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Oito a cada dez brasileiros tomam remédio sem prescrição

André Henriques/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Covid piorou ainda mais situação com disseminação de medicamentos sem comprovação científica


Bia Moço
Do Diário do Grande ABC

16/01/2021 | 16:04


Pesquisa realizada pelo Conselho Federal de Farmácia revelou que 77% dos brasileiros fazem uso de medicamentos por conta própria. Quase metade (47%) se automedica pelo menos uma vez por mês, e um quarto (25%) o faz todo dia ou pelo menos uma vez por semana. A situação se agravou com a chegada da Covid e a disseminação de medicamentos sem comprovação científica para tratamento precoce da doença, como a hidroxicloroquina, azitromicina e ivermectina, esse último pode ser comprado sem prescrição médica. No entanto, especialistas explicam que tomar remédios por conta própria pode trazer riscos graves para a saúde e até mesmo ser fatal.

>Diretor da 1ª distrital da APM (Associação Paulista de Medicina) – que responde por Santo André, São Bernardo, São Caetano, Barueri, Guarulhos, Mogi das Cruzes, Osasco e Suzano –, João Eduardo Charles explicou que o uso das drogas sem orientação médica não é indicado. “Alguns remédios, além de não ter comprovação científica (para prevenir a Covid), têm riscos até cardiológicos, como a cloroquina, que está provado cientificamente que, em pacientes crônicos e cardiopatas, pode ter efeito deletério e fatal”, ressaltou Charles.

A professora responsável pela disciplina de saúde coletiva da FMABC (Faculdade de Medicina do ABC), Vânia Barbosa do Nascimento, disse que, diante das reportagens midiáticas sobre o uso desses medicamentos e de apoio público de políticos do mais alto escalão, como o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), as pessoas, no desespero, tendem a se automedicar. “Não recomendo que tomem remédios sem indicação médica, porque todos os medicamentos podem trazer efeitos colaterais, tanto que existe essa informação na bula”, pontuou, explicando  ainda que a não comprovação da eficácia dessas drogas contra a Covid deixam de validar a ingestão dos componentes. “Já foram realizados vários estudos que não confirmam a validade para a prevenção e o tratamento da Covid. É sempre um risco (se automedicar). Às vezes pode ter até interação com outras medicações que a pessoa já usa”, elencou a professora.

EXPERIÊNCIA PRÓPRIA
A compradora Daniela Nascimento Camargo, 41 anos, fez o uso da invermectina – antiparasitário capaz de combater vermes, parasitas e ácaros – em sua rotina por duas vezes, ambas sem prescrição médica. A moradora da Vila Lutécia, em Santo André, ingeriu a droga em maio, na intenção de se prevenir. Em novembro ela foi contaminada pelo coronavírus e, novamente, fez uso do vermicida por conta própria.

“Quando vi notícias sobre ele (invermectina), pequisei e vi que alguns médicos indicavam e outros não. Mas mesmo assim, assumi o risco, pois em janeiro tinha comprado para minha sobrinha de dois anos o remédio, indicado por médicos, quando ela tinha acabado de entrar na creche e pegou piolho”, explicou Daniela, afirmando pensar que o uso não traria consequências. “Peguei Covid em novembro e os médicos me receitaram azitromicina, prednisona e dipirona. Mesmo sem indicarem a invermectina, comprei e tomei de novo”, contou, afirmando ainda que desde o início da pandemia, em março, ficou exposta ao vírus e, portanto, não sabe dizer se o primeiro uso ajudou a não se contaminar antes. “Não trabalhei em casa nenhum dia. Pegava quatro ônibus todos os dias”, relatou Daniela.

Especialistas relatam que, em alguns casos, os remédios funcionam para promover o efeito placebo, ou seja, a pessoa que toma a substância sente-se segura diante da ameaça do vírus e cria efeito fisiológico positivo tendo mais resistência para enfrentar a enfermidade, como no caso de tomar um copo de água com açúcar para acalmar o nervosismo. As contraindicações, porém, são perigosas.

