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Série: cenário de horror

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Do Diário do Grande ABC

02/04/2021 | 08:46


Apesar das muitas mortes provocadas pela Covid, de tanto sofrimento escancarado diante de todos, ainda há quem não se rende à gravidade da situação. Que se agrava a cada dia que passa. Diante do colapso iminente, o médico Victor Chiavegato, superintendente dos hospitais de campanha de Santo André, não se conforma. “Estamos vivendo um cenário de guerra, uma situação em que não temos mais leitos de UTI e as ambulâncias continuam chegando a todo momento.”

Esgotada, a enfermeira Juliane Gentile Cherit, coordenadora de enfermagem do hospital de campanha no Complexo Esportivo Pedro Dell’Antonia, faz outro alerta. “Um mês atrás, a gente estava achando que tudo terminaria e agora estourou um boom em que as pessoas estão chegando mais comprometidas, com quadro mais grave, com uma evolução muito rápida da doença.”

O número de jovens entre os pacientes internados aumentou muito. A enfermeira Michele Aparecida Fonceca conta que o perfil do doente está mudando muito, para pacientes jovens e sem comorbidades, com 30, 20, 18 anos.

Segundo ela, “os jovens pensam que é só uma gripe e não buscam ajuda. O número de vírus vai aumentando no organismo e quando busca ajuda já está bastante debilitado”. E, mais grave, em casa essa pessoa já passou a Covid para muitas outras pessoas. Esta é uma infecção muito rápida, silenciosa, e quando a pessoa vê, já está com o organismo tomado.

Victor Chiavegato avalia que a situação nunca esteve tão ruim. “Por mais que o hospital tenha se tornado uma referência internacional, tenha conseguido criar uma estrutura adequada de cuidado, a gente está passando por dias terríveis. O número de pacientes aumenta a cada instante – antes entravam sete, oito pacientes por dia; agora entram 60.”

Ele conta que toda a rotina do hospital de campanha precisou ser modificada para atender à nova demanda. A unidade no Dell’Antonia cuidava de casos leves a moderados. Mas teve de se adequar para dar conta de cuidar dos casos graves.

Com tantos problemas, a enfermeira Juliane Cherit engole fundo, segurando a emoção, para fazer um apelo: “As pessoas têm que se conscientizar – festas, aglomerações, não é o momento. Eles dizem, ‘ah, são só umas seis pessoas’... Não dá para ser nem meia dúzia de pessoas. Deixa a festa para depois. Vamos esperar que as coisas melhorem para a gente se reunir; aí sim, para comemorar o fim da pandemia”.

Dor de quem perde alguém querido é indescritível
A dura realidade que se reflete nos hospitais superlotados se abate sobre famílias inteiras, arrasadas por golpes de difícil compreensão. Priscila Lima, por exemplo, conta que a vida familiar girava em torno do restaurante do tio de nome Jesus, o mais velho de cinco irmãos.

A mãe, uma desses irmãos, para aumentar a preocupação, estava enfraquecida pelo tratamento de um câncer. Ela e outra tia comandavam a cozinha do restaurante, liberando o tio para atender o salão. E nas festas familiares, a grande família estava sempre presente, todos próximos e companheiros.

O drama da Covid começou quando Priscila, o marido e os três filhos testaram positivo. Receosa, mas achando que era necessário, avisou o grupo familiar e descobriu que na casa de uma das primas e de outra tia a situação era a mesma. Mas o grande baque, mesmo, veio quando o tio, o elo entre todos, foi diagnosticado com Covid e precisou ser internado. “Foi um pesadelo”, reconhece Priscila, porque além de o tio estar doente, a mãe sempre esteve em contato com ele.

E o que eles tanto temiam, aconteceu. A mãe testou positivo. Atendida no hospital de campanha em Santo André, chegou a melhorar, mas, de repente, teve uma recaída rápida e intensa, e precisou ser entubada. O pesadelo não dava tréguas.
“A doença evoluiu para piora quando já tinha melhorado”, conta a filha, sem conseguir segurar o choro. “Esse vírus é muito traiçoeiro.”

O choque, no caso de Priscila, chegou em dose dupla. Primeiro, recebeu a notícia de que o tio, que também era seu padrinho, não havia resistido. Apenas dez minutos depois, o boletim médico dava conta de que a mãe tinha sido entubada. “Ela estava em estado gravíssimo, e nós seguíamos ladeira abaixo.” Segue: “Todos os dias eu chorava muito porque a gente não tem o que fazer. Você se sente totalmente impotente, não pode dar um abraço, não pode estar junto, não pode nada!”

“Esse meu tio era o irmão mais velho, que sempre ajudara o pai a prover a casa. Era a palavra de consolo da família, uma pessoa sensacional. Sempre deu a volta por cima. A perda dele criou um vazio muito grande.”

Priscila lamenta. “Ele sempre queria estar com a gente, e foi levado de forma brutal. Pior, foi sepultado num saco zipado, sozinho.”

Por isso, Priscila alerta a quem, apesar de tudo, não toma as precauções necessárias. “A gente nunca acredita que vai chegar até a nossa casa. Você sabe de um caso aqui, outro ali, um vizinho ou lá longe, mas não pensa que pode entrar na sua casa. Então, não subestimem essa doença, que chega agora com novas cepas. É como se o vírus tivesse ganhado músculos.”



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