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Elas driblam o trânsito

Denis Maciel/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

‘Motogirls’ relatam o preconceito que têm de enfrentar quando ingressam em profissão dominada por homens


Yasmin Assagra
do Diário do Grande ABC

14/12/2020 | 07:22


Diante de um cenário no qual os homens predominam, elas, de um tempo para cá, têm conseguido se destacar. O que parece diferente e ainda rende muitos comentários é o fato de muitas mulheres terem abraçado a profissão de motogirl, número que vem crescendo ano a ano, mas principalmente agora, por causa pandemia. Afinal, aumentou o desemprego e, com a quarentena, o delivery ganhou espaço.

Mas o universo em cima de duas rodas acaba tendo também o lado negativo para profissionais que são apaixonadas pelo que fazem. De acordo com elas, o medo e a insegurança são parte da rotina diária. Para piorar, ainda são alvo de preconceitos e desrespeito em horário de trabalho. Mesmo assim, não escondem a admiração pela função com a qual garantem o sustento da família.

Bruna Oliveira, 29 anos, moradora do bairro Rudge Ramos, em São Bernardo, é motogirl há quase dois anos. Iniciou as entregas em janeiro do ano passado, após perder o emprego em loja de roupas, onde trabalhou por sete anos. Na época, o desemprego atingiu em cheio a família, já que sua avó ainda precisava de cuidados especiais para tratamento de câncer. Bruna ajudava nos remédios e nas contas de casa, e, por isso, não pensou duas vezes em se aventurar sobre a moto no meio do trânsito.

“Eu me vi em um momento muito difícil, e como já tinha uma moto, fui para a rua, literalmente. Antes, não gostava, pois para mim era uma loucura, mas hoje gosto e já me acostumei, inclusive com a rotina, que é também um desafio no meio dos carros”, conta a profissional. “Ainda assim, até hoje minha mãe não se acostumou e morre de medo, mas precisamos trabalhar, não tem jeito”, observa.

Não é à toa que a mãe de Bruna, a vendedora autônoma Maria Valdessir de Oliveira, 61, fica preocupada com seu trabalho. Bruna já sofreu dois acidentes desde que virou motogirl, sem contar com os “perrengues” que a profissão ainda oferece.

A motogirl de São Bernardo conta que no fim do mês passado foi fazer entrega em um condomínio fechado. Quando chegou, o rapaz que fez o pedido apareceu na portaria de carro para buscar a encomenda. Para espanto de Bruna, ele vestia apenas peças íntimas. “Se fosse um rapaz, será que ele faria isso? Fiquei muito sem graça e conversei o essencial por causa da compra. É chato, é revoltante, mas eu relevo, finjo que não vejo e não ouço.”

A moradora de São Bernardo também já se deparou com clientes que fizeram o pedido e não quiseram pagar na hora da entrega. “Logo quando comecei a trabalhar, fui realizar a entrega, o rapaz disse que estava sem dinheiro e que era para eu procurar o suporte do aplicativo, provavelmente, para jogar a culpa em mim. Ele estava agressivo e gritando muito. Mas informei o acontecido para o aplicativo, que entendeu toda situação.”

EXPERIÊNCIA
Denilsa Teixeira, 39, moradora da Vila Alice, em Santo André, trabalha com moto desde os 18 anos e não se vê com outro veículo para trabalhar. Denilsa tem adega de bebidas e loja de roupas, e diz precisar da moto para fazer entregas. Ela observa que o desrespeito e a falta de educação ainda fazem parte do dia a dia das profissionais.

“Vejo que ainda são motoristas de carros que se irritam com a gente. Não nos deixam passar, não facilitam o espaço que precisamos, e isso acaba gerando muita discussão, por falta dessa paciência, o que infelizmente não é esporádico, é todos os dias”, lamenta a motogirl.

Em todo esse tempo que usa a moto, Denilsa sofreu um acidente ao ser fechada por um veículo, mas além dos ralados, não teve ferimentos mais graves. “Acho que por ser mulher, infelizmente, ainda existe preconceito e muita falta de educação. Mas sou rude, sou fechada e não dou abertura, se for para bater de frente, a gente discute. Todos nós, não só eu como mulher, mas no geral, todos os profissionais que utilizam a moto para trabalhar”, finaliza.

Profissionais destacam boa receptividade
Com muita seriedade e cautela, as motogirls se dedicam a fazer entregas nos centros urbanos. Apesar de ainda existir série de situações difíceis, no geral, as profissionais avaliam que os serviços são muitos elogiados pelos clientes. E comentam que cada vez mais conhecem mulheres que encaram o desafio em duas rodas.

A motorgirl Denilsa Teixeira destaca que, em muitos casos, a mulher acaba sendo mais cuidadosa e prudente no trânsito. “Mesmo diante de clientes ou até de motoboys, a receptividade é boa. Nós, tanto mulher quanto homem, fazemos os serviços acontecerem para as entregas. Mas além das coisas ruins, também ouvimos palavras de incentivo e carinho sim”, comenta.

Com os serviços de motogirl dando certo, Bruna Oliveira expandiu o serviço de entregas e fez parcerias com loja de bolo e três lojas de roupas, que realiza no período em que não está trabalhando pelo aplicativo.

“Principalmente agora, na pandemia, aceitei esses trabalhos como renda extra e me adaptei. Ainda mais por ser loja que realiza entregas para outras mulheres, elas se sentem mais seguras quando vêem uma mulher chegando de moto, e isso é muito legal”, comenta a profissional.

