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Tombo de R$ 5,6 bilhões em ‘W’ do PIB regional


Jefferson José da Conceição
Gisele Yamauchi

01/01/2021 | 00:05


Em 2020, a pandemia da Covid-19 gerou fortes impactos na saúde e na economia no mundo inteiro. O Grande ABC não fugiu à regra. Desde o começo da pandemia, o Brasil perdeu 194 mil vidas em razão da doença. No Grande ABC, até agora, foram perdidas 3.500 vidas. No País, a pandemia adentra 2021 ainda sob a falta de coordenação do governo federal no enfrentamento da doença e o inconcebível atraso da vacinação.

Na economia, o Brasil apresentou redução do PIB (Produto Interno Bruto) de 4,4% (estimativa Focus). Admitindo-se a hipótese de que a economia do Grande ABC (sete cidades) tenha retraído na mesma magnitude, a perda do PIB regional teria sido de R$ 5,6 bilhões. Em simulações que fizemos, o PIB regional de 2020 ficou próximo de R$ 122,7 bilhões, contra R$ 128,3 bilhões em 2019. Um tombo significativo. A retração regional pode ter sido até maior do que a média nacional, em razão do forte impacto da pandemia sobre a atividade industrial e o comércio exterior, ambos com peso expressivo na atividade local. Isso em uma região que já vem sofrendo desde 2015 com processo acentuado de queda do PIB.

O tombo de 2020 deu-se em formato de ‘W’, isto é, com pequena recuperação no primeiro bimestre após difícil ano de 2019; seguida de queda de março a maio; retomada a partir de meados do ano acompanhando a liberalização das atividades econômicas e o aumento do consumo; nova oscilação e preocupação no fim do ano com o recrudescimento do número de contagiados e de mortos da doença no País. No início da pandemia, já havíamos alertado para a possibilidade desse movimento em ‘W’.

Marcado pela presença da complexa cadeia de produção automotiva, o Grande ABC repercute os efeitos das mudanças estruturais e dos movimentos conjunturais desta cadeia. O setor na região há anos sofre com a competição de países asiáticos e das novas áreas de produção no Brasil, a crise da mobilidade urbana e os novos hábitos e preferências dos consumidores. A pandemia acirrou a crise, já que a produção de caminhões – que hoje tem peso elevado na produção local – foi atingida pela queda do PIB, pessimismo e incertezas quanto ao futuro por parte dos compradores. Já as vendas de automóveis flutuam bastante em razão, entre outros, do crescimento da renda nacional e do crédito. A renda caiu de modo acentuado em 2020 e o crédito por si só não foi o suficiente para estimular o consumo. Infelizmente, não há estatísticas públicas sobre o valor e a produção física automotiva do Grande ABC. Assumindo-se a hipótese de que a região acompanhou a variação nacional, a produção de caminhões, de janeiro a dezembro de 2020, teria sido reduzida em cerca de 25% no Grande ABC. Já a produção de autoveículos teria tido retração de 35% e o faturamento das autopeças teria diminuído 26%.

No contexto de uma economia internacional com fluxos comerciais dificultados e de forte contração das economias, as exportações do Grande ABC reduziram-se de US$ 3,8 bilhões em 2019 para US$ 2,6 bilhões (queda de 31%) em 2020. As importações também caíram bastante, de R$ 3,8 bilhões para R$ 2,2 bilhões.

Os dados do mercado de trabalho com carteira de trabalho assinada em 2020, extraídos do Caged, Ministério da Economia, mostram a evolução em ‘W’ a que fizemos menção. No Grande ABC, o saldo líquido de empregos, que é a diferença entre admitidos e demitidos, foi positivo nos meses de janeiro (770 postos) e fevereiro (1.555); negativo em março (-5.626), abril (-20.224), maio (-8.021), junho (-3.358) e julho (-902); e voltou a ser positivo em agosto (2.504), setembro (5.135), outubro (6.296) e novembro (9.892). Pontue-se que os dados de desligamentos identificados pelo Caged podem estar apresentando alguma subnotificação, como apontam alguns, devido à falta de atualização correta das empresas durante a pandemia e das mudanças metodológicas apresentadas pelo Caged no período recente. No acumulado de janeiro a novembro, a região apresentou redução líquida de 11.979 postos de trabalho.

O coautor deste texto, no início da pandemia, publicou a proposta defendendo o confinamento em casa, combinado com a manutenção da renda, intenso uso do banco de horas e empréstimos às empresas a juros zero. O governo preferiu o decreto viabilizando acordos de redução de salário e jornada, bem como a suspensão de contratos. No Grande ABC, esses acordos, em 2020, envolveram 240 mil trabalhadores (140,5 mil em reduções salariais e 99,5 mil em suspensões de contratos). Os acordos ajudaram a diminuir o impacto sobre o desemprego na região, mas representaram perdas de rendimento e circulação na economia que podem ter chegado a R$ 1,8 bilhão.

Por fim, cabe ter claro que a falta de coordenação das ações do Brasil frente à pandemia, gerando o movimento em ‘W’, tem custo muito elevado para o País, pois impede qualquer política de retomada sustentada da economia brasileira. É impossível, num cenário de incerteza e de alteração constante das regras do jogo, o planejamento da produção, do consumo e dos investimentos. É preferível planejamento efetivo e sério no combate à pandemia do que este ‘cada um por si’, que só nos mantém sem rumo em face de tão grave quadro pelo qual passamos.
 



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