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Santo André inicia pesquisa com catadores de recicláveis

Claudinei Plaza/ DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Projeto da Prefeitura, com investimento de R$ 169 mil, busca orientar políticas públicas voltadas a essas pessoas


Arthur Gandini
Especial para o Diário

16/11/2021 | 00:01


Josuel Odilon, 40 anos, trabalha há uma década como catador de materiais recicláveis. Ele vive na rua, nos arredores do Viaduto Juvenal Fontanella, no bairro Utinga, em Santo André. É de onde sai todos os dias para realizar o seu ofício. Conta que o seu maior desafio é a concorrência. Consegue lucrar em torno de R$ 1.500 por mês. “É um trabalho prolongado, não tem hora para acabar”, diz. Odilon trabalhava em uma estamparia, em 2011, quando decidiu mudar de ramo. “Trabalhar por conta própria acaba virando (valendo a pena) mais do que trabalhar com empresa”, relata.

Odilon é apenas um entre tantos trabalhadores informais que movimentam a economia do País e auxíliam na reciclagem do lixo. Esse é o público de estudo que foi iniciado na semana passada pela Prefeitura de Santo André para mapear esse contingente de pessoas. “É notório que muitos catadores atuam em péssimas condições, vivem em situação de extrema vulnerabilidade, à medida em que se encontram desprovidos de capital, instrumentos de trabalho e capacitação”, alerta Gilvan Junior, superintendente do Semasa (Serviço Municipal de Saneamento Ambiental de Santo André).

O projeto recebeu investimento de R$ 169 mil e deve ser finalizado em até seis meses. Deve auxiliar a criação de ferramentas que insiram os profissionais no mercado formal de triagem e venda de recicláveis. “Em tempos de fragilidade econômica, a coleta é uma estratégia de fonte de renda e de sobrevivência para pessoas recém-desempregadas, migrantes, moradores de rua, pessoas com passagem pelo sistema prisional, idosos que não conseguem atuar no mercado formal, pessoas com baixa escolaridade ou não alfabetizadas”, contextualiza Gilvan.

Dados da Abrelpe (Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais) apontam que o Brasil perde todos os anos em torno R$ 14 bilhões com a falta de reciclagem adequada dos resíduos. São cerca de 12 milhões de toneladas que, em vez de gerarem emprego e renda, acabam sento descartadas irregularmente. Além disso, a Ancat (Associação Nacional dos Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis), aponta que a reciclagem gerou para esse segmento montante de R$ 70 milhões entre 2017 e 2018. 

A Prefeitura, por meio de licitação, contratou técnicos de empresa terceirizada para percorrer todos os cantos da cidade em busca dos catadores que atuam no município. A procura deve chegar até a locais mais remotos como a Vila de Paranapiacaba. Um total de 20 pessoas tem encontrado todos os dias catadores e realizado com eles questionário de 75 questões. As perguntas passam por desde a renda obtida até pela informação se eles possuem animais de estimação. Os cães são companhia frequente de catadores e pessoas em situação de rua.

A intenção das entrevistas é traçar um perfil socioeconômico e mapear o sistema de coleta de setores do município e o sistema de receptação e venda de recicláveis. O programa prevê a construção de mais 20 estações de coleta e de um centro de controle operacional na cidade.

Vício em drogas aprisiona pessoas que vivem em situação de rua

O Diário acompanhou ontem duas técnicas a serviço da Prefeitura em busca dos trabalhadores de recicláveis. Elas abordaram diversos catadores no bairro Utinga, na parte debaixo do Viaduto Juvenal Fontanella. 

Luciano de Assis, 33 anos, é um deles. Está no ofício há dois anos e meio. Trabalhava antes como copeiro em um restaurante árabe de fast food. Contudo, o vício no crack o levou a ir viver nas ruas. “Para sustentar o meu vício, prefiro o carrinho do que tirar (roubar pertences) de alguém”, defende. Assis relata sofrer preconceito das pessoas enquanto busca pelos materiais recicláveis. “Chego e me olham de outro jeito por causa da cor da pele”, relata.

O catador Luis Lopes, 44, é outra pessoa que foi levada ao ofício por conta das drogas. Ele trabalhava como padeiro e confeiteiro até que foi viver nas ruas. Passou por dois locais de reabilitação para o vício no crack. Deixou o primeiro por sofrer maus-tratos. No segundo, não conseguiu conter o vício e voltou às ruas. Atua como catador desde 2012. “Fui (experimentar drogas) por curiosidade. Bebi álcool, fumei cigarro, passei por jogos, cocaína até chegar na maldição das maldições”, lamenta. 

Maria Oliveira, 43, mora em frente ao viaduto e trabalha como separadora de materiais recicláveis. Empresta carrinhos de coleta para os catadores que atuam na região e compra os materias para os auxiliar, além de doar alimentos. Ela diz ficar triste com a situação vivida pelos trabalhadores. “Sou mãe e vejo muitas mães (de catadores) chorando”, conta. Ela defende que o trabalho como catador para os viciados em drogas é uma saída melhor do que entrarem para o crime e serem presos ou ainda do que a morte em razão do vício. “Os catadores precisam muito de ajuda, não apenas financeira. Gostaria que eles fossem melhor tratados e reconhecidos. É graças a eles que a gente recicla”, lembra.



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