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Professor andreense supera traumas
na vida e único pulmão

Claudinei Plaza/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Ricardinho passa adiante suas vivências dando aulas de iniciação de natação em Santo André e representando a equipe master da cidade


Dérek Bittencourt
Da Redação

16/05/2022 | 00:01


Ricardo Gonçalves de Melo Souza, mais conhecido como Ricardinho, tem apenas 34 anos. Entretanto, a vida do professor de natação de Santo André e integrante da equipe master da cidade na modalidade é composta por altos e baixos. Quem o vê hoje, à beira ou dentro da piscina, não sabe de seu histórico de superação, inspiração, superstição e fôlego, mesmo que atualmente tenha apenas um dos pulmões com plena capacidade.

Ricardinho ingressou na natação ainda criança, aos 6 anos. Em pouco tempo entrou para a equipe de treinamento. No fim dos anos 1990, passou a disputar provas curtas na antiga piscina do Dell’Antonia, que sequer era coberta. Foi aí que veio o primeiro tombo na carreira: quando tinha 12, seu pai foi embora de casa, fazendo com que Ricardinho e o irmão precisassem buscar trabalho para sustentar a casa. “Tive que abandonar o sonho”, conta. “O tempo passou e ficou essa chama no coração: o que será que teria acontecido se eu tivesse continuado? Era grande a saudade de praticar o esporte que amava.”

Seis anos se passaram e, aos 18, após conseguir encontrar a estabilidade e o equilíbrio financeiro em casa – superando, inclusive, a possibilidade dele e da família perderem a casa –, voltou para as piscinas. Após alguns meses, conseguiu índice para regressar às competições oficiais. Até que, em 10 de junho de 2006, estava de moto, parado em um semáforo da Avenida Faria Lima, e um carro acertou-o por trás, arremessando-o e ferindo-o gravemente. “Fraturei o úmero, três costelas e tive perfuração do pulmão. Fiquei na UTI, em coma, com pulmão artificial, vendo a luz no fim do túnel. Os médicos estavam desenganados, dizendo para que parentes distantes viessem visitar”, recorda. No entanto, seis meses depois de muita luta, ele se recuperou. “Quando a médica assinou minha alta se emocionou, porque não acreditava que conseguiria sair com vida. Respondi que não era uma quedinha que iria me derrubar, não.” 

Além das lembranças do acidente e do período no hospital, o andreense teve uma sequela: perdeu 100% da capacidade do pulmão direito. Ainda assim, depois de muita fisioterapia e alguns anos, Ricardinho foi incentivado por um amigo a regressar aos treinos em São Bernardo. Passou no teste e, aos 22 anos, retornou às competições. Mas, a partir de então, em competições de águas abertas, com distância superior a um quilômetro, categoria na qual foi progredindo (chegou a disputar provas de 24 quilômetros) coleciona pódios, troféus, medalhas, histórias e amigos, se ajustando à nova realidade. “Tive que adaptar minha natação. Não consigo fazer apneia, tenho muita dificuldade em fazer o básico, como respirar ‘quatro por um’. Faço respiração curta, mas consegui.”

Em paralelo, cursou educação física e atualmente desempenha a função de professor na piscina onde disputou suas primeiras competições, no Dell’Antonia. Ricardinho orienta crianças de 7 a 12 anos em aulas de iniciação e, por meio de suas memórias e experiências, espera servir como exemplo e inspiração. “Se minha história puder, de alguma forma, tirar alguém da zona de conforto ou salvar a vida de alguém para mudar a realidade, estou satisfeito, essa é minha medalha olímpica. Não abandone os sonhos, senão vai se tornar adulto frustrado. Não temos controle sobre a vida. Eu não tive controle sobre a partida do meu pai e abrir mão do meu sonho, mas enfrentei, ajudando minha família a superar. Aí a vida me deu outra rasteira, me tirando um dos órgãos mais importantes para a natação, mas não desisti e fui fazer provas ainda maiores.”

Mais do que vislumbrar o desempenho das crianças, Ricardinho tem outra meta. “Que lá na frente possam lembrar de que, quando começaram, tinham um professor que não as viam como máquinas de movimentos, mas pessoas. Enquanto a gente olhar para as pessoas como números e logística, não vai dar certo. Precisamos enxergá-las como seres humanos”, encerra.

Dell’Antonia segue salvando vidas

O Complexo Esportivo Pedro Dell’Antonia se transformou entre 2020 e 2021. O ginásio principal Laís Elena viu a quadra abrigar um hospital de campanha, que recebeu 15.550 pacientes da Covid-19, com 15.294 altas médicas. Em outubro do ano passado, a estrutura começou a ser desmobilizada e, neste ano, o local voltou a receber competições esportivas. Logo ao lado, a piscina Professor Dirceu Macedo, entretanto, “segue salvando vidas”. Ao menos é o que garante o professor de natação Ricardo Melo, o Ricardinho. 

Responsável pelas aulas de iniciação a jovens de 7 a 12 anos, o orientador por vezes se depara com alunos que já carregam traumas e marcas emocionais. “Temos crianças com processo de afogamento, com síndrome do pânico, depressão, caso de abuso sexual, e que estão curando através da natação, como aconteceu comigo”, diz. “Mesmo sem o hospital de campanha, o Dell’Antonia segue com uma vibe, uma mística. E continua salvando vidas. Porque as crianças com esses problemas têm, através da natação, o resgate dessa vontade de viver. Às vezes ficamos presos ao lado medicamentoso e médico, mas existem alternativas e estamos trabalhando isso. Então o Dell’Antonia continua salvando vidas, famílias, crianças, jovens, idosos. Trazendo a vontade de viver. Ficou um sobrenatural.”

Em agosto de 2020 a piscina olímpica do complexo teve entregue obras de modernização que, segundo Ricardinho, a deixaram como “uma das melhores do Brasil”. “Temos totais condições de receber campeonatos brasileiros e sul-americanos”, finaliza.

Dia 10 de junho e a cama número 18: coincidências que viraram histórias

Ricardinho não anda de moto nos dias 10 de junho desde 2008. Isso porque por três anos consecutivos, nesta data, ele sofreu acidentes. O primeiro, em São Bernardo, depois de seis meses internado, lhe custou um pulmão. O segundo, em Santo André, após ser acertado por uma outra motocicleta e arremessado por sobre um carro, foi hospitalizado por dois dias. No terceiro, novamente foi abalrroado por uma moto, desta vez em Santos. Detalhe: ele faz aniversário em 11 de junho. “Desde então não ando de moto nesse dia. E nunca mais sofri acidente. 10 de junho é zica”, brinca.

Mas esta não é sua única história com números. Durante a internação do primeiro acidente, ele estava acamado no leito 16 de um hospital público da região, quando o colega da cama 18 infelizmente não resistiu e morreu. Após remanejamento, o enfermo do leito 17 passou para o 18 e, na mesma noite, também veio a óbito. Pela sequência, Ricardinho seria o próximo a ficar internado ali. “Misericórdia, agora vou para a cama da morte”, pensou. Hoje, ele se diverte ao recordar. Mas admite os momentos de tensão. “Até as enfermeiras acharam estranho duas pessoas morrerem na mesma cama.”

GRANDES NOMES

A natação em piscinas e provas de águas abertas permitiu que Ricardinho pudesse dividir provas ou receber orientações de gigantes da natação, casos de Poliana Okimoto, Ana Marcela Cunha, Léo de Deus, Etiene Medeiros, Glauco Rangel, Samir Barel e outros.



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