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Especial: Apesar do medo e insegurança, médicos são movidos pelo otimismo

Nario Barbosa/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Profissionais se dedicam durante 12 horas por dia e travam batalha para não levar o coronavírus de carona para casa


Bia Moço
Do Diário do Grande ABC

01/02/2021 | 00:01


O dia a dia dos médicos que atuam com situações de emergência é sempre uma corrida pela vida, com estresse e, muitas vezes, medo quanto ao desfecho do trabalho. Mas pouca coisa se compara à rotina de quem tem de conviver diariamente com <CF50>uma espada sobre a cabeça</CF> no atendimento de pacientes acometidos pela Covid. Afinal, de uma hora para outra alguém que aparentemente está reagindo bem ao tratamento pode piorar e o corre corre contra quadro que pode levar à morte se torna corrida contra o tempo.

Os segundos passam mais rapidamente e não são raros os profissionais que se veem impotentes, mas nunca desistem. É assim que médicos, enfermeiros e toda a equipe que atua no hospital de campanha montado no Complexo Esportivo Pedro Dell’Antonia, em Santo André, se transformam em anjos da guarda de pessoas que lutam pela sobrevivência com todas as forças.

São cerca de 800 profissionais que atuam no equipamento, um deles o diretor e médico intensivista Bruno Guimarães Maia, 29 anos, que, além de cuidar de toda a parte administrativa do espaço, ainda atende diariamente, leito a leito, todos os pacientes internados.

Embora os plantões tenham 12 horas diárias, sendo das 7h às 19h, e o inverso na madrugada, a rotina intensa de Bruno começa por volta das 6h, quando ele chega à unidade e, normalmente, não tem hora para acabar. “Nosso horário de trabalho depende do dia. O hospital de campanha tem estrutura muito complexa e todos os dias (a rotina) é diferente, com casos isolados mais ou menos graves”, explicou.

As medidas de segurança, porém, são sempre as mesmas. Os funcionários chegam, entram em vestiário e trocam os aparatos pessoais pela vestimenta chamada de roupa privativa, ou seja, o uniforme hospitalar. Depois são municiados de touca e máscara descartáveis, de alta contenção viral. “Lavamos as mãos e adentramos ao covidário (local onde os pacientes ficam internados) prontos para o trabalho. A cada paciente que examinamos, desinfetamos as mãos com álcool gel 70%, em displays espalhados ao lado de todos os leitos e em todos os espaços”, reforçou o médico.

No covidário, os médicos se reúnem com enfermeiros da cada ala, buscam informações sobre o estado de saúde dos pacientes e aproveitam para olhar o mapa geral de leitos, tomando pé do cenário. “Depois vamos até cada paciente examinar e ver como está a evolução, ou piora do quadro e, na sequência, se necessário, passamos novas ações à enfermagem”, explicou Bruno.

O covidário tem movimentos orquestrados. Os funcionários entram pelo que chamam de lado limpo e saem pela porta ao fim do corredor, batizada de lado sujo, onde há o expurgo, local onde os profissionais fazem a desinfecção particular.

“No vestiário retiramos todas as roupas e tomamos banho antes de ir para casa. Eu, ao chegar na minha residência, ainda entro pela lavanderia, tiro roupas e sapatos, entro no banho lá mesmo e só depois vejo minha família”, afirmou Bruno.

Casado com Giselle e pai da pequena Isabella, 1 ano, Bruno relatou a difícil rotina de se dividir entre marido, pai e médico. “No início da pandemia ficamos exatos 108 dias distantes, já que elas foram para Minas Gerais e eu fiquei sozinho. Perdi mais de três meses de desenvolvimento da minha filha”, lamentou, explicando que o esforço faz parte dos “sacrifícios da profissão”. “Entrei neste projeto de cabeça e me doei totalmente para cuidar desses pacientes”, afirmou.

Bruno convive com a mulher e a filha, porém, com cuidados redobrados. “Parece mentira, mas estou diariamente, lado a lado, desde março, perto de pacientes contaminados pela Covid, mas eu não peguei e ninguém na minha família foi contaminado”, revelou o médico, mostrando certa surpresa. Embora preparado para lidar com as perdas, Bruno garante que médicos não se acostumam com a morte de seus pacientes e que a cada óbito acumulam mais uma tristeza.

Diante da situação de aumento de casos, o profissional alerta que, desde o início da pandemia, o período mais crítico foi em dezembro, quando o hospital quase bateu 100% de ocupação, e que ainda existe alta taxa de internação – na sexta-feira eram 114 pessoas internadas nas enfermarias e 19 nas UTIs (Unidades de Terapia Intensiva) com 60% de ocupação. “Para nós, nada mudou de março para cá. A pandemia está aí. Ainda não existe remédio comprovado para tratar e prevenir a Covid e a vacina tem número ínfimo para a população mundial”, lamentou Bruno.

Pediatra, craque das imagens, reforça a luta contra o vírus

Quando um médico se especializa em pediatria, a ideia é cuidar de crianças. Mas para Caio Willians Costa Júnior, o cenário dos últimos 11 meses em nada se assemelha com o cuidado da primeira infância. Trabalhando no plantão diurno do hospital de campanha, o profissional analisa os pacientes contaminados pela Covid e exames leves e complexos durante as 12 horas, ou mais, que passa no covidário.

Para ele, o trabalho insano faz parte da profissão, que, de modo geral, é cuidar de vidas. “É diferente né?”, brincou o médico, fazendo alusão aos tempos de pediatria.

Caio, que estava em plena análise de exame de imagem, explicou que a pessoa, antes de ser admitida no hospital, passa por diversas etapas. “Quando o paciente chega para nós, vem pelas UPAs (Unidades de Pronto Atendimento). Aqui é testado com o exame de PCR, sangue e faz tomografia, que é o ponto crucial para caracterizarmos a doença”, contou.

O médico mostrou à equipe de reportagem do Diário a diferença de um pulmão pouco comprometido pela Covid e outro que contém mais de 70% de infecção. “O pulmão normal mostra pequenos pontos brancos em área preta. Nos casos de Covid, temos manchas brancas, borradas e, quanto mais comprometido o pulmão, mais manchas apresenta”, explicou Caio, afirmando que a imagem é diferente de quando há secreções. “Temos alguns casos que vêm acompanhados de pneumonia, bronquite ou secreções. A Covid é bem característica”, completou.

Para tratar dos pacientes, Caio garante que é avaliado caso a caso. No geral, são usados antibióticos, corticoides e vaso dilatadores. “Classificamos os doentes por baixa, média e alta complexidades. De acordo com a situação de cada pessoa é que determinamos a quantidade de medicamentos”, disse Caio, explicando que o mesmo é feito para classificação de uso de oxigênio. “Há pacientes que não precisam do auxílio respiratório. Os mais leves, usam cateter, que vai de 2 a 5 litros de oxigênio por minuto”, garantiu.

Para o médico, não se pode ainda oficializar um protocolo de cuidados da Covid, já que não existem remédios comprovadamente eficazes para tratar ou prevenir o novo coronavírus, no entanto, Caio garante que os profissionais aprenderam a lidar com a doença, dia após dia, e afirma que estarão fortes já que que “a luta continua”.



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