A empresária Jessica Sanches Ciolette, 27, também fez uso da invermectina, em julho, depois que seu marido foi contaminado pela doença. “Sempre tomei (a invermectina), de dois em dois anos, porque meus médicos sempre indicaram como método para limpar o organismo de possíveis parasitas. Quando vi que seria uma opção de prevenção da Covid, pensei que, se já fazia uso frequente, por que não tomar?”, indagou, dizendo que toda a família utilizou a droga. “Se não tem efeito de combater de forma efetiva o coronavírus, psicologicamente eu fiquei um pouco mais confiante, porque na minha opinião de leiga, mal não me faria”, justificou Jessica.

O médico e consultor da SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia), Leonardo Weissmann destaca, porém, que a automedicação pode até mesmo causar intoxicação, reações alérgicas e resistência a remédios. “As medidas que comprovadamente ajudam a prevenir a Covid são o uso correto de máscara, distanciamento físico, evitar aglomerações e higienização frequente das mãos”, frisou o especialista.

Médicos indicam drogas sem comprovação

A preocupação com a automedicação ficou em evidência na semana passada, quando o governo do Amazonas e a prefeitura de Porto Alegre passaram a recomendar, oficialmente, o uso de medicamentos que não possuem eficácia comprovada no tratamento de pacientes com Covid, como hidroxicloroquina, azitromicina e ivermectina.

A indicação destas drogas para tratar precocemente a Covid, no entanto, tem sido feita por médicos em várias partes do Brasil. Especialistas afirmam que a conduta, embora ignore evidências científicas e crie a falsa sensação de que existe um tratamento eficaz contra a doença, não prevê punição aos profissionais que receitam o uso das drogas como alternativa de tratamento precoce.

Segundo o diretor da 1ª distrital da APM (Associação Paulista de Medicina), João Eduardo Charles, na situação em que não se tem protocolo de como tratar o paciente, como é o caso da contaminação pelo coronavírus, o médico pode indicar medicamentos dentro da regra chamada off-label (em inglês, sem rotulo), ou seja, quando o profissional tem de informar ao paciente que não existe comprovação científica para o medicamento e que, se ele quiser tomar, pode fazer o uso. “É por isso que as entidades médicas têm batido muito na questão, principalmente da cloroquina, porque ela pode trazer alguns problemas em cardiopatas”, explica o especialista.

No entanto, Charles destaca que não há como julgar os colegas pela prescrição. “Punição por usar os medicamentos, sobretudo nesses casos em que não há alternativa e o paciente quer uma medicação, não tem. Se o médico passa todas as informações, inclusive a não comprovação científica, não tem porque ser punido”, afirmou o diretor da entidade.

Presidente da AMB (Associação Médica Brasileira), César Eduardo Fernandes destacou que possível punição aos médicos que indicam o uso de fármacos que não foram cientificamente comprovados contra a doença caberia somente aos conselhos de medicina oficiais, tanto regionais, quanto nacional e federal. “Os médicos são responsáveis por essas prescrições e, a associação, segundo suas atribuições, não tem o julgamento de médicos”, reafirmou, pontuando que seria importante que os conselhos de medicina se pronunciassem publicamente quanto a conduta dos profissionais que prescrevem as drogas. O Diário tentou contado com os conselhos de medicina, mas não conseguiu resposta até o fechamento desta edição.

“Todos nós, médicos, gostaríamos de vir a público para trazer boas notícias para a população. Seria muito bom se tivéssemos evidências de qualidade definitiva de que determinado fármaco serve de medicação preventiva contra a Covid. Mas não temos”, lamentou Fernandes, reforçando que “o único método eficaz será a vacina”.

“Estamos às portas de poder iniciar a vacinação. As pessoas não podem se deixar cair em fake news de que medicações podem substituir a vacinação. Quando chegar a vez, tem de se vacinar, é a única maneira comprovada (de se proteger do coronavírus)”, garantiu Fernandes, explicando que prevenção é diferente de tratamento. “Orientar a população para que faça prevenção com medicação não se sustenta. As drogas estão sendo usadas para tratamento depois que o indivíduo já se contaminou”, finalizou o médico.  



