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Ariano Suassuna, localizado entre a graça e a contestação



18/10/2021 | 08:00


O ator e diretor Fernando Neves, 71 anos, não é dado a insônias. Costuma dormir muito bem, obrigado, pelo menos umas seis horas corridas, mas passou uma noite dessas em claro, tenso, sem pregar o olho. Foi logo depois de assistir, no dia 10, ao ensaio geral de As Conchambranças de Quaderna, comédia de Ariano Suassuna, da qual assina a direção, que seria gravada na tarde seguinte para exibições no formato digital. A preocupação de Neves tinha um motivo inusitado.

Desde o começo dos trabalhos presenciais, em setembro, os atores Jorge de Paula, Fábio Espósito, Guryva Portela, Henrique Stroeter, Carlos Ataíde e Bruna Recchia e o músico Abuhl Júnior ensaiavam de máscara, seguindo à risca os protocolos contra a covid-19. "E o Suassuna é do balacobaco, não é? Muito histrionismo, personagens nada contidos, então eu só me guiava pelos olhos de cada um e pedia mais e mais intensidade nas interpretações", conta o diretor. "Até que, naquele dia, pela primeira vez, todos tiraram as máscaras e levei um susto. Era muita boca, muita careta, tudo exagerado e vi que precisava limpar os excessos das composições de cada um ou a peça ficaria restrita a uma caricatura."

Passado o impacto, Neves reconhece que sua noite insone foi uma bobagem, fruto da ansiedade comum aos artistas exigentes. "Confio plenamente no elenco que trabalha comigo, passei minhas instruções logo depois daquele ensaio e, na hora da gravação, claro, todos arrasaram", elogia ele, que é especialista na linguagem do circo-teatro e assinou, entre outros, os espetáculos A Mulher do Trem e Ferro em Brasa, com a Cia. Os Fofos Encenam, e O Médico e os Monstros, com a La Mínima.

O resultado pode ser conferido a partir desta segunda, 18, quando As Conchambranças de Quaderna estreia no Teatro Sérgio Cardoso em temporada presencial. Simultaneamente, a apresentação gravada ganha exibições gratuitas através da plataforma Sympla.

Para se adequar às exigências da retomada, Neves e seu grupo trazem à cena apenas o primeiro dos três atos da obra, O Caso do Coletor Assassinado.

Nesta história, Quaderna se envolve em uma crise política entre o governo da Paraíba e seu protetor Dom Pedro Sebastião (Guryva Portela) por causa das investigações de um desfalque dado pelo coletor de impostos. "Suassuna aponta os vícios, as hipocrisias da sociedade, algo, aliás, que testemunhamos todos os dias, com nossos governantes enchendo os bolsos de dinheiro enquanto grande parte da população come osso para enganar a fome."

As Conchambranças de Quaderna

Teatro Sérgio Cardoso - Sala

Paschoal Carlos Magno. Rua Rui Barbosa, 153. 2ª a 5ª, 19h. R$ 30.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.



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