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Policiais civis de São Paulo têm piores salários do Brasil

Divulgação Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Delegados do Estado mais rico do País ocupam a 27ª posição no ranking, com R$ 10,3 mil; os do Mato Grosso ganham R$ 24,4 mil


Bia Moço
Do Diário do Grande ABC

10/01/2021 | 07:00


 Não bastasse o deficit de profissionais que atuam na Polícia Civil do Estado – 14.448 cargos vagos e cerca de 761 só nas delegacias da região – , o salário da categoria foi novamente elencado pelo Sindpesp (Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo) como o mais baixo no ranking de todo o País, como tem ocorrido, pelo menos, nos últimos dez anos. Na carreira de delegado, por exemplo, o valor de São Paulo é o menor do País, ficando com a 27ª posição para aqueles que decidirem ingressar na profissão neste ano, com vencimento de R$ 10.382,48 (veja o ranking completo na tabela ao lado).

Conforme o levantamento, os delegados mais bem pagos são os que atuam no Mato Grosso, com salário inicial de R$ 24.451,11. Já nos cargos de investigador e escrivão, os proventos do Estado ocupam o 23º e 24º lugares, respectivamente, com retirada inicial de R$ 3.931,18 em ambas as profissões; no topo está o Amazonas, que paga R$ 9.613,14.

Os profissionais da área culpam o governo estadual pela defasagem no valor, e afirmam que a quantia não condiz com as situações financeira, criminal e populacional do Estado, considerado o mais rico da federação. “No mesmo mês em que o Sindpesp chegou ao lamentável resultado que colocou os delegados paulistas na lanterna dos salários, o governo do Estado mandou para a Assembleia Legislativa um projeto de orçamento de R$ 246,3 bilhões para 2021, que coloca São Paulo disparado como o mais rico do Brasil”, disse a presidente do Sindpesp, Raquel Kobashi Gallinat – o segundo Estado com mais recursos, Minas Gerais, prevê receita de R$ 121,9 bilhões, menos da metade do valor paulista.

Para Raquel, os dados comprovam a situação sucateada da Polícia Civil do Estado e a desvalorização da segurança pública por parte do governo, em desmonte da categoria que afirma ocorrer há mais de 20 anos. “A situação se agravou de forma vertiginosa na gestão (João) Doria (PSDB). De forma vergonhosa, o Estado mais rico não valoriza as pessoas que arriscam suas vidas diariamente para defender a população paulista”, reforçou a profissional.

Raquel pontua que o baixo salário é só uma ponta dos problemas. “Faltam 14.448 policiais civis em São Paulo. Ou seja, trabalhamos com recursos humanos 34,5% abaixo do número ideal, o que causa sobrecarga de trabalho, estresse e reflete diretamente na qualidade da segurança pública para o povo paulista”, explica a presidente do Sindpesp.

Raquel criticou ainda que, durante a campanha eleitoral (em 2018), Doria prometeu que os policiais paulistas estariam entre os mais bem remunerados do País. “Em seu primeiro ano à frente do Estado, não houve alteração nos salários. Em janeiro de 2020, foi oferecida uma recomposição salarial ínfima, de 5%, mas que na realidade resultou em perda salarial, em função do aumento da alíquota da Previdência estadual (de 11% para 14%).”

“Com o início da pandemia, o governador passou a justificar que não poderia conceder reposição salarial, apesar de os policiais estarem trabalhando na linha de frente, nas ruas, enfrentando os riscos inerentes da profissão e a Covid-19”, frisou a presidente do Sindpesp.

“Pelo descaso do governo, a população do Estado de São Paulo está à mercê da criminalidade, apesar dos esforços do efetivo da Polícia Civil. Não temos condições para fazer o trabalho que a população de São Paulo merece e precisa, que é um trabalho de excelência”, completou a presidente da entidade.Questionada, a SSP (Secretaria da Segurança Pública) estadual não respondeu até o fechamento desta edição.

Agentes reclamam de sobrecarga
Policiais ouvidos pelo Diário em condição de anonimato destacaram que o descaso do governo com o setor resulta em mais problemas do que a população imagina. O deficit, por exemplo, lhes rende sobrecarga de trabalho, muitos atuando em até três delegacias simultaneamente, o que, conforme avaliam, “não compensa o esforço” diante da baixa remuneração.

“Trabalhamos mais horas, sem ganhar adicional. Nos revezamos em duas ou mais delegacias e, além de tudo, acumulamos crimes para investigar”, detalhou um investigador, revelando que o baixo efetivo não dá conta de solucionar todos os casos. “Depois, se não tem resolução (do crime), a população culpa a polícia, mas não pensa que temos muitos casos para poucos agentes”, acrescentou.