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Oito a cada dez brasileiros tomam remédio sem prescrição

Covid piorou ainda mais situação com disseminação de medicamentos sem comprovação científica

Bia Moço
Do Diário do Grande ABC

16/01/2021 | 16:04


Pesquisa realizada pelo Conselho Federal de Farmácia revelou que 77% dos brasileiros fazem uso de medicamentos por conta própria. Quase metade (47%) se automedica pelo menos uma vez por mês, e um quarto (25%) o faz todo dia ou pelo menos uma vez por semana. A situação se agravou com a chegada da Covid e a disseminação de medicamentos sem comprovação científica para tratamento precoce da doença, como a hidroxicloroquina, azitromicina e ivermectina, esse último pode ser comprado sem prescrição médica. No entanto, especialistas explicam que tomar remédios por conta própria pode trazer riscos graves para a saúde e até mesmo ser fatal.

>Diretor da 1ª distrital da APM (Associação Paulista de Medicina) – que responde por Santo André, São Bernardo, São Caetano, Barueri, Guarulhos, Mogi das Cruzes, Osasco e Suzano –, João Eduardo Charles explicou que o uso das drogas sem orientação médica não é indicado. “Alguns remédios, além de não ter comprovação científica (para prevenir a Covid), têm riscos até cardiológicos, como a cloroquina, que está provado cientificamente que, em pacientes crônicos e cardiopatas, pode ter efeito deletério e fatal”, ressaltou Charles.

A professora responsável pela disciplina de saúde coletiva da FMABC (Faculdade de Medicina do ABC), Vânia Barbosa do Nascimento, disse que, diante das reportagens midiáticas sobre o uso desses medicamentos e de apoio público de políticos do mais alto escalão, como o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), as pessoas, no desespero, tendem a se automedicar. “Não recomendo que tomem remédios sem indicação médica, porque todos os medicamentos podem trazer efeitos colaterais, tanto que existe essa informação na bula”, pontuou, explicando  ainda que a não comprovação da eficácia dessas drogas contra a Covid deixam de validar a ingestão dos componentes. “Já foram realizados vários estudos que não confirmam a validade para a prevenção e o tratamento da Covid. É sempre um risco (se automedicar). Às vezes pode ter até interação com outras medicações que a pessoa já usa”, elencou a professora.

EXPERIÊNCIA PRÓPRIA
A compradora Daniela Nascimento Camargo, 41 anos, fez o uso da invermectina – antiparasitário capaz de combater vermes, parasitas e ácaros – em sua rotina por duas vezes, ambas sem prescrição médica. A moradora da Vila Lutécia, em Santo André, ingeriu a droga em maio, na intenção de se prevenir. Em novembro ela foi contaminada pelo coronavírus e, novamente, fez uso do vermicida por conta própria.

“Quando vi notícias sobre ele (invermectina), pequisei e vi que alguns médicos indicavam e outros não. Mas mesmo assim, assumi o risco, pois em janeiro tinha comprado para minha sobrinha de dois anos o remédio, indicado por médicos, quando ela tinha acabado de entrar na creche e pegou piolho”, explicou Daniela, afirmando pensar que o uso não traria consequências. “Peguei Covid em novembro e os médicos me receitaram azitromicina, prednisona e dipirona. Mesmo sem indicarem a invermectina, comprei e tomei de novo”, contou, afirmando ainda que desde o início da pandemia, em março, ficou exposta ao vírus e, portanto, não sabe dizer se o primeiro uso ajudou a não se contaminar antes. “Não trabalhei em casa nenhum dia. Pegava quatro ônibus todos os dias”, relatou Daniela.

Especialistas relatam que, em alguns casos, os remédios funcionam para promover o efeito placebo, ou seja, a pessoa que toma a substância sente-se segura diante da ameaça do vírus e cria efeito fisiológico positivo tendo mais resistência para enfrentar a enfermidade, como no caso de tomar um copo de água com açúcar para acalmar o nervosismo. As contraindicações, porém, são perigosas.

