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Governo Bolsonaro prepara telejornal só de 'boas notícias' em TV pública



18/06/2021 | 11:37


A TV Brasil, canal público de televisão ligado ao Ministério das Comunicações, planeja incluir na sua grade de programação um telejornal que irá exibir apenas "boas notícias". No momento em que o País se aproxima da marca de 500 mil mortes por covid-19, a ideia será levar ao ar apenas fatos considerados "leves" sobre temas como saúde, comportamento e entretenimento.

A atração tem sido negociada diretamente pelo ministro das Comunicações, Fábio Faria, com a diretora de jornalismo da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), estatal responsável pela TV, Sirlei Batista. Ainda não há data para estreia.

O presidente Jair Bolsonaro e seus auxiliares são críticos da cobertura da imprensa sobre a pandemia e defendem um noticiário que se concentre no número de curados da covid-19. No novo telejornal, mortes pela doença, inflação, desemprego, aumento da pobreza, nada disso é pauta.

Um dos ministros mais próximos do presidente, o ministro da Casa Civil, general Luiz Eduardo Ramos, costuma reclamar que "só tem caixão" na TV. "No jornal da manhã é caixão, corpo; na hora do almoço, é caixão novamente. No jornal da noite é caixão, corpo e número de mortos", disse Ramos em entrevista no Palácio do Planalto no ano passado.

O nome do telejornal de "boas notícias" já está definido: "Bom de Ver". As gravações do piloto, espécie de versão de teste, já foram feitas. A exibição será ancorada pelos jornalistas Katiuscia Neri, que hoje apresenta o Repórter Brasil, principal telejornal da emissora, e Tiago Bittencourt.

Em cerimônia no Palácio do Planalto, na terça-feira, 15, Faria defendeu o uso da TV pública para combater "narrativas erradas". "No fim da linha, presidente, é onde sua voz chega", afirmou Faria, dirigindo-se a Bolsonaro. Na plateia formada por donos de emissoras de televisão e rádio, Faria fez uma convocação: "Tenho certeza que todos vocês, a partir de agora, vão conseguir atingir mais a voz que é necessária chegar nos lugares onde até hoje chegam informações equivocadas e narrativas erradas".

O ministro disse mais: "que a verdade possa chegar onde o povo quer ouvir. A gente, infelizmente, muitas vezes, é obrigado a ficar combatendo fake news, perdendo tempo, deixando de trabalhar, deixando de fazer os nossos deveres aqui para desmistificar as notícias enganosas. Vamos levar a verdadeira comunicação para o restante do País".

Mas a divulgação de fake news tem sido uma prática do atual governo. O próprio Bolsonaro teve vídeos retirados do ar pelo Facebook e pelo Google sob a alegação de que propagava informações falsas ou sem comprovações. Por conta disso, o governo prepara uma decreto para limitar a atuação das redes sociais no Brasil. No Supremo Tribunal Federal, um inquérito investiga a disseminação de fake news por parte de aliados do governo. No Congresso, também há uma Comissão Parlamentar de Inquérito para apurar a participação de nomes ligados ao Palácio do Planalto na produção deste tipo de conteúdo.

Na terça-feira, a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) pediu ao Ministério Público Federal que investigue o uso do canal público para divulgação pessoal do presidente. O motivo foi a transmissão de um culto religioso, no último dia 9, que teve a participação de Bolsonaro. Para a entidade, a veiculação representou um atentado à Constituição Federal, que, em seu artigo 37, proíbe a promoção pessoal.

O plano de investir na TV pública como um contraponto ao noticiário da pandemia contraria promessa de campanha de Bolsonaro. Antes mesmo de ser eleito, o presidente afirmou que privatizaria a EBC, passando a empresa responsável pela emissora para a iniciativa privada. A estatal chegou a ser incluída no Programa de Parcerias de Investimentos (PPI), mas a ideia nunca saiu do papel.

Ao assumir o cargo de ministro das Comunicações, no ano passado, Faria adaptou o discurso e tem repetido desde então que antes de vender a EBC, é preciso "enxugá-la". O argumento é de que a empresa é deficitária e, por isso, não haveria interessados na compra.

Em abril, porém, o governo pagou R$ 3,2 milhões pelos direitos de exibição da novela Dez Mandamentos, de cunho religioso, que foi produzida pela Record TV, emissora ligada à Igreja Universal do Reino de Deus (IURD). O bispo Edir Macedo, líder da Universal, é aliado de Bolsonaro. O gasto foi contestado por opositores ao governo sob o argumento de que deturpa o conceito de comunicação pública.

Em outro investimento contestado, o governo transmitiu a partida de futebol entre Brasil e Peru, em outubro do ano passado, válida pelas eliminatórias da Copa do Mundo. Na ocasião, após falta de acordo entre a TV Globo, que costuma transmitir o campeonato, e a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), integrantes do governo entraram em campo para negociar a exibição.

Durante o jogo, o narrador mandou "abraço especial" a Bolsonaro e propagandas favoráveis ao governo foram exibidas no intervalo. Nas redes sociais, a oposição classificou a iniciativa como uso político da TV pública.

A TV Brasil foi criada em 2007, no governo de Luiz Inácio Lula da Silva, sob argumento de fomentar a comunicação pública no País. Em países como no Reino Unido e no Japão, por exemplo, canais públicos de TV, como a BBC e a NHK, respectivamente, são referências.

O aparelhamento político da EBC nas gestões petistas, porém, fez com que a iniciativa fosse contestada. Na campanha eleitoral, Bolsonaro costumava dizer que a estatal se tornou um "cabide de empregos". Na sua gestão, a empresa foi comandada pelo general do Exército Luiz Carlos Pereira Gomes, sem experiência na área, antes de o publicitário Glen Lopes Valente assumir o cargo, em setembro. Valente é ex-diretor do SBT, de Silvio Santos, sogro do atual ministro das Comunicações.

Funcionários da empresa, sindicatos e outras entidades criaram um movimento para denunciar casos de censura e uso político da estatal. Entre os exemplos citados pela "Frente em Defesa da EBC e da Comunicação Pública" estão ordens internas para que programas jornalísticos não abordem temas como os assassinatos da vereadora do Rio de Janeiro Marielle Franco (PSOL), e de João Alberto Silveira Freitas, homem negro morto em uma unidade do Carrefour de Porto Alegre, em novembro do ano passado, na véspera do dia Consciência Negra. O crime suscitou um debate nacional sobre racismo.

Procurada, a EBC afirmou "desconhecer" informações sobre o novo programa. O Ministério das Comunicações e Faria não se manifestaram até a publicação desta matéria.



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