“Se alguém me perguntar sobre ingressar na carreira de policial civil, seja ela qual for, eu diria que não vale a pena. Trabalhamos demais, somos altamente criticados, e não ganhamos pelo tanto que fazemos, tanto na quantidade de trabalho quanto pelo risco de vida que corremos”, afirmou outro investigador.

Um escrivão relatou que a morosidade nos serviços prestados pela polícia, até mesmo para registrar uma ocorrência pessoalmente, também é resultado da precarização do trabalho e da estrutura. “Além disso, boa parte das delegacias do Grande ABC carece de manutenção, sendo que muitas estão montadas de maneira totalmente improvisada”, reclamou, dizendo ainda que os novos equipamentos que o governo anuncia entregar não suprem a necessidade de todo o Estado. “Trabalhamos com coisas velhas”, afirmou.

Já o perito ouvido pela reportagem contou que a polícia tem priorizado crimes graves, justificando a demora para a perícia técnico-científica chegar nos locais. “Temos a difícil tarefa de escolher e julgar o que é mais importante. Mas todo crime é importante. Nos culpamos muitas vezes por deixar alguma coisa, elencada menos importante entre as outras, para trás”, lamentou.

Presidente de associação diz que situação desmotiva
O presidente da Adpesp (Associação dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo), Gustavo Mesquita, avalia que o baixo salário pago, não apenas aos delegados, mas em todas as carreiras da Polícia Civil do Estado, é também um dos motivos que desencantam pessoas que pensam em ingressar na área, e cobra medidas do governo para valorização dos profissionais de segurança pública.

“Temos bons policiais que deixam a carreira rumo a outros Estados que oferecem condições melhores. Além disso, os baixos salários pagos no Estado não tornam a carreira atrativa”, afirmou o profissional, pontuando que se o governo não resolver a situação, seguirá no mesmo ciclo que perdura “há décadas”. “Seguiremos enxugando gelo”, disse o delegado.

“Os piores salários da federação, pagos aos delegados de polícia paulistas, são o símbolo do descaso do governo do Estado para com sua Polícia Civil, que é aquela que tem atribuição para investigar o próprio (governo), se necessário”, destacou.

Reeleito em dezembro para presidir a associação, o delegado afirma que em seu segundo mandato não deixará de cobrar por melhorias, cujas falhas respingam, sobretudo, na qualidade do serviço prestado à população. “Seguiremos expondo essas verdades, e demonstrando à população que é ela a principal prejudicada com essa política de desvalorização da Polícia Civil”, reforçou.



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Policiais civis de São Paulo têm piores salários do Brasil

Delegados do Estado mais rico do País ocupam a 27ª posição no ranking, com R$ 10,3 mil; os do Mato Grosso ganham R$ 24,4 mil

Bia Moço
Do Diário do Grande ABC

10/01/2021 | 07:00


 Não bastasse o deficit de profissionais que atuam na Polícia Civil do Estado – 14.448 cargos vagos e cerca de 761 só nas delegacias da região – , o salário da categoria foi novamente elencado pelo Sindpesp (Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo) como o mais baixo no ranking de todo o País, como tem ocorrido, pelo menos, nos últimos dez anos. Na carreira de delegado, por exemplo, o valor de São Paulo é o menor do País, ficando com a 27ª posição para aqueles que decidirem ingressar na profissão neste ano, com vencimento de R$ 10.382,48 (veja o ranking completo na tabela ao lado).

Conforme o levantamento, os delegados mais bem pagos são os que atuam no Mato Grosso, com salário inicial de R$ 24.451,11. Já nos cargos de investigador e escrivão, os proventos do Estado ocupam o 23º e 24º lugares, respectivamente, com retirada inicial de R$ 3.931,18 em ambas as profissões; no topo está o Amazonas, que paga R$ 9.613,14.

Os profissionais da área culpam o governo estadual pela defasagem no valor, e afirmam que a quantia não condiz com as situações financeira, criminal e populacional do Estado, considerado o mais rico da federação. “No mesmo mês em que o Sindpesp chegou ao lamentável resultado que colocou os delegados paulistas na lanterna dos salários, o governo do Estado mandou para a Assembleia Legislativa um projeto de orçamento de R$ 246,3 bilhões para 2021, que coloca São Paulo disparado como o mais rico do Brasil”, disse a presidente do Sindpesp, Raquel Kobashi Gallinat – o segundo Estado com mais recursos, Minas Gerais, prevê receita de R$ 121,9 bilhões, menos da metade do valor paulista.

Para Raquel, os dados comprovam a situação sucateada da Polícia Civil do Estado e a desvalorização da segurança pública por parte do governo, em desmonte da categoria que afirma ocorrer há mais de 20 anos. “A situação se agravou de forma vertiginosa na gestão (João) Doria (PSDB). De forma vergonhosa, o Estado mais rico não valoriza as pessoas que arriscam suas vidas diariamente para defender a população paulista”, reforçou a profissional.