A empresária Jessica Sanches Ciolette, 27, também fez uso da invermectina, em julho, depois que seu marido foi contaminado pela doença. “Sempre tomei (a invermectina), de dois em dois anos, porque meus médicos sempre indicaram como método para limpar o organismo de possíveis parasitas. Quando vi que seria uma opção de prevenção da Covid, pensei que, se já fazia uso frequente, por que não tomar?”, indagou, dizendo que toda a família utilizou a droga. “Se não tem efeito de combater de forma efetiva o coronavírus, psicologicamente eu fiquei um pouco mais confiante, porque na minha opinião de leiga, mal não me faria”, justificou Jessica.

O médico e consultor da SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia), Leonardo Weissmann destaca, porém, que a automedicação pode até mesmo causar intoxicação, reações alérgicas e resistência a remédios. “As medidas que comprovadamente ajudam a prevenir a Covid são o uso correto de máscara, distanciamento físico, evitar aglomerações e higienização frequente das mãos”, frisou o especialista.

Médicos indicam drogas sem comprovação

A preocupação com a automedicação ficou em evidência na semana passada, quando o governo do Amazonas e a prefeitura de Porto Alegre passaram a recomendar, oficialmente, o uso de medicamentos que não possuem eficácia comprovada no tratamento de pacientes com Covid, como hidroxicloroquina, azitromicina e ivermectina.

A indicação destas drogas para tratar precocemente a Covid, no entanto, tem sido feita por médicos em várias partes do Brasil. Especialistas afirmam que a conduta, embora ignore evidências científicas e crie a falsa sensação de que existe um tratamento eficaz contra a doença, não prevê punição aos profissionais que receitam o uso das drogas como alternativa de tratamento precoce.

Segundo o diretor da 1ª distrital da APM (Associação Paulista de Medicina), João Eduardo Charles, na situação em que não se tem protocolo de como tratar o paciente, como é o caso da contaminação pelo coronavírus, o médico pode indicar medicamentos dentro da regra chamada off-label (em inglês, sem rotulo), ou seja, quando o profissional tem de informar ao paciente que não existe comprovação científica para o medicamento e que, se ele quiser tomar, pode fazer o uso. “É por isso que as entidades médicas têm batido muito na questão, principalmente da cloroquina, porque ela pode trazer alguns problemas em cardiopatas”, explica o especialista.

No entanto, Charles destaca que não há como julgar os colegas pela prescrição. “Punição por usar os medicamentos, sobretudo nesses casos em que não há alternativa e o paciente quer uma medicação, não tem. Se o médico passa todas as informações, inclusive a não comprovação científica, não tem porque ser punido”, afirmou o diretor da entidade.

Presidente da AMB (Associação Médica Brasileira), César Eduardo Fernandes destacou que possível punição aos médicos que indicam o uso de fármacos que não foram cientificamente comprovados contra a doença caberia somente aos conselhos de medicina oficiais, tanto regionais, quanto nacional e federal. “Os médicos são responsáveis por essas prescrições e, a associação, segundo suas atribuições, não tem o julgamento de médicos”, reafirmou, pontuando que seria importante que os conselhos de medicina se pronunciassem publicamente quanto a conduta dos profissionais que prescrevem as drogas. O Diário tentou contado com os conselhos de medicina, mas não conseguiu resposta até o fechamento desta edição.

“Todos nós, médicos, gostaríamos de vir a público para trazer boas notícias para a população. Seria muito bom se tivéssemos evidências de qualidade definitiva de que determinado fármaco serve de medicação preventiva contra a Covid. Mas não temos”, lamentou Fernandes, reforçando que “o único método eficaz será a vacina”.

“Estamos às portas de poder iniciar a vacinação. As pessoas não podem se deixar cair em fake news de que medicações podem substituir a vacinação. Quando chegar a vez, tem de se vacinar, é a única maneira comprovada (de se proteger do coronavírus)”, garantiu Fernandes, explicando que prevenção é diferente de tratamento. “Orientar a população para que faça prevenção com medicação não se sustenta. As drogas estão sendo usadas para tratamento depois que o indivíduo já se contaminou”, finalizou o médico.  

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