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'Votar em Bolsonaro em 2018 foi um erro'

Itamar Aguiar/ Palacio Paratini Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Junior Carvalho
Do Diário do Grande ABC

30/08/2021 | 00:01


O governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB), fez mea-culpa pelo apoio dado ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido) nas eleições de 2018, o que ele próprio chamou de “erro”. “Errei, como milhões de brasileiros erraram”. Em entrevista ao Diário, Eduardo Leite refutou possível vantagem do governador João Doria (PSDB), fiador da Coronavac, nas prévias tucanas e falou abertamente sobre ter revelado na TV que é gay. “É o que sou, do jeito que sou, apresentado como sou. Se a população entender que posso apresentar um caminho, tem que ser na minha integralidade, sem esconder nada.”

RAIO-X

Nome: Eduardo Figueiredo Cavalheiro Leite 

Estado civil: Solteiro 

Idade: 36 anos

Local de nascimento: Pelotas (Rio Grande do Sul) 

Formação: Direito 

Onde trabalha: Governo do Estado do Rio Grande do Sul

Hobby: Roda de samba 

Livro que recomenda: Uma Terra Prometida, de Barack Obama

Artista que marcou sua vida: Vinicius de Moraes

O sr. começou muito jovem na política. Foi vereador, prefeito e, agora, governador. O sr. acha que sua trajetória política até aqui o credencia para disputar a Presidência? 

É natural para um político que já foi prefeito e é governador ambicionar ser presidente da República. Certa vez, fui questionado por um jornalista de uma pequena emissora de rádio do interior gaúcho sobre isso e falei que ele próprio certamente almejava trabalhar em um veículo de grande porte, ocupando espaços valorizados. Isso é natural na política. A partir do trabalho que estamos fazendo no Rio Grande do Sul, surgiu um chamamento de deputados do meu partido para participar do processo de prévias. O Rio Grande do Sul, que antes era conhecido nacionalmente pelos seus problemas, está em um processo de profunda transformação, e esse convite que me foi feito é um reconhecimento de que hoje somos vistos como um Estado que apresenta soluções.

Como o sr. vai lidar com a desvantagem de enfrentar o governador João Doria, que tem a Coronavac como trunfo, nas prévias do PSDB?

A iniciativa do governador João Doria, por quem tenho profundo respeito, foi importante para o País e tem o nosso reconhecimento. Mas não considero que isso confira vantagem a ele ou desvantagem a mim nesse processo. Não cabe a mim julgar o impacto de uma medida de governo isoladamente em um processo de prévias. O PSDB não está avaliando quem tem o melhor governo, ou quem teve a ação de governo mais importante, mas quem melhor pode representar o partido em 2022. O Rio Grande do Sul teve um dos melhores desempenhos no enfrentamento à pandemia e tem liderado os primeiros lugares do ranking nacional de vacinação. Somos o Estado com o segundo menor número de excesso de óbitos. Criamos um inédito modelo de distanciamento controlado, pelo sistema de bandeiras, que permitiu conciliar a abertura de atividades econômicas e as medidas sanitárias. Esse modelo, aliás, inspirou outros governos estaduais País afora.

Em 2018, o PSDB ficou aquém do seu histórico desempenho das últimas eleições presidenciais e amargou a quarta colocação. Por quê?

A eleição de 2018 foi muito triste para o Brasil. Vivíamos um clima belicoso, em que a maior parte dos eleitores decidiu, em cima da comoção causada pela Lava Jato, os escândalos de corrupção e o desemprego, apostar em um candidato extremista. O meu candidato em 2018 era Geraldo Alckmin. Um político preparado, ponderado, experiente e que ia buscar pacificar o Brasil. Infelizmente, essa candidatura não encontrou o eco necessário entre os eleitores porque o ambiente eleitoral tumultuado foi fértil aos extremos. 


As recentes pesquisas eleitorais indicam polarização entre o presidente Jair Bolsonaro e ex-presidente Lula. O sr. atingiu 3% das intenções de voto. Acredita ser possível mudar esse cenário? 

Essa é uma leitura possível das pesquisas eleitorais, mas eu as interpreto de outra maneira. Lula e Bolsonaro são os dois candidatos com o maior índice de rejeição. A mais de um ano da eleição, é natural que os eleitores projetem, em meio ao clima de polarização, o voto em um dos dois. Mas essa declaração de voto é muito mais para rejeitar a outra alternativa do que um sinal de aprovação. Tenho certeza de que, quando começar a campanha eleitoral, os brasileiros vão poder enxergar outras opções que não sejam manter Bolsonaro, o que seria péssimo, ou voltar a um governo do PT, o que também seria ruim. Queremos discutir o Brasil do futuro, o Brasil que podemos ser, e não a ideia de voltarmos ao PT porque o Bolsonaro é uma tragédia, ou mantermos Bolsonaro porque o PT não é bom.

Se o PSDB não chegar ao segundo turno, quem o partido vai apoiar numa eventual disputa entre Bolsonaro e Lula? No Congresso, o partido ainda vota favoravelmente com o governo… 

As pautas apresentadas pelo governo no Congresso não devem ser automaticamente rejeitadas apenas porque são do governo federal. Não é assim que se faz oposição ou se contesta uma proposta de uma maneira produtiva para o País: ‘É do governo, então não’. O PSDB vota em ideias, em pautas que nos são caras, que guardam sintonia com a nossa visão de Brasil. O problema é o imobilismo do governo, que não propõe nada, não apresenta reformas, um governo que gera tensão, vacila e se enrosca em polêmicas estéreis. Neste momento, o PSDB trabalha para estar no segundo turno, com projeto de Brasil e defesa intransigente da democracia.

