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Após 10 de anos de tragédia, Macuco ainda espera por socorro

 Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Deslizamento que matou cinco pessoas deixa rastros de medo e insegurança no morro de Mauá


Yasmin Assagra
Do Diário do Grande ABC

11/01/2021 | 07:00


 Inevitavelmente 2011 ficou marcado na vida de todos os moradores do Morro do Macuco, no Jardim Zaíra, em Mauá. Exatamente na data de hoje – 11 de janeiro – acontecia uma das maiores tragédias do Grande ABC, provocadas pelas fortes chuvas de início de ano que causaram série de deslizamentos. Só no município, cinco pessoas morreram e pelo menos 500 ficaram desabrigadas. Apesar da gravidade, nada mudou. Na verdade, aumentaram a insegurança e o temor de que novas tragédias façam mais vítimas.

Os transtornos gerados pela falta de estrutura das moradias se estendem desde 2002. Naquele ano, mãe e filha morreram em desabamento que destruiu pelo menos dez barracos no morro – a dona de casa Elizabete Moraes Ramos, 23 anos, e a filha Ana Carolina, 5. Na ocasião, o incidente deixou 30 moradores desabrigados. Nove anos depois, novo desmoronamento colocou ainda mais medo na população.

Atualmente, ao percorrer as vielas e desviar do mato alto que fazem parte do cenário daquela área, é impossível encontrar moradores que não tenham conhecimento das tragédias. Líder comunitária no Macuco, Isabel Sales, 45, conta que, de lá para cá, nada foi feito pelo poder público para resolver os inúmeros problemas que a comunidade enfrenta. “Aguardamos pela nova gestão para ter mudanças. O morro está repleto de deficiências e, com as invasões ainda acontecendo, o perigo triplica.”

Isabel também presenciou as tragédias que tiraram vidas desde 2002, inclusive, dois casos em 2019, quando quatro crianças morreram em decorrência de deslizamentos de terra – os irmãos Maria Heloísa dos Santos, 1, e Miguel dos Santos, 9, além de José Henrique Santos da Vitoria, 7, e Guilherme dos Santos da Vitoria, 4, também irmãos. “Entra ano, sai ano, e aqui fica esquecido. Só lembram quando chove e existe chance de desabar, fora quando é época de eleição”, reclama Isabel.

VIZINHOS
A dona de casa Daniela Aparecida Conceição, 34, se mudou para a Rua Ane Altomar, ao lado da casa que desabou em 2019, há pelo menos seis meses. Segundo ela, o preço pela moradia está dentro do seu orçamento, já que pagava R$ 700 de aluguel. “Moro com meus quatro filhos e um deles é deficiente. Infelizmente, vivo com medo de desabamento todos os dias, principalmente quando chove. Todo mundo sabe dos riscos, mas vamos para onde?”, questiona Daniela. “Eu não estaria aqui se não fosse pela minha condição”, completa.

Próxima de Daniela, a atendente Alessandra Tibu, 33, mora na região desde que nasceu e detalha que, durante todos esses anos, “só mudou para pior”. A esperança por um apartamento ou até urbanização do Macuco, promessa antiga ficou para a história. “É Deus quem cuida de nós. Não temos para onde ir e convivemos com os perigos daqui, lixo, sujeira, e o pior, os deslizamentos.”

A dona de casa Elisangela Aparecida, 43, e o marido, Cleber Campos Garcia, 43, vivem de bicos e com valor do Bolsa Família de R$ 89. Sonham com vida melhor, assim como todos os moradores do Macuco, mas sabem que é um objetivo distante. “Na situação em que estamos, não podemos gastar muito com aluguel. Hoje, as casas custam em torno de R$ 700 a R$ 800 por mês. Como vamos pagar? Vivemos com o risco de desabamento e, quem sabe, neste ano, vamos conseguir uma atenção da Prefeitura, já que ultimamente nem fiscalização tem passado por aqui para avaliar se há riscos.” completa Aparecida.

Moradores que presenciaram as tragédias já se mudaram do local
A família do estudante Paulo dos Santos, na época com 16 anos, uma das vítimas fatais, havia sobrevivido a outra tragédia. A perda da casa em que pai, mãe e cinco irmãos moravam, desmoronou em 2010. A alternativa foi a mudança para o Macuco. Após a morte do filho, eles deixaram o morro. Estão em outros bairros de Mauá, pois não havia como conviver com a dor deixada pela saudade. Na noite do deslizamento, Paulo dormia na parte de cima de uma beliche. Seu irmão, que estava no leito da parte debaixo, deixou o quarto e foi para a sala. Por volta da meia noite e meia a parede caiu, tirando a vida do estudante.

