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'Sabe o que erramos? Nada. Aprendemos'

André Henriques/ DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Bia Moço
Do Diário do Grande ABC

27/08/2021 | 00:04


Reitor da FMABC (Faculdade de Medicina do ABC) e integrante do Comitê Científico do Centro de Contingência de Coronavírus do Estado, David Uip destacou o enfrentamento à pandemia da Covid por parte do governo e elogiou a atuação dos secretários e prefeitos do Grande ABC. 

Uip defendeu ainda que o Estado “aguentou a pressão” da pandemia, sobretudo pelo investimento em hospitais de retaguarda, afirmando que tanto a Grande São Paulo como a região “não sucumbiram” à crise sanitária, embora o sistema de saúde tenha ficado sobrecarregado, principalmente no início deste ano.

O ex-secretário de Saúde do Estado pontuou ainda que “não tem resposta certa” para o comportamento da Covid, destacando que a reabertura das atividades econômicas sem restrições de horário e público foi baseada em índices de baixa ocupação de leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva). Uip ainda revelou que 74% dos serviços essenciais estiveram abertos ao longo do período mais crítico da pandemia, destacando, porém, que há de se olhar também para a população que vive nas periferias e pensar na economia em geral.

O infectologista contou ter vivido diversos momentos de epidemias ao longo de sua vida, reforçando que não há como prever o que acontecerá daqui para frente. “O indivíduo que se sente confortável em uma epidemia, que consegue prever ou que acha que consegue, vai pagar um preço muito caro porque vai ser surpreendido. Olha o que esta Covid fez”, afirmou o reitor da FMABC, destacando a importância do estudo genômico do coronavírus que a faculdade iniciará neste mês.

O médico reforçou ainda a importância da vacinação em massa para conter a disseminação da Covid e defende que o governo não cometeu erros, apenas aprendeu com a pandemia e agiu conforme o cenário momento.

Com a chegada da variante delta no Estado, o senhor acha que era momento, de fato, de liberar atividades econômicas sem restrições de horário e capacidade de público?
Sempre há dúvida de qual é o momento. E eu descobri uma coisa: não tem resposta certa. Hoje, se usarmos o indicador de ocupação de UTI (Unidade de Terapia Intensiva), temos menos de 40% (de internados). E aí a pergunta é o contrário. Então qual é o momento se não este? Tem um dado interessante que as pessoas não sabem, que é o percentual do que ficou aberto no Estado de São Paulo durante o pior momento de fechamento, e que foi 74% (dos serviços). Outro conceito interessante é que precisamos conhecer como funciona a periferia. Eu trabalhei minha vida inteira na periferia do Brasil, e não é trabalhar de mentira, é de ir para os lugares. Como secretário (de Saúde do Estado) fui para tudo quanto é lugar, conheço o interior do País. As pessoas falam que precisa parar e fechar tudo, e não é assim. Por exemplo, para entrar na cidade de São Paulo são mais de 1.100 ruas. Como é que se fecha tudo? Então tem o discurso e tem a prática. Nesta prática eu acho que nós temos dúvidas ainda. E não têm respostas definitivas. Agora quais indicadores se usa mais? O índice de transmissibilidade? Mas se vamos ter uma prevalência da doença em formas oligossintomáticas e assintomáticas, será que esse pessoal vai fazer exame? Qual o contexto? O Brasil está testando suficiente? Seguramente não. Então, é um enredo ainda difícil. Pode ser que o que foi aberto agora, tenha de ser revisto daqui a pouco.

Mesmo com toda a população adulta vacinada ao menos com a primeira dose, e os adolescentes já sendo imunizados, o senhor acha que corremos risco de ter de regredir às medidas mais rigorosas?

Se olhar a população vacinada, você tem primeira dose em uma parte grande. E o objetivo é de rapidamente chegar à segunda dose. Aí vem a delta, mas quem é a delta? Eu tenho dúvidas. O que aconteceu em Israel e nos Estados Unidos, vai acontecer igual no Estado de São Paulo? A expectativa é que sim. Mas como não aconteceu nada até agora? Eu vejo muitos pacientes com Covid. Muitos. Hoje eu atuo em clínica privada. Trabalhei 40 anos no SUS (Sistema Único de Saúde), mas hoje em clínica privada, e eu vejo muitos pacientes. Então acho que a expectativa é essa. Se tem uma cepa mais infectante, uma cepa mais causadora, talvez, de mais doença respiratória, pouco sintomática, vai encontrar um contingente de vacinados e aí fica a explicar, porque parece estar diferente. Será que (é porque) o Brasil está usando múltiplas plataformas de vacinas? Usando Coronavac, Astrazeneca, Pfizer, Janssen, e isso vai dar uma resposta diferente? Tudo é muito especulativo ainda. Mas são respostas que eu acho que são difíceis de antecipar. Isso pelo lado da saúde. Aí tem de olhar o outro lado da economia, entendendo tudo o que aconteceu.

