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Estrada do Vergueiro conta história do Brasil


Illenia Negrin
Do Diário do Grande ABC

27/03/2004 | 18:29


Numa pequena placa escondida entre anúncios de uma sex shop pode-se enxergar, com certo esforço, o nome da rua de terra, cheia de curvas e buracos. É a estrada do Vergueiro, onde se encontra meia dúzia de motéis às margens do caminho estreito, lotado de árvores floridas, com casas humildes e alguns botecos. No final do trecho, quase no acostamento da rodovia Anchieta, em São Bernardo, fica a casa de Antonio José de Lima, pernambucano de Afogado da Engazira, cidade mais linda do mundo, como o senhor de “77 anos e meio” faz questão de reforçar. Ele mora há 20 anos na estrada do Vergueiro e conta, orgulhoso, flashes do passado ilustre da rua. “Moro de frente para um pedaço importante da história do Brasil. Até dom Pedro II já passou por aqui, em cima de uma carroça de rodas de ferro puxada por quatro burros. Eu não vi, mas me contaram”, garante o senhor que sobrevive vendendo sarapatel e caldo de cana, num comércio improvisado em cima de uma perua Kombi.

Quem contou ao seu Antonio que se tratava de um caminho histórico estava certo. A estrada do Vergueiro, na Vila Balneária, em São Bernardo, é o único trecho que preserva o nome – e as características – de uma antiga estrada construída no século XIX, que começava na praça da Sé, o marco central de São Paulo, cortava o que hoje são os municípios de São Bernardo e Cubatão, até chegar ao Porto de Santos. Os 80 km da via em forma de serpente venciam a Serra do Mar, o grande desafio que os paulistas precisaram enfrentar para colocar a província no circuito do comércio internacional.

Outros caminhos que levavam ao mar haviam sido trilhados até o fim do século XIX, como a calçada do Lorena, e seguiam os passos pioneiros dados pelos indígenas e pelo padre Anchieta. Em 1862, quando a administração da estrada para Santos foi entregue a José Vergueiro, a estrada da Maioridade ganhou um novo traçado e ficou mais larga – as mulas e burros que circulavam com pessoas e mercadorias no lombo teriam agora 35 palmos de largura para transitar. Muros foram construídos para conter os deslizamentos e, dois anos depois de iniciadas as obras, São Paulo ganhava sua primeira estrada de rodagem: a estrada do Vergueiro.

Quase 150 anos depois, mesmo com o inchaço da capital e com o crescimento de São Bernardo, e suas milhares de ruas, ainda é possível percorrer o mesmo caminho ziguezagueado: avenida Liberdade, no Centro, rua Vergueiro, que passa pelo Paraíso e Vila Mariana, e, em São Bernardo, a avenida Dr.Rudge Ramos, Senador Vergueiro, rua Marechal Deodoro, avenida José Fornari e, finalmente, o trecho em que ela continua sendo estrada Vergueiro. Todas já foram um dia pedaços da Vergueiro. Ela mudou de nome, foi picotada em ruas e avenidas menores, mas sobrevive nos livros que contam as aventuras paulistas rumo ao mar. E também nas lembranças de quem viveu numa época – não tão distante – em que se podia ir e voltar de São Paulo, ou chegar à praia, percorrendo a rua que tinha tamanho de rodovia.

Quando era garoto, o senhor Conrado Corazza, 82 anos, gostava de acompanhar as corridas de charrete. A largada era dada onde hoje se localiza o largo da igreja São João Baptista, no Rudge (antes, bairro dos Meninos), e a linha de chegada, na altura da praça Lauro Gomes, que nem existia, no Centro. “O melhor era que a gente ainda ganhava um dinheirinho de quem competia. Eu e a molecada passávamos uma lâmina no pêlo dos animais, pra tirar o suor, e eles ficavam limpinhos”, relembra. A estrada do Vergueiro, na altura da avenida Senador Vergueiro, que liga o Rudge ao Paço de São Bernardo, já foi palco de um racha de cavalos. “Olhando esse monte de lojas e prédios, ninguém imagina. Quem diria, não?”

O mesmo trecho era conhecido também por outro chamativo. Dois lagos, o tanque das Mulatas e o do Pacheco, que atraíam os jovens que, com o pretexto de aproveitar mais um dia de sol, se empoleiravam para observar as mulheres em trajes de banho. “Todo mundo vinha dar uma espiada”, contou seu Conrado, meio envergonhado. Ele se lembra também do “cineminha” do bairro (no lugar, hoje, de um grande supermercado) e do atoleiro que era a avenida Dr. Rudge Ramos, quando os ônibus quebravam e tinham de interromper a viagem. “A gente descia do ônibus e ia a pé até a Marechal Deodoro, com chuva na cabeça.”

Ainda hoje, na rua Marechal, é possível encontrar, em frente à praça Lauro Gomes, um marco de concreto indicando que por ali passava a estrada do Mar. No meio da correria dos pedestres que desviavam da lápide e de um senhor que pregava aos gritos palavras da Bíblia, seu Conrado se agacha para ler as inscrições no que considera um monumento histórico. “É uma pena que pouca gente saiba o que isso significa para nós.”

Pela estrada do Vergueiro chegavam os imigrantes que aportavam em Santos, entre eles as famílias italianas de seu Conrado, os Corazza e os Sabatini. “Eles vieram em 1914 e, como muitas outros, foram se estabelecendo às margens da estrada. Tudo isso aqui era plantação de milho, de repolho e de alface. Os dois últimos cultivados pelos japoneses”, contou, referindo-se às favelas que cresceram nos arredores da avenida José Fornari.

O desenhista topográfico aposentado Leonardo Fernandes Filho, que trabalhou “31 anos e 22 dias” na Prefeitura de São Bernardo, disse que sente falta dos tempos da velha estrada do Vergueiro. “Tinha mais verde. Aliás, era tudo verde. O Paço Municipal era um brejão só. Passei a maior parte da minha vida acompanhando as mudanças nessa estradona, vendo os bairros se formarem. Cresceu tanto que nem dá para acreditar que essas ruas todas eram um caminho só.”

Alheio às mudanças bruscas na paisagem dos arredores da estrada do Vergueiro, seu Antonio, o pernambucano que trocou sua cidade, “a mais linda do mundo”, por São Bernardo, continua vivendo no caminho de terra, no trecho de 2,5 km que parece ter parado no tempo. “Eu sei que pros lados de lá da cidade muita coisa mudou. Mas veja só... esse caminho já tem mais de 200 anos e ninguém ainda teve a coragem de asfaltá-lo”, esbravejou.

O senhor Victorio Guilherme Lorenzone, 95 anos, todos vividos no bairro de Rudge Ramos, ou melhor, no bairro dos Meninos, se recorda do tempo em que a cidade era cortada pelo “caminho do mar”. Ao contar como se chega até a praia nos dias de hoje, ele comenta: “A gente chega pela estrada velha”. A filha, Darci, corrige o pai, dizendo que hoje existem rodovias mais modernas, a Anchieta e a Imigrantes. Mas seu Guilherme insiste: “É tudo a mesma coisa. O caminho é o mesmo. Ele vem lá de longe, de São Paulo, e vai até Santos. Isso eu sei dizer.” Tem razão, o seu Guilherme, mesmo sem se lembrar direito que São Bernardo foi tomada por indústrias e prédios. O caminho do mar, nome pelo qual muita gente conhece a antiga estrada do Vergueiro, ainda existe.



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