O presidente insiste na defesa do retorno do voto impresso. Quais os riscos desses discursos para a democracia? 

Nossa democracia ainda é frágil. Nas últimas décadas, trabalhamos muito para consolidar as instituições e criar um clima de convivência entre todos os atores. Esses ataques sistemáticos do presidente Jair Bolsonaro, eleito pelo próprio sistema que agora contesta, geram um clima hostil em parte da população, guiada por teorias conspiratórias e em verdadeiras milícias digitais. O voto eletrônico funciona, e muito bem, no Brasil. Ainda que possa ser aprimorado como qualquer tecnologia, neste momento temos outras prioridades. O risco do discurso presidencial é o de preparar um cenário de resistência ao resultado da eleição de 2022, uma disputa na qual as suas chances derretem na medida em que o tempo passa e o País sofre generalizadamente as consequências de um governo inepto.

O PSDB não apoiou Bolsonaro oficialmente no segundo turno em 2018, mas o sr. e o Doria, sim. O sr. faz algum mea-culpa?

Não dei apoio a Jair Bolsonaro. Apoiar consiste em pedir voto, fazer campanha junto, e isso não foi feito. Fiz uma declaração de voto em que explicitei as minhas diferenças em relação a Bolsonaro. Mesmo assim, reconheço que errei. Votei em Bolsonaro em função de um contexto específico da polarizada eleição de 2018. Quando anunciamos a decisão, também apresentamos restrições e criticamos posturas do presidente no passado, as posições insensatas dele em relação a uma série de pautas, comportamentos que se revelaram ainda piores no exercício da presidência da República. Votar em Bolsonaro em 2018 foi um erro. Errei, como milhões de brasileiros erraram. 

Bolsonaro segue fazendo discursos golpistas, com ataques a instituições e seus integrantes, como o STF (Supremo Tribunal Federal). É preciso pará-lo? Como? 

A cada desastroso movimento político, o presidente fica, ao mesmo tempo, mais isolado diante do País e das instituições e mais conectado com a sua própria militância. Há ameaças que ele faz que nos assustam, mas também há ameaças que não passam de bravata para virar hashtag. Até aqui, as instituições, ainda que perplexas, estão cumprindo o seu papel. Naturalmente, ele marcha para o isolamento, até mesmo porque sua gestão é um desastre administrativo e propositivo. Qual é a agenda do País? Não há. Nada sai do cercadinho diário em frente do Palácio da Alvorada que seja aproveitável para melhorar a vida concreta dos brasileiros. Ninguém mais tem esperança de mudar o comportamento do presidente. As eleições de 2022 são uma forma de conter. Antes disso, dependeria de um processo de impeachment, que é sempre traumático, lamentável, mas que para acontecer depende de variáveis complexas, indisponíveis neste momento.

O sr. falou abertamente sobre sua orientação sexual na TV aberta. Desde então, o que mudou na sua relação com o eleitorado gaúcho?

Era uma questão de poder me apresentar por inteiro às pessoas, inclusive à população do Rio Grande do Sul. Era o momento de falar, o que eu não havia feito em outros momentos da minha vida, porque encarava o tema como um não assunto. Agora, não existe qualquer cálculo do ponto de vista político-eleitoral, até porque os efeitos são imprevisíveis. Pode ter me conectado a uma parcela da população que se identifica ou tem esperança de que a política possa ser vivida com mais transparência e sinceridade. Tenha efeito positivo ou negativo, é o que sou, do jeito que sou, apresentado como sou. Se a população entender que eu posso apresentar um caminho, tem que ser na minha integralidade, sem esconder nada. 

O fato de o sr. falar abertamente sobre ser gay foi celebrado por movimentos LGBTs, historicamente alinhados com partidos de esquerda. O sr. se vê defendendo essa bandeira? 

A felicidade não tem bandeira. Certamente o tema foi politizado, o que até pode ser visto como natural, porque a diversidade é um dos mais urgentes. Meu anúncio foi comemorado, mas também foi criticado, como se houvesse formas puras e impuras de se ser o que é, quase como se não pudesse haver um gay de centro, o que beira o ridículo. Tenho a medida do meu papel, sei que posso inspirar, sei que posso ajudar pessoas a enxergarem com mais naturalidade todas as dimensões de vida de um indivíduo. Não sou ativista da causa, embora respeito e considere importantes os ativistas. Tampouco quero sugerir que sofri o mesmo preconceito que outras pessoas enfrentam, visto que sou um homem branco, mas sou um político com presença no universo da gestão pública. Mais do que discursado, tenho agido para ampliar oportunidades, assegurar direitos básicos e garantir o respeito a todas as pessoas. Certamente esse comportamento irá me acompanhar em todos os meus projetos políticos no futuro. O governo que lidero aqui no Rio Grande do Sul já apresentou um conjunto expressivo de ações neste campo, de promoção do respeito, da igualdade e da inclusão.



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