Em novembro a população poderá voltar a frequentar shows e estádios. O risco de contaminação por Covid tende ser maior com esses espaços cheios de novo? Pode-se dizer que ainda temos chances de viver uma terceira onda?
Eu tenho uma definição diferente de todo mundo, e que é muito pessoal. Eu não acredito em ondas. Para mim, nunca teve onda. Nunca acabou e nunca diminuiu o suficiente. Se pegar os gráficos é possível ver que houve uma queda, mas nunca em níveis semelhantes ao que aconteceu em outros países. Então, que onda é essa que nunca diminuiu? E o que vem pela frente? Precisa ver. Melhorou a velocidade de vacinação, vai melhorar o nível de pessoas protegidas, mas temos de esperar um pouco.

O senhor acha que teve erros durante o combate à pandemia?
O que eu posso falar hoje, talvez amanhã tenha de falar diferente. Isso é uma dificuldade para quem faz gestão. Tentar mostrar que não foi erro, foi aquele momento. Sabe o que nós erramos? Nada. Nós aprendemos. É muito pouco provável saber o que acontece em uma pandemia. Eu vivi várias. Sou da época da doença meningocócica. Em 1973 eu era aluno da Faculdade de Medicina do ABC e me lembro que meus pais queriam me levar para o Interior de medo que eu pegasse meningite. Era assim. Morreu um monte de gente. De repente surgiu a vacina e mudou. O primeiro caso de Aids de um brasileiro que passou para o outro foi em 1982, e foi publicado cientificamente em 1983. Nós não sabíamos nem que era vírus, ou as vias de transmissão, nada. Então veio o pânico, porque começou a morrer gente, um atrás do outro, e nós não tínhamos ideia do que se tratava. O diagnóstico de HIV sorológico apareceu só em 1985; e os medicamentos, só em 1996. São 35 milhões de mortes. E de 1982 a 1986 o que aconteceu? Pesquisou e até hoje, 2021, não tem vacina. Vindo depois dengue, chikungunya, zika vírus, H1NI, febre amarela... Então, eu vivo dessas histórias. E eu trabalho em Angola desde 2002, coordeno a assessoria técnica de epidemias e endemias de Angola, então eu vivo essa história também na África. O indivíduo que se sente confortável em uma epidemia, que consegue prever ou que acha que consegue, vai pagar um preço muito caro porque vai ser surpreendido. Olha o que esta Covid fez.

Como o senhor vê a aplicação da terceira dose e como essa imunização vai ajudar no controle da pandemia?
São duas coisas necessárias. Primeiro é vacinar com segunda dose o mais rápido possível. Eu, por exemplo, não concordo com o espaço de tempo da primeira e segunda doses da Pfizer, de três meses. A Astrazeneca, embora galgada em trabalho científico, talvez o melhor modelo em vez de três meses sejam dois entre a primeira e segunda doses. Por que estou falando isso? É a vida real, o que estou vendo. O que estou falando não tem nenhum valor científico, é uma observação pessoal. Vejo muitas pessoas infectadas após a primeira dose. Se estão infectadas, podem transmitir. Primeiro eu acho que tem de vacinar o maior número possível com a segunda dose. Inclusive na expectativa desta nova cepa. Nós sabemos que vamos resistir quanto mais segundas doses tivermos. Isso é um fato. Seguramente, as pessoas com mais idade têm uma resposta imune diferente. Então é importante que vacine (com terceira dose) de cima para baixo, ou seja, dos mais velhos até os 60 anos. E aí entra em outra discussão complicada. Vamos vacinar com a terceira dose, e o mundo não vacinou a primeira. Penso que tem de ter uma política universal, de que se consiga vacinar o maior número possível de humanos. Infelizmente não está na nossa mão. Eu até gostaria de poder ajudar de outra forma. Brigo muito para que a África seja vacinada. Isso é muito importante, ter consciência mundial.

