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Imagens do pedágio ajudaram a solucionar caso de falso sequestro

Reprodução/Facebook Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Mulher alegou que foi sequestrada por taxista, deu à luz no carro e foi deixada no Litoral; polícia verificou que apenas um táxi passou pela rodovia


Aline Melo

06/05/2022 | 20:11


As imagens do pedágio da Rodovia dos Imigrantes, sentido Litoral, foram fundamentais para que a Polícia Civil solucionasse o caso do falso sequestro de uma gestante. A família da técnica em enfermagem Deise do Espírito Santo, 46 anos, publicou nas redes sociais no dia 3 de maio que ela havia saído de casa, em Santo André, entrado em um táxi para ir à maternidade, já em trabalho de parto, e desaparecido. Mais tarde, no mesmo dia, divulgaram que ela foi encontrada em São Vicente, que alegava ter sido sequestrada pelo taxista e por uma mulher, que deu à luz no veículo e foi abandonada no Litoral, sem a criança. Apenas na quinta-feira (5), após ter alta do hospital onde estava internada desde o dia anterior, Deise confessou que sofreu um aborto espontâneo aos cinco meses de gestação, mas manteve a história da gravidez.

O investigador chefe da divisão de homicídios de Santo André, Edson Barbosa, que está à frente das investigações, afirmou que inicialmente todos estavam estarrecidos com o relato, nunca antes visto em mais de 30 anos de atuação na Polícia Civil. Que foram disparados alertas para a Polícia Federal monitorar divisas, portos e aeroportos, para checar minuciosamente os documentos de qualquer recém-nascido que passasse pelas fronteiras. No entanto, após mais de quatro horas de análises das imagens das câmeras do pedágio da Imigrantes, foi constatado que apenas um táxi passou pelo bloqueio no período em que Deise alegava estar sequestrada. “Identificamos a placa, entramos em contato com o motorista e vimos que não tinha nada a ver com o caso”, relatou.

O policial pediu então ao namorado de Deise, o autônomo Rodrigo Morais de Oliveira, 38, que a levasse na delegacia para depor. Ao ser confrontada com a informação sobre as imagens, a técnica em enfermagem admitiu ao investigador que aos cinco meses de gestação passou por um aborto espontâneo, em casa, sem que houvesse um feto íntegro para ser enterrado, mas que não soube como contar ao companheiro, que estava muito feliz e ansioso pelo primeiro filho, e à família. Que passou pelo chá de bebê já sem estar grávida, estufava a barriga para fingir que a gestação avançava e que simulou o sequestro para dar fim à história. Deise chegou a se afastar do trabalho quando engravidou, pelo risco de contágio de Covid-19, e não voltou porque não comunicou a perda gestacional.

A técnica de enfermagem contou ao investigador que foi até o bairro do Jabaquara, na Zona Sul da Capital, e pegou uma transporte para São Vicente. Que chegou a se hospedar em um hotel por cerca de 30 minutos, mandou mensagem para o companheiro se passando por alguém que teria localizado o celular em um supermercado e que depois jogou os pertences em um terreno vazio. Na noite de quinta-feira (5) ela esteve com os policiais no lugar citado e foi confirmada a sua entrada no hotel e sua bolsa e celular foram localizados.

Barbosa explicou que até o momento, tudo o que ela relatou após admitir que não houve um bebê sequestrado foi confirmado, mas que a polícia precisa se certificar, sem sombra de dúvidas, que realmente não há uma criança em posse de sequestradores, por isso as investigações prosseguem. Questionado se Deise teria cometido algum crime, ele apontou que a comunicação do seu desaparecimento foi feita pelo namorado e que ela mesma não registrou nenhum boletim de ocorrência, mas que isso também será avaliado pelo delegado. O investigador afirmou também que o Hospital Christovão da Gama, em Santo André, onde ela passou uma noite internada, vai precisar explicar porque deu à Deise um documento que atestava que ela havia passado por um parto normal recente, se o aborto havia ocorrido há quatro meses. O hospital informou que não comenta sobre seus pacientes, mas que a instituição está à disposição e colaborando com as autoridades para a devida apuração e esclarecimento do caso. Quando foi atendida na Maternidade Municipal de São Vicente, a andreense chegou a fazer um exame de sangue que não confirmou a gestação.

Psicólogas explicam que perda pode gerar trauma, estresse e depressão

O que leva uma pessoa a vivenciar uma perda gestacional e continuar se passando por grávida? Essa pergunta não tem respostas simples, mas segundo especialistas ouvidas pelo Diário, esse comportamento pode resultar de um trauma, de estresse pós-traumático, de quadros de depressão e ansiedade. A psicóloga e perita judicial Deise Cristina Gomes explica que passar por um aborto espontâneo pode ser um trauma muito grande. “A pessoa tem sonhos, investe na gestação como se fosse um sonho a ser realizado”, relata.

A profissional afirma que a perda pode ocasionar um trauma, quadro ansioso depressivo e de estresse pós-traumático. “Pode gerar culpa, negação, a pessoa começa a se questionar que satisfações vai dar para os outros. Ela realmente pode ter se sentido culpada por não dar ao companheiro o filho que tanto almejou”, completa.

A psicóloga e perita pondera que é preciso que a andreense que esteve envolvida no caso do falso sequestro de recém-nascido passe por tratamento psicológico e que deve ser considerado todo o seu contexto de vida, a dinâmica familiar, suas vivências, à que pressões estava submetida, para que ela possa se recuperar depois de tudo o que aconteceu. “Ela precisa agora de muito apoio emocional”, conclui.

A psicóloga clínica Sirlene Ferreira lembra que existem na literatura médica várias patologias que explicariam o comportamento apresentado pela técnica em enfermagem, como a psicose puerperal, em que a pessoa desenvolve um quadro de psicose (transtorno mental caracterizado por uma desconexão da realidade) após o parto. “Se houve mesmo um aborto, se ela esteve grávida, essa é uma possibilidade”, afirma.

Sirlene destaca que neste momento ninguém pode nomear o que aconteceu e ainda acontece com Deise. “Não tem como diagnosticar sem conversar com ela, sem acompanhar, mas são cenários possíveis”, declara. A psicóloga ressalta que a psicose é marcada por ações planejadas e premeditadas, diferente de quadros de neurose, quando a pessoa age impulsivamente e depois se dá conta do que fez.

A especialista lembra que existe muita pressão da sociedade para que casais tenham filhos; que algumas mulheres pensam que o filho é a garantia da continuidade da relação, e que dentro de quadros de transtornos mentais, a pessoa encontra motivos que para os outros não teriam sentido. “A gente se questiona também que tipo de proximidade tinha um casal onde o pai não acompanhou de perto os exames, as consultas. Tudo isso é suposição, mas as respostas passam por vários desses apontamentos”, finaliza. 



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