Raquel pontua que o baixo salário é só uma ponta dos problemas. “Faltam 14.448 policiais civis em São Paulo. Ou seja, trabalhamos com recursos humanos 34,5% abaixo do número ideal, o que causa sobrecarga de trabalho, estresse e reflete diretamente na qualidade da segurança pública para o povo paulista”, explica a presidente do Sindpesp.

Raquel criticou ainda que, durante a campanha eleitoral (em 2018), Doria prometeu que os policiais paulistas estariam entre os mais bem remunerados do País. “Em seu primeiro ano à frente do Estado, não houve alteração nos salários. Em janeiro de 2020, foi oferecida uma recomposição salarial ínfima, de 5%, mas que na realidade resultou em perda salarial, em função do aumento da alíquota da Previdência estadual (de 11% para 14%).”

“Com o início da pandemia, o governador passou a justificar que não poderia conceder reposição salarial, apesar de os policiais estarem trabalhando na linha de frente, nas ruas, enfrentando os riscos inerentes da profissão e a Covid-19”, frisou a presidente do Sindpesp.

“Pelo descaso do governo, a população do Estado de São Paulo está à mercê da criminalidade, apesar dos esforços do efetivo da Polícia Civil. Não temos condições para fazer o trabalho que a população de São Paulo merece e precisa, que é um trabalho de excelência”, completou a presidente da entidade.Questionada, a SSP (Secretaria da Segurança Pública) estadual não respondeu até o fechamento desta edição.

Agentes reclamam de sobrecarga
Policiais ouvidos pelo Diário em condição de anonimato destacaram que o descaso do governo com o setor resulta em mais problemas do que a população imagina. O deficit, por exemplo, lhes rende sobrecarga de trabalho, muitos atuando em até três delegacias simultaneamente, o que, conforme avaliam, “não compensa o esforço” diante da baixa remuneração.

“Trabalhamos mais horas, sem ganhar adicional. Nos revezamos em duas ou mais delegacias e, além de tudo, acumulamos crimes para investigar”, detalhou um investigador, revelando que o baixo efetivo não dá conta de solucionar todos os casos. “Depois, se não tem resolução (do crime), a população culpa a polícia, mas não pensa que temos muitos casos para poucos agentes”, acrescentou.

“Se alguém me perguntar sobre ingressar na carreira de policial civil, seja ela qual for, eu diria que não vale a pena. Trabalhamos demais, somos altamente criticados, e não ganhamos pelo tanto que fazemos, tanto na quantidade de trabalho quanto pelo risco de vida que corremos”, afirmou outro investigador.

Um escrivão relatou que a morosidade nos serviços prestados pela polícia, até mesmo para registrar uma ocorrência pessoalmente, também é resultado da precarização do trabalho e da estrutura. “Além disso, boa parte das delegacias do Grande ABC carece de manutenção, sendo que muitas estão montadas de maneira totalmente improvisada”, reclamou, dizendo ainda que os novos equipamentos que o governo anuncia entregar não suprem a necessidade de todo o Estado. “Trabalhamos com coisas velhas”, afirmou.

Já o perito ouvido pela reportagem contou que a polícia tem priorizado crimes graves, justificando a demora para a perícia técnico-científica chegar nos locais. “Temos a difícil tarefa de escolher e julgar o que é mais importante. Mas todo crime é importante. Nos culpamos muitas vezes por deixar alguma coisa, elencada menos importante entre as outras, para trás”, lamentou.

Presidente de associação diz que situação desmotiva
O presidente da Adpesp (Associação dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo), Gustavo Mesquita, avalia que o baixo salário pago, não apenas aos delegados, mas em todas as carreiras da Polícia Civil do Estado, é também um dos motivos que desencantam pessoas que pensam em ingressar na área, e cobra medidas do governo para valorização dos profissionais de segurança pública.

“Temos bons policiais que deixam a carreira rumo a outros Estados que oferecem condições melhores. Além disso, os baixos salários pagos no Estado não tornam a carreira atrativa”, afirmou o profissional, pontuando que se o governo não resolver a situação, seguirá no mesmo ciclo que perdura “há décadas”. “Seguiremos enxugando gelo”, disse o delegado.

“Os piores salários da federação, pagos aos delegados de polícia paulistas, são o símbolo do descaso do governo do Estado para com sua Polícia Civil, que é aquela que tem atribuição para investigar o próprio (governo), se necessário”, destacou.

Reeleito em dezembro para presidir a associação, o delegado afirma que em seu segundo mandato não deixará de cobrar por melhorias, cujas falhas respingam, sobretudo, na qualidade do serviço prestado à população. “Seguiremos expondo essas verdades, e demonstrando à população que é ela a principal prejudicada com essa política de desvalorização da Polícia Civil”, reforçou.

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