Como fazem esse trabalho de análise do cenário e tomada de decisões no Centro de Contingência do Coronavírus?
O Estado não sucumbiu. Diferentemente do que aconteceu na Europa, Itália, Espanha, França e Nova York. Aqui nós não sucumbimos. O (Grande) ABC não sucumbiu. Os prefeitos e secretários andaram e nós não vimos gente morrendo nas ruas. Não vimos valas sendo abertas e pessoas sendo enterradas. Nós não vimos pessoas desassistidas. O sistema de saúde ficou apertado em um momento, mas se safou. Quando se vê o contexto, no que São Paulo foi diferente? Por uma decisão lá atrás, de ter hospitais. O Estado de São Paulo tem hoje 102 hospitais, 70 ambulatórios de especialidades de grande competência até cirúrgica. Se somar os hospitais estaduais, privados e filantrópicos, são mais de 800 hospitais no Estado. Então, aguentou a pressão e foi diferente. Recebemos pacientes do Brasil inteiro. Tanto no SUS como privado.

O senhor acha então que esse sucesso no controle da pandemia, em todo o Estado, se deu, sobretudo, pelo auxílio do centro de contingência?
Eu vejo que a coisa tem de estar muito bem hierarquizada. O centro de contingência foi montado para assessorar o secretário e o governador. Foi isso que nós fizemos. Sempre as decisões foram do secretário e do governador. O centro teve uma enorme importância, tanto no contexto de São Paulo como no Brasil inteiro. Outra coisa são os envolvidos neste cenário. Nós chegamos a ser 21 (especialistas), todos indivíduos de vivência, tanto do ponto de vista científico e acadêmico, mas também de experiência pessoal. Gente que tinha bagagem para ajudar a decidir. Esse centro ajudou o governo na inteligência das respostas à pandemia. A execução é diferente. A operação é extremamente difícil, e quem fez foi a secretaria, e com grande competência. O centro funcionou como apoio à secretaria e ao governo.

Começou em 21 e hoje como está?
Estamos em nove. Agora formou-se o comitê científico, uma decisão do governador.

A FMABC vai dar início ao sequenciamento genético da Covid. Qual a importância de termos esse estudo sendo feito? E como vai ajudar nas orientações contra a Covid?
O mapeamento genômico é fundamental. Se dirige políticas publicas a partir do momento em que se tem diagnósticos e hoje o diagnóstico da infecção é fundamental, mas o mapeamento genômico também é, até para você entender como as coisas vão acontecer. E o fato de a faculdade ter é grande avanço, isso não mostra só o resultado de dados, mostra a evolução científica da faculdade, chegar a este nível e poder fazer igual aos melhores centros do País, e é isso que estamos fazendo. O laboratório da faculdade chegou a fazer 2.400 exames por dia, entrou na cadeia do Estado com uma grande participação e agora vai conseguir fazer também esse mapeamento genômico, que vai ajudar a estabelecer as políticas públicas. Nós temos que saber o que está acontecendo. A partir da criação de cenários você traça as políticas públicas, você não pode ficar esperando acontecer para depois tomar as providências. Nós precisamos saber o quão eficiente são as vacinas diante das novas variáveis. As pessoas estão espantadas com essa mutação genômica e enquanto tiver vírus no mundo, vai ter mutação. Essa mutação genética é absolutamente esperada e tradicional, vírus é vírus, sempre aconteceu, só que nós estamos melhores em diagnósticos.

Que papel o senhor acha que a universidade vai ter no pós-pandemia?
Fundamental. Terá de equacionar diversas dificuldades e uma delas é a operação de uma centena de milhares de pacientes pós-Covid, que é dramático. E entendo que não há estrutura pública para isso.

O senhor acha que os gestores municipais da região têm noção dessa realidade? E, se têm, estão dialogando com a faculdade para buscar alternativas?
Aí é um privilégio. Temos o secretário de saúde de São Bernardo, o Geraldo Reple, que é extremamente experiente. Tem também o Márcio Chaves, em Santo André, que é, na minha opinião, um dos caras que mais conhecem o SUS. Temos aqui na região secretários muitos experientes. O Grande ABC tem esse privilégio. 



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