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Renata Vasconcellos reflete sobre o desafio de apresentar o Jornal Nacional em tempos de pandemia



18/06/2021 | 15:10


Renata Vasconcellos é jornalista há 25 anos, e em 2020, se deparou com o desafio de apresentar o principal telejornal da Rede Globo em tempos de pandemia. Em entrevista à revista Cláudia, Renata contou que sua rotina de trabalho ficou ainda mais intensa desde que o novo coronavírus se espalhou pelo Brasil e pelo mundo.

- Na verdade, nossa rotina se intensificou, com mais plantões de fim de semana e feriados. Além da carga maior, tem o peso da situação, que é difícil, dramática. A gente pega força na responsabilidade do nosso trabalho. A proposta é justamente essa, de sermos um porto seguro em mares revoltos. Claro que tenho medo, dificuldade, apreensões, mas penso no meu propósito como jornalista.

A comunicadora assumiu que se envolve bastante nas histórias mostradas no Jornal Nacional.

- Eu me emociono mesmo, porque me afeta visceralmente. Tenho muita empatia pelo próximo e vejo o sentimento das famílias desfeitas, o sofrimento. Com a pandemia, não tem só o vírus, mas a fome. Eu tento me segurar para que a informação seja passada, mas a emoção é inerente ao ser humano. E é bom sentir, se solidarizar, não só nos momentos agudos de tristeza, mas nas histórias de alegria que mostramos. Ao ver alguém passando por uma coisa boa, ficamos com esperança e aí a emoção transborda.

Por enquanto, a apresentadora permanece firme, mesmo com todas as dificuldades.

- Eu estou aqui, de pé. O Bonner me perguntou uma vez: Você está cansada?. Eu respondi: Sim, mas atenta e vigilante. Tem muitas emoções juntas e eu reconheço todas elas. Ansiedade, insegurança, medo, desconsolo. Às vezes, acho que não vou conseguir, mas aí me concentro no momento. O que eu preciso fazer agora para dar conta disso? Um dia de cada vez.

O atendimento psicológico era uma das coisas que fazia diferença na vida de Renata.

- Eu fazia terapia e passei pro virtual no começo da pandemia, mas não consegui me acostumar, não era a mesma coisa e eu ainda estava assoberbada de trabalho. Porém, é fundamental, preciso voltar. Acho importante dizer que todos estamos nos sentindo ansiosos, inseguros e tristes. Eu também sinto essa vulnerabilidade. Como sociedade, precisamos falar mais sobre isso, e entender que tudo bem pedir ajuda. Especialmente para as mulheres, que têm sido tão fortes, eu digo: vocês não estão sozinhas.

Agora, a jornalista recorre ao ioga para se acalmar.

- Eu estava fazendo cerâmica, mas tive que parar, porque estou trabalhando mais. Nesse momento, me priorizo tirando tempo para meditação e ioga, que me ajudam muito, me permitem o encontro com as minhas energias e o mundo. Também tenho aprendido exercícios de respiração, porque a gente respira muito mal. Vira algo automático e, quando você toma consciência, se transforma numa ferramenta fundamental para conectar você com coisas incríveis, para promover relaxamento e autopercepção. É uma viagem maravilhosa de se fazer. Gosto também de ler, de ficar em contato com a natureza, de ficar com o pé no chão, do silêncio. Gosto de ficar em casa, do simbolismo de ser um porto seguro, um ninho. Tento cultivar isso fazendo uma comida conforto, como um bolinho com café. Sempre que posso, coloco uma flor num vaso. Dá um trabalho danado, porque tem que trocar a água, cortar o caule, mas me faz bem. Fico encantada com a efemeridade das flores. Hoje, ela está bonita e amanhã pode não estar. Mas agora ela está aqui pra você, com essas cores, abriu para você. É uma troca legal.

Todo esse movimento faz com que Renata pratique cada vez mais o autoconhecimento.

- Gosto de entrar em contato com questões pessoais sem julgamentos. Além de me fazer bem, me deixa relaxada. O que me faz ficar perdida é a correria do dia a dia, que não permite essa conexão. Fico sem chão. Preciso saber o propósito de uma ação e para onde estou indo com ela. Às vezes, penso até demais, admito. Mas é importante se fazer perguntas, porque auxilia na criação de uma consciência individual e coletiva. Estamos num momento de transformação grande e é bom entender o que estamos passando.

E também aceite, cada vez mais, as mudanças que vão acontecendo com a idade.

- Eu acredito que alcançar a aceitação e o acolhimento é um processo que dura a vida toda. Mas, para mim, vai além. Acho que o bem-estar reflete na aparência, isso de estar feliz, de estar em dia com a saúde física e mental, transparece. Não renego nem tenho aversão aos padrões da sociedade. Acho que é interessante olhar para eles e entender como refletem o momento histórico. Agora, entramos numa fase de mais aceitação, graças a Deus, porque a gente não é único. Gosto de perceber os códigos e brincar com eles, pensar no que eu quero ser a cada dia, manter meu olhar curioso, minha aceitação aberta, me surpreender com o jeito que uma mulher pinta ou corta o cabelo, com uma tatuagem, achar legal ela se expressar assim. Quanto mais a gente aceita a nós mesmas, mais acolhe o outro. Os jovens já fazem isso muito bem, eles não se prendem a arquétipos, se apresentam cada dia de um jeito, conforme o que estão sentindo. Colabora pra gente também se desfazer das amarras.

E não pense que esse tal de amor próprio vem de forma fácil; pelo contrário!

- Não é um processo simples, é angustiante, doloroso. Mas o autoconhecimento me faz questionar por que estou sofrendo com alguma coisa. Vou dar um exemplo: eu sempre enxerguei superbem, olhos de águia. Em um determinado momento, precisei de óculos para leitura. Depois, resolvi levar para a bancada, caso precisasse olhar um computador mais próximo. Tirava na hora de apresentar. Aí, comecei a me sentir mais segura com os óculos o tempo todo. Para que vou ficar insegura ou ansiosa se existe uma ferramenta que resolve meu problema? Ah, mas ninguém da bancada do JN já usou óculos. Bom, então vai ser a primeira vez. E rolou. Com os cabelos brancos foi algo parecido. Nada contra pintar, acho ótimo, mas tem dias que não dá, estou com pressa ou acho que é melhor fazer ioga e cuidar da cabeça.

Por fim, a apresentadora citou o que tem feito para encarar toda essa situação de uma maneira mais leve.

- Foi uma chacoalhada tão grande em tantos aspectos da vida, acho que não tem como não passar sem nenhuma mudança. Eu me vi questionando muitas coisas que estavam no automático, me cobrando um consumo mais consciente. Eu me pergunto se realmente preciso comprar aquilo e qual o impacto no meio ambiente. Estamos percebendo que a aceleração do dia a dia, essa obrigação de cumprir tarefas, de tentar atender às expectativas dos outros para sermos perfeitas, não faz sentido. Por que tentamos cumprir com uma lista que nem fomos nós que criamos? Parei para me perguntar o que realmente me faz feliz. Isso gera um processo de autoconhecimento. Tenho buscado também olhar mais para o outro, estar presente, mesmo que isso signifique abrir mão de outras coisas. Estou focada na essência das pessoas, em compartilhar energia boa. É isso que nos faz sentir vivos. Quero cultivar, cada vez mais, a delicadeza com o outro. As emoções exacerbadas são um fenômeno do nosso momento civilizatório e das redes. Falamos coisas sem pensar no outro e sem ouvir. Quero refletir sobre isso e mostrar que estou disposta a escutar e tentar entender sem bater de frente de primeira.



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