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O contrato das vacinas


Vanessa Soares Oliveira

20/01/2021 | 03:30


O presidente Bolsonaro escolheu bons parceiros para a tarefa de produzir vacinas contra a Covid: o Imperial College, de Oxford, centro mundial de excelência, e os laboratórios anglo-suecos AstraZeneca, cujo trabalho na área farmacêutica é muito respeitado. No Brasil, trabalhariam com o Instituto Oswaldo Cruz, Fiocruz, com mais de 100 anos de trabalho competente.

O governo brasileiro assinou contrato de compra de vacinas. Então, cadê as vacinas? O Reino Unido já utiliza as vacinas de Oxford, a Anvisa já deu sinal verde ao imunizante, e por que não aparecem as vacinas prontas nem o material ativo para que a Fiocruz o prepare em seus laboratórios? Oxford e AstraZeneca cumprem seus contratos. Pode ser que, no contrato, determinem que vacinas e materiais destinados ao Brasil sejam produzidos no Instituto Serum, da Índia. Tudo bem. Mas como explicar a Operação Tabajara em que Bolsonaro e o general da Saúde envolveram o Brasil, pedindo que a Índia quebrasse nosso galho, alugando um avião e no fim não conseguindo nada?
Há várias versões correndo. Uma delas diz que as vacinas seriam enviadas ao Brasil 60 dias após a assinatura do contrato, e falta tempo para completar esse prazo. Mas há um documento que resolve todos esses problemas: que é que diz o contrato? O Brasil teria mesmo comprado só 2 milhões de doses, quando precisa de 300 milhões (ou 200 milhões, descontando a Coronavac)?

Alô, parlamentares, STF, governo: cadê o contrato? É a chave da história.

Aos fatos
Como dizem o presidente e seus assessores, o governador João Doria usa calça apertada, sapatênis, gravatas de marca. Mas, sem as “vachinas” que o governo paulista e o Butantan contrataram, não haveria vacina nenhuma no Brasil. E o que há por aqui é pouco: o total de compras do Butantan atinge 46 milhões de vacinas, das quais 6 milhões foram entregues e mal dão para iniciar a imunização. Até ontem, boa parte do material já comprado pelo Butantan estava parada na China, sabe-se lá por que (também está lá o lote destinado à Fiocruz). Que é que está acontecendo? Produtos destinados à produção de remédios não podem simplesmente ficar parados, sem explicação. Há quem diga que é retaliação chinesa às declarações provocativas do presidente e de seus assessores. Não importa: é inadmissível. Por onde anda o Itamaraty?

Às alternativas
É preferível imaginar que o problema seja outro. Mas, se for retaliação, o Brasil também vende à China produtos de que necessitam. O comércio é bom para os dois lados, e sua redução é ruim para ambos. De qualquer forma, há alternativas no mercado para vacinação: a Índia tem produtos que não fazem parte de sua vacinação nacional, a Rússia tem a Sputnik V – e na semana que vem inicia testes conjuntos com a AstraZeneca e a vacina de Oxford. As duas vedetes do mercado, Pfizer e Moderna, com vacinas produzidas sem vírus, talvez não tenham produção suficiente para o Brasil. O problema é que tudo isso atrasa a vacinação, já atrasada. Melhor seria o Itamaraty entrar no jogo.

Do chão não passa
O fim da ajuda de emergência (o coronavoucher) já está custando caro ao presidente Bolsonaro: os que aprovam sua administração caíram de 38% para 32%. A avaliação negativa já supera a positiva: subiu de 35% para 40%.
A queda coincide com a má opinião sobre a luta contra a Covid: 52%. O número vem subindo desde dezembro – a alta agora foi de 4%.
Bolsonaro já caiu e já subiu. Faz parte da oscilação das pesquisas. Parece, porém, que nas atuais circunstâncias, visto como pouco eficiente na gestão da pandemia, e quando desaparece o coronavoucher, seja pouco provável uma oscilação positiva. Algo semelhante ao coronavoucher é do que precisa.

A eleição
Se as eleições fossem agora, Bolsonaro provavelmente ganharia. Nada de avassalador, mas sólido: 28%. Bem longe, seguem-se Sérgio Moro (12%), Ciro Gomes e Fernando Haddad (11%), Luciano Huck (7%), Guilherme Boulos (5%), João Doria (4%), João Amoêdo (3%) e Luiz Mandetta (3%).
Em segundo turno, a pesquisa indica que Moro venceria Bolsonaro, mas num quase empate, dentro da margem de erro: 36% a 33%. Nas últimas pesquisas, Bolsonaro vencia Moro por 36% a 34%. Mas é só Moro: outros candidatos seriam todos derrotados pelo atual presidente. Haddad (42% a 37%), Ciro (40% a 37%), Boulos (44% a 31%) e Huck (38% a 34%). Importante: em alguns casos, a diferença pode se ampliar ou se desfazer durante a campanha.

A surpresa
A pesquisa foi realizada pelo Ipespe a pedido da corretora XP, que tem interesse em manter informados seus investidores. A surpresa foi Luciano Huck, que não tem partido, não sabe se vai ser candidato, mas que só perderia de Bolsonaro por 38% a 34% – na verdade, empate técnico, dentro da margem de erro. Mas faltam dois anos, até lá tudo pode (e deve) mudar. Afinal, lá por 2016, quem imaginaria a disparada de Bolsonaro? 



