Fechar
Publicidade

Sábado, 4 de Dezembro

|

Max º Min º
Clima da Região Trânsito Assine Clube do Assinante Diário Virtual Login

esportes@dgabc.com.br | 4435-8384

Estratégia de propaganda de países, 'clube-Estado' cresce na Europa



17/10/2021 | 17:00


Aos gritos de "nós somos sauditas e fazemos o que queremos", centenas de torcedores do Newcastle foram ao estádio St. James Park no dia 7. Celebravam como se fosse um título não só a compra do clube por um conglomerado bilionário, mas também a saída do então dono do time, o empresário inglês Mike Ashley. Tinham seus motivos.

Os Magpies, como são conhecidos, deixam para trás uma era de baixo investimento, times tecnicamente limitados e dois rebaixamentos para entrar em um novo capítulo de sua história. O Newcastle foi comprado por 300 milhões de libras (cerca de R$ 2,2 bilhões) por um grupo liderado pelo Fundo de Investimento Público (PIF) da Arábia Saudita, administrado pelo príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman, que adquiriu 80% das ações. O clube da Inglaterra é considerado agora o mais rico do mundo, já que o patrimônio de Bin Salman é estimado em US$ 400 bilhões (R$ 2,1 trilhões), dez vezes superior ao então mais rico, o sheik Mansour bin Zayed Al Nahyan, dono do Manchester City.

A principal crítica à compra do Newcastle se deu pelo histórico saudita de desrespeito aos direitos humanos. O príncipe é acusado de ordenar o assassinato do jornalista do The Washington Post Jamal Khashoggi, crítico ao governo, em 2018, na embaixada saudita na Turquia.

A Premier League, liga que organiza o Campeonato Inglês, sofreu grande pressão de organizações de direitos humanos, como a Anistia Internacional, além da ex-noiva do jornalista morto, Hatice Cengiz, para que vetasse a negociação.

A compra do Newcastle por um fundo saudita administrado pelo príncipe herdeiro do país é definida por especialistas como sportswashing, ou seja, o uso estratégico e político do esporte para melhorar sua reputação no mundo, escondendo atos e ações negativas de seus governos.

Pesquisador do esporte pela UERJ e organizador do livro "Clube empresa: abordagens críticas globais às sociedades anônimas no futebol", Irlan Simões explica que a prática não é uma tendência recente. "Se apossar de clubes de futebol para fins políticos não é algo novo. Muitos times já foram usados como instrumento de política e imagem pública. É a ideia de projetar poder a partir da sedução que um time de futebol tem", explica Simões.

A Arábia Saudita sediou uma edição da Supercopa da Espanha e outra da Itália nos últimos anos, além de outros eventos esportivos. Em dezembro, receberá sua primeira corrida de Fórmula 1. O país também planeja se candidatar à sede da Copa do Mundo de 2030.

Bin Salman viu nos últimos anos lideranças dos vizinhos Emirados Árabes Unidos e Catar comprarem Manchester City e Paris Saint-Germain, respectivamente, ganhando sucesso esportivo e projeção internacional. Agora, o governo saudita entra para o grupo dos "clube-Estado".

CONCORRÊNCIA - Outro país vizinho detém ações de um adversário do Newcastle na Inglaterra. Em 2008, o Manchester City foi comprado por 266 milhões de libras pelo Abu Dhabi United Group, do sheik Mansour bin Zayed Al Nahyan - membro da família real dos Emirados Árabes Unidos e vice-primeiro-ministro do país.

A empresa possui 78% das ações do City Football Group (CFG), rede com dez clubes espalhados em cinco continentes, além de parcerias com o Bolívar, da Bolívia, e o Vannes, da França. O Manchester City pulou de patamar em pouco tempo, graças aos investimentos na casa de 1 bilhão de euros, desde o início da compra.

Em 2011, foi a vez de o Catar iniciar sua projeção internacional por meio do futebol. A Qatar Sports Investments (QSI), empresa ligada ao emir catari Tamim bin Hamad al Thani, comprou 70% das ações do Paris Saint-Germain por 50 milhões de euros. Desde então, o time recebeu investimentos pesados, dominou o futebol do país e agora, com Neymar e Lionel Messi, sonha finalmente em ganhar a Liga dos Campeões.

O Bahrein, por meio do fundo de investimentos soberano do país, pagou 5 milhões de euros no ano passado por 20% das ações do modesto Paris FC, da segunda divisão francesa. Os investimentos ainda são tímidos, mas o objetivo é alcançar a primeira divisão. A frase "Explore o Bahrein" é exposta na camisa do clube.

OPOSIÇÃO - A prática de países se tornarem proprietários de clubes europeus também é recebida com críticas no meio do futebol. O presidente da LaLiga, que organiza o Campeonato Espanhol, Javier Tebas, é um dos opositores. "Se isso não acabar, o futebol vai ter 20 sheiks em 20 clubes diferentes dominando tudo", disse ao diário espanhol Sport.

Na Espanha, o governo impôs aos clubes na década de 1990 a migração para o modelo empresarial para tentar reduzir seus graves problemas financeiros. As exceções ficam por conta de Barcelona e Real Madrid, além de Athletic Bilbao e Osasuna, que são associações sem fins lucrativos.

Relatório publicado pela empresa de auditoria Ernst & Young neste ano apontou que na primeira divisão da Alemanha, Espanha, França, Inglaterra e Itália, 92% dos clubes são empresas, enquanto na segunda divisão esse porcentual é de 96%. À exceção da Inglaterra, os donos são predominantemente empresários do próprio país: 58% possuem alguma ligação pessoal com o clube ou são empresários da região.

O futebol inglês viu uma nova etapa de sua história surgir em 2003, quando o bilionário Roman Abramovich, do setor de petróleo e gás, comprou o Chelsea por 140 milhões de libras. O ex-governador de uma província russa e amigo de Vladimir Putin, investiu em grandes contratações ao longo dos anos e viu o time levantar o troféu da Liga dos Campeões em duas oportunidades.

O futebol italiano conta com muitos proprietários nascidos no próprio país, como a poderosa família Agnelli, dona de empresas como Fiat e Ferrari, que colocou a Juventus no topo nos últimos anos.

Mais recentemente, sete dos 20 times da primeira divisão passaram a pertencer a investidores dos Estados Unidos. Eles foram atraídos pelo custo inferior ao de ingleses, mas também pela possibilidade de recolocar a liga italiana de volta ao topo da Europa.



Quer receber em primeira mão as notícias das sete cidades do Grande ABC?

Entre no nosso grupo de WhatsApp. 
Clique aqui.
 

Comentários

Atenção! Os comentários do site são via Facebook. Lembre-se de que o comentário é de inteira responsabilidade do autor e não expressa a opinião do jornal. Comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros poderão ser denunciados pelos usuários e sua conta poderá ser banida.


Copyright © 1995-2017 - Todos direitos reservados

;