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Humanismo e respeito ao outro


Antonio Carlos Lopes

21/02/2021 | 23:21


Em um mundo que consome novidades tecnológicas e faz delas muletas para distintas ações, cabe parar e pensar onde foi parar o humanismo. No caso de medicina, a humanização das relações é primordial. O elo entre médico e paciente deve ser necessariamente entretecido pela empatia, a cumplicidade, o respeito, o cuidado.

Contudo, a realidade não é essa. Hoje, muitos doutores nem se dão ao trabalho de levantar a cabeça e olhar nos olhos de seus pacientes. A anamnese parece ter perdido a importância. O toque, a conversa, o escutar vão aos poucos sendo descartados em clínicas, hospitais e consultórios como objetos fora de moda. Inapelavelmente vencidos pelo tempo.

Não! Não pode ser assim. Os exames precisam ser solicitados com base no diagnóstico. As imagens, quando solicitadas sem necessidade de fato, esfriam a relação médico-paciente e encarecem a medicina. A medicina ideal não pode, em momento algum, perder sua ternura. O paciente não pode se transformar em um simples número de apartamento, em uma carteirinha de plano de saúde, em uma doença.

Paciente tem rosto, tem corpo, tem alma, tem nome. O foco do médico deve ser tratar o doente; confortá-lo e curá-lo sempre que possível. Em casos terminais, quando não for mesmo mais possível, garantir a ele uma sobrevida digna. Fazer essa reflexão diariamente é essencial. Precisamos extirpar de nosso dia a dia vícios que nos distanciam de nossos pacientes.

A humanização da prática médica precisa ser valorizada. Devemos apurar nossa sensibilidade e observar o doente mais atentamente, olhá-lo em essência. Uma relação consistente exige confiança e responsabilidade. O compromisso e os deveres incutidos nessa interação são imprescindíveis para a boa prática médica. A medicina, volto a frisar, jamais pode perder seu lado humanístico, curvando-se a interesses econômicos. Somos profissionais cuja obrigação é prestar assistência competente, correta do ponto de vista do caráter, e qualificada, sem diferenciar classe, cor, opção sexual ou credo.

As dificuldades que permeiam nosso ofício são diversas, a começar pela Covid-19, falta de equipamentos de proteção individual, de medicamentos etc. Há ainda pressão por consultas rápidas, falta de estrutura, interferência de terceiros e longas filas de espera, só para citar poucos exemplos. A negligência em todos os níveis também é empecilho à boa relação com os pacientes: a formação hoje em dia é questionável, faltam investimentos à saúde, a rede suplementar prioriza o enriquecimento em detrimento da boa assistência.
Porém, o bom médico não pode se curvar e aceitar passivamente as mazelas, sejam elas quais forem. Não podemos mecanizar o atendimento. Escolhemos lidar com pessoas e, por isso mesmo, temos de manter à flor da pele nosso lado humano.  



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Humanismo e respeito ao outro

Antonio Carlos Lopes

21/02/2021 | 23:21


Em um mundo que consome novidades tecnológicas e faz delas muletas para distintas ações, cabe parar e pensar onde foi parar o humanismo. No caso de medicina, a humanização das relações é primordial. O elo entre médico e paciente deve ser necessariamente entretecido pela empatia, a cumplicidade, o respeito, o cuidado.

Contudo, a realidade não é essa. Hoje, muitos doutores nem se dão ao trabalho de levantar a cabeça e olhar nos olhos de seus pacientes. A anamnese parece ter perdido a importância. O toque, a conversa, o escutar vão aos poucos sendo descartados em clínicas, hospitais e consultórios como objetos fora de moda. Inapelavelmente vencidos pelo tempo.

Não! Não pode ser assim. Os exames precisam ser solicitados com base no diagnóstico. As imagens, quando solicitadas sem necessidade de fato, esfriam a relação médico-paciente e encarecem a medicina. A medicina ideal não pode, em momento algum, perder sua ternura. O paciente não pode se transformar em um simples número de apartamento, em uma carteirinha de plano de saúde, em uma doença.

Paciente tem rosto, tem corpo, tem alma, tem nome. O foco do médico deve ser tratar o doente; confortá-lo e curá-lo sempre que possível. Em casos terminais, quando não for mesmo mais possível, garantir a ele uma sobrevida digna. Fazer essa reflexão diariamente é essencial. Precisamos extirpar de nosso dia a dia vícios que nos distanciam de nossos pacientes.

A humanização da prática médica precisa ser valorizada. Devemos apurar nossa sensibilidade e observar o doente mais atentamente, olhá-lo em essência. Uma relação consistente exige confiança e responsabilidade. O compromisso e os deveres incutidos nessa interação são imprescindíveis para a boa prática médica. A medicina, volto a frisar, jamais pode perder seu lado humanístico, curvando-se a interesses econômicos. Somos profissionais cuja obrigação é prestar assistência competente, correta do ponto de vista do caráter, e qualificada, sem diferenciar classe, cor, opção sexual ou credo.

As dificuldades que permeiam nosso ofício são diversas, a começar pela Covid-19, falta de equipamentos de proteção individual, de medicamentos etc. Há ainda pressão por consultas rápidas, falta de estrutura, interferência de terceiros e longas filas de espera, só para citar poucos exemplos. A negligência em todos os níveis também é empecilho à boa relação com os pacientes: a formação hoje em dia é questionável, faltam investimentos à saúde, a rede suplementar prioriza o enriquecimento em detrimento da boa assistência.
Porém, o bom médico não pode se curvar e aceitar passivamente as mazelas, sejam elas quais forem. Não podemos mecanizar o atendimento. Escolhemos lidar com pessoas e, por isso mesmo, temos de manter à flor da pele nosso lado humano.  

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