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O contrato das vacinas

Vanessa Soares Oliveira

20/01/2021 | 03:30


O presidente Bolsonaro escolheu bons parceiros para a tarefa de produzir vacinas contra a Covid: o Imperial College, de Oxford, centro mundial de excelência, e os laboratórios anglo-suecos AstraZeneca, cujo trabalho na área farmacêutica é muito respeitado. No Brasil, trabalhariam com o Instituto Oswaldo Cruz, Fiocruz, com mais de 100 anos de trabalho competente.

O governo brasileiro assinou contrato de compra de vacinas. Então, cadê as vacinas? O Reino Unido já utiliza as vacinas de Oxford, a Anvisa já deu sinal verde ao imunizante, e por que não aparecem as vacinas prontas nem o material ativo para que a Fiocruz o prepare em seus laboratórios? Oxford e AstraZeneca cumprem seus contratos. Pode ser que, no contrato, determinem que vacinas e materiais destinados ao Brasil sejam produzidos no Instituto Serum, da Índia. Tudo bem. Mas como explicar a Operação Tabajara em que Bolsonaro e o general da Saúde envolveram o Brasil, pedindo que a Índia quebrasse nosso galho, alugando um avião e no fim não conseguindo nada?
Há várias versões correndo. Uma delas diz que as vacinas seriam enviadas ao Brasil 60 dias após a assinatura do contrato, e falta tempo para completar esse prazo. Mas há um documento que resolve todos esses problemas: que é que diz o contrato? O Brasil teria mesmo comprado só 2 milhões de doses, quando precisa de 300 milhões (ou 200 milhões, descontando a Coronavac)?

Alô, parlamentares, STF, governo: cadê o contrato? É a chave da história.

Aos fatos
Como dizem o presidente e seus assessores, o governador João Doria usa calça apertada, sapatênis, gravatas de marca. Mas, sem as “vachinas” que o governo paulista e o Butantan contrataram, não haveria vacina nenhuma no Brasil. E o que há por aqui é pouco: o total de compras do Butantan atinge 46 milhões de vacinas, das quais 6 milhões foram entregues e mal dão para iniciar a imunização. Até ontem, boa parte do material já comprado pelo Butantan estava parada na China, sabe-se lá por que (também está lá o lote destinado à Fiocruz). Que é que está acontecendo? Produtos destinados à produção de remédios não podem simplesmente ficar parados, sem explicação. Há quem diga que é retaliação chinesa às declarações provocativas do presidente e de seus assessores. Não importa: é inadmissível. Por onde anda o Itamaraty?

Às alternativas
É preferível imaginar que o problema seja outro. Mas, se for retaliação, o Brasil também vende à China produtos de que necessitam. O comércio é bom para os dois lados, e sua redução é ruim para ambos. De qualquer forma, há alternativas no mercado para vacinação: a Índia tem produtos que não fazem parte de sua vacinação nacional, a Rússia tem a Sputnik V – e na semana que vem inicia testes conjuntos com a AstraZeneca e a vacina de Oxford. As duas vedetes do mercado, Pfizer e Moderna, com vacinas produzidas sem vírus, talvez não tenham produção suficiente para o Brasil. O problema é que tudo isso atrasa a vacinação, já atrasada. Melhor seria o Itamaraty entrar no jogo.

Do chão não passa
O fim da ajuda de emergência (o coronavoucher) já está custando caro ao presidente Bolsonaro: os que aprovam sua administração caíram de 38% para 32%. A avaliação negativa já supera a positiva: subiu de 35% para 40%.
A queda coincide com a má opinião sobre a luta contra a Covid: 52%. O número vem subindo desde dezembro – a alta agora foi de 4%.
Bolsonaro já caiu e já subiu. Faz parte da oscilação das pesquisas. Parece, porém, que nas atuais circunstâncias, visto como pouco eficiente na gestão da pandemia, e quando desaparece o coronavoucher, seja pouco provável uma oscilação positiva. Algo semelhante ao coronavoucher é do que precisa.

A eleição
Se as eleições fossem agora, Bolsonaro provavelmente ganharia. Nada de avassalador, mas sólido: 28%. Bem longe, seguem-se Sérgio Moro (12%), Ciro Gomes e Fernando Haddad (11%), Luciano Huck (7%), Guilherme Boulos (5%), João Doria (4%), João Amoêdo (3%) e Luiz Mandetta (3%).
Em segundo turno, a pesquisa indica que Moro venceria Bolsonaro, mas num quase empate, dentro da margem de erro: 36% a 33%. Nas últimas pesquisas, Bolsonaro vencia Moro por 36% a 34%. Mas é só Moro: outros candidatos seriam todos derrotados pelo atual presidente. Haddad (42% a 37%), Ciro (40% a 37%), Boulos (44% a 31%) e Huck (38% a 34%). Importante: em alguns casos, a diferença pode se ampliar ou se desfazer durante a campanha.

A surpresa
A pesquisa foi realizada pelo Ipespe a pedido da corretora XP, que tem interesse em manter informados seus investidores. A surpresa foi Luciano Huck, que não tem partido, não sabe se vai ser candidato, mas que só perderia de Bolsonaro por 38% a 34% – na verdade, empate técnico, dentro da margem de erro. Mas faltam dois anos, até lá tudo pode (e deve) mudar. Afinal, lá por 2016, quem imaginaria a disparada de Bolsonaro? 

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