Márcio Souza, 41, irmão de Paulo, morava na casa ao lado, com a mulher e seus dois filhos e foi despertado pelo desmoronamento. O autônomo ainda lembra do acidente. “O barulho da parede eu não escutei. Mas depois, com a gritaria e pessoas correndo para ajudar, foi desesperador. Até porque, todos estavam em casa àquela hora”, conta Souza, que atualmente reside no bairro de Paranavaí, enquanto os demais integrantes de sua família estão no Parque das Flores. “Apesar de a Defesa Civil, na época, ter comentado que podíamos continuar (morando) lá, não ficamos. Não vamos voltar”, declara.

SALVA PELA FILHA
A auxiliar de limpeza Marluce Martins da Silva, 44, foi alertada pela filha mais velha, Thayna da Silva, 26 – na época com 16 – do perigo que se aproximava. Por volta das 19h, caia uma garoa fina e a garota veio da casa da avó, aos gritos, alertando a vizinhança para deixarem suas casas, porque a lama estava se aproximando. “O tempo que tivemos só deu para sair com a roupa do corpo e pegar alguns documentos”, lembra.

A casa de Marluce ficou soterrada por muito barro e restos de outras moradias que também foram destruídas pela avalanche. “Guarda-roupa, camas, sofás, perdemos tudo, caiu tudo de uma vez só”, lamenta. Desabrigada, Marluce foi acolhida por uma vizinha, que lhe ofereceu moradia até que ela, o marido e os seis filhos encontrassem outra residência. Lá ficaram por cinco meses. “Depois disso, fomos pagando aluguel em outros bairros, mas sabia que para lá (no Morro do Macuco) eu não voltaria nunca mais”, declara.

Hoje, Marluce vive com duas filhas e quatro netos no Zaíra 6, também em Mauá. A auxiliar é a única que trabalha na casa e ainda recebe um auxílio financeiro da CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano) de R$ 300. Segundo Marluce, o benefício é entregue até que ela venha a ser contemplada com um apartamento em algum programa habitacional. “Hoje, pago R$ 600 de aluguel, fora as demais despesas da casa e comida para todos. Está difícil, muito difícil”, lamenta.

Famílias esperam por apartamentos e pela ajuda do auxílio emergencial
Marluce, que vive de aluguel no Zaíra 6, comenta que, após perder sua casa em 2011 para o deslizamento, ainda não teve contato sobre seu possível apartamento e confessa que “não cria mais expectativas”. “Sei que muitas pessoas que perderam suas casas foram beneficiados com um apartamento e o resto, não. Como eu”, lamenta.

De acordo com a CDHU, em 2011, foi assinado um convênio com a Prefeitura para conceder auxílio moradia emergencial às 701 famílias vitimadas na época das chuvas. Dessas, atualmente, 152 continuam recebendo o benefício, 77 foram atendidas com unidades da CDHU e 472 tiveram o benefício cancelado, “seja por ter voltado ao imóvel após a desinterdição, por não atualizar o cadastro, óbito ou solicitação do município.” O valor de R$ 300 é repassado para a Prefeitura, que faz o pagamento às famílias.

Para atender novas demandas, o convênio com a administração indicou, em 2020, seis áreas que estão em análise, para verificar a viabilidade técnica para a construção de unidades habitacionais de interesse social. De acordo com a Prefeitura de Mauá, devido a posse da nova gestão e pouco tempo para colher informações sobre o Morro do Macuco, não foi possível responder a demanda do Diário até o fechamento desta edição.

VENDA
Outro problema observado pela líder comunitária, Isabel Sales, são as compras e vendas de terrenos dentro do Morro do Macuco. Os terrenos, que podem ser encontrados pelos valores de R$ 15 mil a R$ 70 mil, são atraentes para quem não quer viver de aluguel.

Porém, segundo Isabel, isso continua sendo um perigo para novos moradores. “Nós não queremos ser pessimistas, mas com terrenos a venda, são novas tragédias que podem acontecer. Nós encontramos muitas pessoas que não querem sair do morro e nem podem pelas condições, mas muitas saem e deixam o terreno para venda”, finaliza Sales. “Isso é um dos meus pedidos para fiscalização da nova gestão”, conclui.



