O PMI industrial da zona do euro caiu a 52,1 em junho, menor patamar em 22 meses, embora acima da prévia. O CPI na zona do euro atingiu alta anual de 8,6% em junho, máxima história. Ainda pela manhã, veio a leitura fraca do PMI dos EUA medido pelo ISM de Chicago: queda de 56,1 em maio para 53 em junho, abaixo do previsto (54,3). O indicador se aproxima cada vez mais da linha de 50, que separa expansão de retração.

Não bastassem os ventos externos negativos, pesava sobre os negócios a ampliação dos gastos previstos na PEC dos Combustíveis, aprovada na quinta-feira de forma relâmpago em dois turnos no Senado com decretação do estado de emergência.

Já estavam na conta do mercado o aumento do Auxílio Brasil (de R$ 400 para R$ 600), a ampliação do vale gás e o voucher a caminhoneiros de R$ 1 mil mensais. No apagar das luzes, contudo, foram incluídos no texto o "auxílio-taxista", com custo de R$ 2 bilhões, e a adição de R$ 500 milhões para o programa Alimenta Brasil - o que elevou a fatura extrateto de R$ 38,75 bilhões para R$ 41,25 bilhões.

Chamado de "pacote de desespero" nos bastidores, por representar a principal cartada do presidente Jair Bolsonaro para tentar subir nas pesquisas de intenção de voto, a PEC dos Combustíveis pode também passar de forma expressa pela Câmara, ao ser acoplada a chamada PEC dos Biocombustíveis em tramitação na Casa.

"Esse aumento de gastos em ano eleitoral, com medidas para tentar angariar votos, piora muito a percepção dos investidores sobre a questão institucional. Isso tem aumentado a volatilidade da taxa de câmbio e levado a uma tendência de depreciação", afirma economista-chefe do Banco Ourinvest, Fernando Consorte.

Foi em meio a esse painel adverso que o mercado abriu chutando o dólar rapidamente para cima de R$ 5,30. A máxima da sessão, a R$ 5,3382, veio ainda pela manhã. Ao longo da tarde, em meio a ajustes intraday, a moeda chegou a tocar o patamar de R$ 5,29, mas voltou a ganhar fôlego na última hora de negócios e fechou em alta de 1,65%, a R$ 5,2312. Com isso, encerra a semana com valorização de 1,30%. As perdas no ano, que já chegaram a superar 17%, estão agora abaixo de 5%.

No exterior, o índice DXY - que mede o desempenho do dólar frente a seis divisas fortes - trabalhou em alta ao longo de toda a sessão e chegou ao fim da tarde acima da casa dos 105,000 pontos, sobretudo em razão dos ganhos frente ao euro. Mesmo com a probabilidade de alta de 75 pontos-base da taxa básica americana neste mês caindo da faixa de 80% para 60% (segundo monitoramento do CME Group), a perspectiva ainda é de que o Federal Reserve será mais rápido que o Banco Central Europeu (BCE) no ajuste da política monetária.

"Vários dados ao longo desta semana aumentaram o temor de recessão nos Estados Unidos. Teoricamente, com a economia americana mais fraca, o dólar deveria perder valor. Mas o que estamos vendo é um movimento de 'risk off', o que potencializa o dólar e aumenta a busca por ativos mais seguros como as Treasuries", afirma a economista-chefe da Armor Capital, Andrea Damico.

A onda global de busca pelo dólar castiga todas as divisas emergentes, ressalta Damico. Na média, contudo, o real apresenta desempenho inferior a de seus pares em razão da percepção de risco fiscal com o decreto de estado de emergência. Há dúvidas se o aumento de gastos "ficará circunscrito" ao que está previsto na PEC. "A insegurança com a política fiscal no médio prazo tem atrapalhado bastante o real", diz a economista-chefe da Armor.



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