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Do Diário do Grande ABC

06/04/2021 | 08:45


Em um momento em que médicos e outras autoridades em saúde discutem a forma menos traumática de escolher, entre os doentes, quem vai ser atendido e quem não vai receber o tratamento necessário, o vírus da Covid continua se espalhando rapidamente por todo o País. O número de casos e de mortes provocadas pelo coronavírus só faz crescer, mas as festas continuam a ser realizadas e as aglomerações se sucedem por todo canto. Em grande parte das cidades brasileiras já não há leitos para receber todos os que precisam; e começa a faltar medicamentos.

“Esse vírus mata”, alerta o barbeiro Fábio Oliveira da Graça, 34 anos, que escapou por um fio depois de não acreditar que o problema era realmente sério. “Achei que não ia sobreviver”, lembra, agora aliviado. “Pensei que não voltaria para casa, porque a dor que eu sentia – nos ossos, no corpo todo – nunca tinha sentido. Imagina uma cobra enrolada no corpo e apertando... cada vez mais; era isso que sentia”, relata.

Do outro lado, a mulher de Fábio, Mariana Shimuta Secco, 27 anos, lembra a dor e o desespero na hora de deixar o marido no hospital; recebendo boletins diários desanimadores, porque ele não reagia ao tratamento, e sabendo que o caso era ainda mais grave por ele ser diabético, obeso e hipertenso.

O barbeiro começou a tratar os sintomas como se fossem de resfriado ou virose. Como o primeiro teste para diagnosticar a Covid havia sido negativo e ele até apresentou alguma melhora, relaxou. Dias depois, quando a mulher estourou pipoca para os filhos, não sentiu o gosto; tomou refrigerante e teve a impressão de estar tomando água com gás.

Aí o casal se desesperou. “Eu tenho sonhos; tenho uma família; não quero perder tudo por causa desse vírus”, era o que lhe passava pela cabeça. Correu para o hospital, mas sua saúde já estava numa fase crítica. Graças a Deus, restabeleceu-se, assim como sua mulher, a quem ele acha que contaminou, e sua mãe. “Minha mãe sofreu muito”, relata, enchendo os olhos de lágrimas.

Sobre a permanência no hospital, lembra: “Lá dentro, longe de todos que você ama, a gente dorme mal, fica muito preocupado com o que pode estar acontecendo aqui fora. Às vezes, uma assistente social ia até minha cama para conversar. Isso me ajudou muito. Foram dez dias, mas pareceram uma eternidade”. Agora, Fábio ainda sente muita dor nas pernas e às vezes tem uma espécie de amnésia. A conta a pagar é alta.

A HISTÓRIA DE LEANDRO ONDEI
Muito alta, concorda o músico Leandro Matias Ondei, 40 anos. Ele conseguiu vencer a doença depois de cinco paradas respiratórias, mas até hoje sente falta de ar a todo instante e ainda não recuperou a massa muscular que perdeu durante os 15 dias de internação.

O problema está longe de acabar quando a pessoa deixa o hospital. As sequelas, que podem ser muito severas e durar por bastante tempo, talvez para sempre, também podem ser apresentadas por pessoas assintomáticas. É o que a ciência está descobrindo a partir dos muitos estudos que estão sendo realizados desde o começo da pandemia, na esperança de conhecer um pouco melhor o vírus que colocou de joelhos o planeta inteiro.

Com medo da entubação, ou por acreditar que os sintomas são leves e podem ser tratados em casa, muita gente também retarda a busca por socorro; o que, ironicamente, só piora seu estado. E o que se encontra lá dentro dos hospitais, nem mesmo os fortes acreditam.

Conhecido como Djow Batera, o músico Leandro Ondei sofre até para contar o que presenciou enquanto esteve na UTI; coisas que preferia nunca ter visto. Até uma pessoa morreu no leito ao lado do seu, sem que desse tempo de a enfermagem isolar o espaço. Presenciou as tentativas de reanimação e imagina que foram semelhantes às que o trouxeram de volta à vida.

O relato que faz da última parada respiratória que teve é assustador. “Quando vem as paradas, você não tem força nenhuma; nem para levantar os braços. É muito triste estar ali parado na cama, sem conseguir se mexer. Só ouvi alguém gritar ‘sai, sai’ e parece que me deram um soco ou colocaram aquele negócio de choque. Não lembro. Senti uma dor muito grande e foi quando parece que encontrei um espacinho para respirar. Voltei encharcado, muita gente em cima de mim. Vivi muitas coisas tristes na UTI.”

Para sua sorte, está aqui para poder nos contar a experiência. Por isso, aconselha: “Todos os músicos estão sofrendo sem trabalhar, mas a gente tem que ficar em casa. A coisa está muito feia. Já fiquei bravo, porque preciso trabalhar, mas, depois do que passei, tenho que dizer que é preciso parar”.

Marcela Fernandes Rocha Ondei, a mulher dele, concorda. “É preciso respeitar as regras de higiene, de distanciamento; fico aflita com o tanto de gente que vejo por aí sem máscara. É falta de respeito por quem já passou por isso, por quem teve parentes falecidos.”

Companheiro de infortúnio, o barbeiro Fábio também acredita que a vida é mais importante que as contas que ficam por pagar. “Pelo que já passei, o que vivi, hoje eu fecho as portas e priorizo a vida, a saúde – a minha, a da minha família, a do próximo.” As contas vão ser pagas assim que ele puder. “Eu venci a Covid, mas muita gente, pessoas que eu conheço, não conseguiu.”
“O lockdown é necessário. Sei que as contas vêm, mas vamos pagar do jeito que der. É difícil dizer isso, mas temos de fechar tanto pela nossa saúde como pela saúde do próximo e do nosso cliente. A vida é a prioridade.”

FIQUE EM CASA
Hoje é o último capítulo da série No Fio da Covid. Detalhe: quase todos as pessoas entrevistadas fizeram, em algum momento, registro sobre o trabalho dos profissionais de saúde. e um deles em especial. o médico José Roberto Marson Dente, o doutor Dente – descrito pelo baterista Leandro com um “remédio especial”: “O jeito de tratar, de olhar, de cumprimentar, de não ter medo de colocar a mão na gente”. Assim é o doutor Dente, que vai de leito em leito conversar com os pacientes. “Todo o nosso trabalho se fundamenta na assistência integral às pessoas, no cuidado, no carinho, por tratar o ser humano, não tratar a doença”, atesta o profissional.

Do hospital, doutor Dente manda um recado para quem está aqui fora: “As pessoas devem colocar a mão em sua consciência, em seu coração e fazer aquilo que é necessário para o bem-estar, para o bem comum, para o bem de todos. que respeitem o isolamento social, Façam distanciamento, usem todas as medidas, todas as formas de prevenção desta doença, para que a gente não chegue a colapsar os nossos serviços de saúde”. Que assim seja, doutor Dente. e muito obrigado por tudo o que o senhor faz por nós. O senhor fala a língua de Santo André. 



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