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Após 10 de anos de tragédia, Macuco ainda espera por socorro

Deslizamento que matou cinco pessoas deixa rastros de medo e insegurança no morro de Mauá

Yasmin Assagra
Do Diário do Grande ABC

11/01/2021 | 07:00


 Inevitavelmente 2011 ficou marcado na vida de todos os moradores do Morro do Macuco, no Jardim Zaíra, em Mauá. Exatamente na data de hoje – 11 de janeiro – acontecia uma das maiores tragédias do Grande ABC, provocadas pelas fortes chuvas de início de ano que causaram série de deslizamentos. Só no município, cinco pessoas morreram e pelo menos 500 ficaram desabrigadas. Apesar da gravidade, nada mudou. Na verdade, aumentaram a insegurança e o temor de que novas tragédias façam mais vítimas.

Os transtornos gerados pela falta de estrutura das moradias se estendem desde 2002. Naquele ano, mãe e filha morreram em desabamento que destruiu pelo menos dez barracos no morro – a dona de casa Elizabete Moraes Ramos, 23 anos, e a filha Ana Carolina, 5. Na ocasião, o incidente deixou 30 moradores desabrigados. Nove anos depois, novo desmoronamento colocou ainda mais medo na população.

Atualmente, ao percorrer as vielas e desviar do mato alto que fazem parte do cenário daquela área, é impossível encontrar moradores que não tenham conhecimento das tragédias. Líder comunitária no Macuco, Isabel Sales, 45, conta que, de lá para cá, nada foi feito pelo poder público para resolver os inúmeros problemas que a comunidade enfrenta. “Aguardamos pela nova gestão para ter mudanças. O morro está repleto de deficiências e, com as invasões ainda acontecendo, o perigo triplica.”

Isabel também presenciou as tragédias que tiraram vidas desde 2002, inclusive, dois casos em 2019, quando quatro crianças morreram em decorrência de deslizamentos de terra – os irmãos Maria Heloísa dos Santos, 1, e Miguel dos Santos, 9, além de José Henrique Santos da Vitoria, 7, e Guilherme dos Santos da Vitoria, 4, também irmãos. “Entra ano, sai ano, e aqui fica esquecido. Só lembram quando chove e existe chance de desabar, fora quando é época de eleição”, reclama Isabel.

VIZINHOS
A dona de casa Daniela Aparecida Conceição, 34, se mudou para a Rua Ane Altomar, ao lado da casa que desabou em 2019, há pelo menos seis meses. Segundo ela, o preço pela moradia está dentro do seu orçamento, já que pagava R$ 700 de aluguel. “Moro com meus quatro filhos e um deles é deficiente. Infelizmente, vivo com medo de desabamento todos os dias, principalmente quando chove. Todo mundo sabe dos riscos, mas vamos para onde?”, questiona Daniela. “Eu não estaria aqui se não fosse pela minha condição”, completa.

Próxima de Daniela, a atendente Alessandra Tibu, 33, mora na região desde que nasceu e detalha que, durante todos esses anos, “só mudou para pior”. A esperança por um apartamento ou até urbanização do Macuco, promessa antiga ficou para a história. “É Deus quem cuida de nós. Não temos para onde ir e convivemos com os perigos daqui, lixo, sujeira, e o pior, os deslizamentos.”

A dona de casa Elisangela Aparecida, 43, e o marido, Cleber Campos Garcia, 43, vivem de bicos e com valor do Bolsa Família de R$ 89. Sonham com vida melhor, assim como todos os moradores do Macuco, mas sabem que é um objetivo distante. “Na situação em que estamos, não podemos gastar muito com aluguel. Hoje, as casas custam em torno de R$ 700 a R$ 800 por mês. Como vamos pagar? Vivemos com o risco de desabamento e, quem sabe, neste ano, vamos conseguir uma atenção da Prefeitura, já que ultimamente nem fiscalização tem passado por aqui para avaliar se há riscos.” completa Aparecida.

Moradores que presenciaram as tragédias já se mudaram do local
A família do estudante Paulo dos Santos, na época com 16 anos, uma das vítimas fatais, havia sobrevivido a outra tragédia. A perda da casa em que pai, mãe e cinco irmãos moravam, desmoronou em 2010. A alternativa foi a mudança para o Macuco. Após a morte do filho, eles deixaram o morro. Estão em outros bairros de Mauá, pois não havia como conviver com a dor deixada pela saudade. Na noite do deslizamento, Paulo dormia na parte de cima de uma beliche. Seu irmão, que estava no leito da parte debaixo, deixou o quarto e foi para a sala. Por volta da meia noite e meia a parede caiu, tirando a vida do estudante.

