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Ford encerra toda a produção brasileira de automóveis

Após 101 anos no País, montadora fecha as três fábricas e põe em risco 13 mil empregos


Yara Ferraz
Do Diário do Grande ABC

12/01/2021 | 00:28



A Ford pôs um ponto final em história de 101 anos no Brasil. Pioneira no conceito de carro popular e primeira montadora do País, a companhia norte-americana anunciou ontem o fim da produção de automóveis em território nacional. Três fábricas serão fechadas e 13 mil empregos diretos poderão ser perdidos – são quase cinco plantas de São Bernardo, fechada em 2019, que deixou 2.800 desempregados.

A Ford justificou o encerramento devido à ampliação da capacidade ociosa da indústria, impactada pela pandemia, e à redução de vendas, que já resulta em anos de perdas significativas. A empresa disse que vai manter no País a assistência e venda ao consumidor, além do centro de desenvolvimento de produto, em Camaçari (Bahia), o campo de provas, em Tatuí (Interior), e a sede administrativa da América do Sul em São Paulo.

“Sabemos que essas são ações muito difíceis, mas necessárias, para a criação de um negócio saudável e sustentável”, disse Jim Farley, presidente da Ford, em comunicado. A companhia informou que vai trabalhar em colaboração com sindicatos e outros parceiros no desenvolvimento de plano justo e equilibrado para minimizar os reflexos.

A produção será encerrada imediatamente em Camaçari e Taubaté (Interior), onde atuam, respectivamente, 12 mil e 830 funcionários, mantendo apenas a fabricação de peças por alguns meses para garantir os estoques. A fábrica da Troller, com 470 operários em Horizonte (Ceará) continuará até o quarto trimestre.

“Nosso dedicado time da América do Sul fez progressos significativos na transformação das nossas operações, incluindo a descontinuidade de produtos não lucrativos e a saída do segmento de caminhões”, disse Lyle Watters, presidente da Ford América do Sul e Grupo de Mercados Internacionais. “Esses esforços melhoraram os resultados nos últimos quatro trimestres, entretanto, a continuidade do ambiente econômico desfavorável e a pressão adicional causada pela pandemia deixaram claro que era necessário muito mais para criar um futuro sustentável e lucrativo.”

Dados da Fenabrave (Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores) mostram que em 2020 a Ford respondeu por 7,39% do mercado de vendas de novos veículos, com 119,4 mil unidades emplacadas – queda de 39,16% em relação a 2019. A Ford vai encerrar as vendas do Ka (quinto mais vendido no País, com 67,4 mil unidades), Ka Sedan, EcoSport e T4 assim que terminarem os estoques. De acordo com a empresa, as operações de manufatura na Argentina e no Uruguai não serão impactadas.

Para o coordenador de MBA em gestão estratégica de empresas da cadeia automotiva da FGV, Antonio Jorge Martins, a decisão da Ford é estratégica e não deve produzir movimento de debandada das demais empresas do setor, que estão focando em alianças e novos produtos para o mercado nacional. “Foi a mesma questão da linha de caminhões, para concentrar investimentos e maximizar ofertas. O volume que a Ford está praticando no País não gera rentabilidade que a matriz almeja e exige de outros países, afinal, as subsidiárias precisam dar retorno. É decisão que demonstra o novo nível de atuação mundial da empresa, focada em veículos de alta tecnologia agregada.”


Para Anfavea, custo Brasil contribuiu

Decisão da saída da Ford do Brasil repercutiu entre autoridades e entidades. A filial brasileira foi aberta por Henry Ford em 1919, na Rua Florêncio de Abreu, no Centro de São Paulo, onde só era montado o Ford T, depois seguiu para o Bom Retiro, onde iniciou produção em série, foi ao Ipiranga e em 1967 chegou a São Bernardo com a compra da Willys. Para a Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores), o fim da produção “corrobora o que a entidade vem alertando há mais de um ano sobre a ociosidade local, global e a falta de medidas que reduzam o custo Brasil”.

A Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) concorda, e assinalou que este é movimento que deve ser olhado com atenção. “O custo de cada automóvel produzido aqui dobra apenas por conta dos impostos – e ainda há governantes que pensam no absurdo de aumentar tributos, como no caso da inacreditável alta do ICMS em São Paulo”,disse sobre necessidade de melhora do ambiente de negócios.

Por meio do Twitter, o governador João Doria (PSDB) lamentou a decisão da empresa, mas afirmou que no Estado “serão mantidos 700 trabalhadores em atividades no município de Tatuí e na Capital”, afirmou. Na mesma rede social, o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM), escreveu que a decisão demonstra “falta de credibilidade do governo brasileiro”.

O Ministério da Economia afirmou, em nota, que a decisão da montadora “destoa da forte recuperação observada na maioria dos setores da indústria no País, muitos já registrando resultados superiores ao período pré-crise.”

O Sindicato dos Metalúrgicos de Camaçari convocou assembleia para hoje, a fim de discutir situação com os 12 mil funcionários. “Após quase duas décadas lucrando em Camaçari, a Ford fecha as portas sem nenhuma negociação, numa situação lamentável e de completo desrespeito com os milhares de trabalhadores”, disse o presidente Julio Bonfim. Em Taubaté também haverá assembleia.

“A Ford vem tratando trabalhadores e sindicatos da mesma forma que agiu no Grande ABC, com surpresa e rapidez na forma como divulga as suas decisões, que deixam na mão milhares de trabalhadores”, disparou o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Wagner Santana, o Wagnão.


 



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