Márcio Souza, 41, irmão de Paulo, morava na casa ao lado, com a mulher e seus dois filhos e foi despertado pelo desmoronamento. O autônomo ainda lembra do acidente. “O barulho da parede eu não escutei. Mas depois, com a gritaria e pessoas correndo para ajudar, foi desesperador. Até porque, todos estavam em casa àquela hora”, conta Souza, que atualmente reside no bairro de Paranavaí, enquanto os demais integrantes de sua família estão no Parque das Flores. “Apesar de a Defesa Civil, na época, ter comentado que podíamos continuar (morando) lá, não ficamos. Não vamos voltar”, declara.

SALVA PELA FILHA
A auxiliar de limpeza Marluce Martins da Silva, 44, foi alertada pela filha mais velha, Thayna da Silva, 26 – na época com 16 – do perigo que se aproximava. Por volta das 19h, caia uma garoa fina e a garota veio da casa da avó, aos gritos, alertando a vizinhança para deixarem suas casas, porque a lama estava se aproximando. “O tempo que tivemos só deu para sair com a roupa do corpo e pegar alguns documentos”, lembra.

A casa de Marluce ficou soterrada por muito barro e restos de outras moradias que também foram destruídas pela avalanche. “Guarda-roupa, camas, sofás, perdemos tudo, caiu tudo de uma vez só”, lamenta. Desabrigada, Marluce foi acolhida por uma vizinha, que lhe ofereceu moradia até que ela, o marido e os seis filhos encontrassem outra residência. Lá ficaram por cinco meses. “Depois disso, fomos pagando aluguel em outros bairros, mas sabia que para lá (no Morro do Macuco) eu não voltaria nunca mais”, declara.

Hoje, Marluce vive com duas filhas e quatro netos no Zaíra 6, também em Mauá. A auxiliar é a única que trabalha na casa e ainda recebe um auxílio financeiro da CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano) de R$ 300. Segundo Marluce, o benefício é entregue até que ela venha a ser contemplada com um apartamento em algum programa habitacional. “Hoje, pago R$ 600 de aluguel, fora as demais despesas da casa e comida para todos. Está difícil, muito difícil”, lamenta.

Famílias esperam por apartamentos e pela ajuda do auxílio emergencial
Marluce, que vive de aluguel no Zaíra 6, comenta que, após perder sua casa em 2011 para o deslizamento, ainda não teve contato sobre seu possível apartamento e confessa que “não cria mais expectativas”. “Sei que muitas pessoas que perderam suas casas foram beneficiados com um apartamento e o resto, não. Como eu”, lamenta.

De acordo com a CDHU, em 2011, foi assinado um convênio com a Prefeitura para conceder auxílio moradia emergencial às 701 famílias vitimadas na época das chuvas. Dessas, atualmente, 152 continuam recebendo o benefício, 77 foram atendidas com unidades da CDHU e 472 tiveram o benefício cancelado, “seja por ter voltado ao imóvel após a desinterdição, por não atualizar o cadastro, óbito ou solicitação do município.” O valor de R$ 300 é repassado para a Prefeitura, que faz o pagamento às famílias.

Para atender novas demandas, o convênio com a administração indicou, em 2020, seis áreas que estão em análise, para verificar a viabilidade técnica para a construção de unidades habitacionais de interesse social. De acordo com a Prefeitura de Mauá, devido a posse da nova gestão e pouco tempo para colher informações sobre o Morro do Macuco, não foi possível responder a demanda do Diário até o fechamento desta edição.

VENDA
Outro problema observado pela líder comunitária, Isabel Sales, são as compras e vendas de terrenos dentro do Morro do Macuco. Os terrenos, que podem ser encontrados pelos valores de R$ 15 mil a R$ 70 mil, são atraentes para quem não quer viver de aluguel.

Porém, segundo Isabel, isso continua sendo um perigo para novos moradores. “Nós não queremos ser pessimistas, mas com terrenos a venda, são novas tragédias que podem acontecer. Nós encontramos muitas pessoas que não querem sair do morro e nem podem pelas condições, mas muitas saem e deixam o terreno para venda”, finaliza Sales. “Isso é um dos meus pedidos para fiscalização da nova gestão”, conclui.

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