Bruna trabalha todos os dias pelo aplicativo, das 11h às 14h30, e à tarde realiza as entregas com as parcerias e retorna ao aplicativo das 18h às 22h, realizando por dia cerca de 18 a 22 entregas. “Hoje não me vejo trabalhando em escritório, por exemplo. Já me acostumei com essa rotina de loucura. Mas, futuramente, tenho sonhos de montar algum comércio próprio, mas não vou abandonar a moto.” 



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Elas driblam o trânsito

‘Motogirls’ relatam o preconceito que têm de enfrentar quando ingressam em profissão dominada por homens

Yasmin Assagra
do Diário do Grande ABC

14/12/2020 | 07:22


Diante de um cenário no qual os homens predominam, elas, de um tempo para cá, têm conseguido se destacar. O que parece diferente e ainda rende muitos comentários é o fato de muitas mulheres terem abraçado a profissão de motogirl, número que vem crescendo ano a ano, mas principalmente agora, por causa pandemia. Afinal, aumentou o desemprego e, com a quarentena, o delivery ganhou espaço.

Mas o universo em cima de duas rodas acaba tendo também o lado negativo para profissionais que são apaixonadas pelo que fazem. De acordo com elas, o medo e a insegurança são parte da rotina diária. Para piorar, ainda são alvo de preconceitos e desrespeito em horário de trabalho. Mesmo assim, não escondem a admiração pela função com a qual garantem o sustento da família.

Bruna Oliveira, 29 anos, moradora do bairro Rudge Ramos, em São Bernardo, é motogirl há quase dois anos. Iniciou as entregas em janeiro do ano passado, após perder o emprego em loja de roupas, onde trabalhou por sete anos. Na época, o desemprego atingiu em cheio a família, já que sua avó ainda precisava de cuidados especiais para tratamento de câncer. Bruna ajudava nos remédios e nas contas de casa, e, por isso, não pensou duas vezes em se aventurar sobre a moto no meio do trânsito.

“Eu me vi em um momento muito difícil, e como já tinha uma moto, fui para a rua, literalmente. Antes, não gostava, pois para mim era uma loucura, mas hoje gosto e já me acostumei, inclusive com a rotina, que é também um desafio no meio dos carros”, conta a profissional. “Ainda assim, até hoje minha mãe não se acostumou e morre de medo, mas precisamos trabalhar, não tem jeito”, observa.

Não é à toa que a mãe de Bruna, a vendedora autônoma Maria Valdessir de Oliveira, 61, fica preocupada com seu trabalho. Bruna já sofreu dois acidentes desde que virou motogirl, sem contar com os “perrengues” que a profissão ainda oferece.

A motogirl de São Bernardo conta que no fim do mês passado foi fazer entrega em um condomínio fechado. Quando chegou, o rapaz que fez o pedido apareceu na portaria de carro para buscar a encomenda. Para espanto de Bruna, ele vestia apenas peças íntimas. “Se fosse um rapaz, será que ele faria isso? Fiquei muito sem graça e conversei o essencial por causa da compra. É chato, é revoltante, mas eu relevo, finjo que não vejo e não ouço.”

A moradora de São Bernardo também já se deparou com clientes que fizeram o pedido e não quiseram pagar na hora da entrega. “Logo quando comecei a trabalhar, fui realizar a entrega, o rapaz disse que estava sem dinheiro e que era para eu procurar o suporte do aplicativo, provavelmente, para jogar a culpa em mim. Ele estava agressivo e gritando muito. Mas informei o acontecido para o aplicativo, que entendeu toda situação.”

EXPERIÊNCIA
Denilsa Teixeira, 39, moradora da Vila Alice, em Santo André, trabalha com moto desde os 18 anos e não se vê com outro veículo para trabalhar. Denilsa tem adega de bebidas e loja de roupas, e diz precisar da moto para fazer entregas. Ela observa que o desrespeito e a falta de educação ainda fazem parte do dia a dia das profissionais.

“Vejo que ainda são motoristas de carros que se irritam com a gente. Não nos deixam passar, não facilitam o espaço que precisamos, e isso acaba gerando muita discussão, por falta dessa paciência, o que infelizmente não é esporádico, é todos os dias”, lamenta a motogirl.

Em todo esse tempo que usa a moto, Denilsa sofreu um acidente ao ser fechada por um veículo, mas além dos ralados, não teve ferimentos mais graves. “Acho que por ser mulher, infelizmente, ainda existe preconceito e muita falta de educação. Mas sou rude, sou fechada e não dou abertura, se for para bater de frente, a gente discute. Todos nós, não só eu como mulher, mas no geral, todos os profissionais que utilizam a moto para trabalhar”, finaliza.

Profissionais destacam boa receptividade
Com muita seriedade e cautela, as motogirls se dedicam a fazer entregas nos centros urbanos. Apesar de ainda existir série de situações difíceis, no geral, as profissionais avaliam que os serviços são muitos elogiados pelos clientes. E comentam que cada vez mais conhecem mulheres que encaram o desafio em duas rodas.

A motorgirl Denilsa Teixeira destaca que, em muitos casos, a mulher acaba sendo mais cuidadosa e prudente no trânsito. “Mesmo diante de clientes ou até de motoboys, a receptividade é boa. Nós, tanto mulher quanto homem, fazemos os serviços acontecerem para as entregas. Mas além das coisas ruins, também ouvimos palavras de incentivo e carinho sim”, comenta.

Com os serviços de motogirl dando certo, Bruna Oliveira expandiu o serviço de entregas e fez parcerias com loja de bolo e três lojas de roupas, que realiza no período em que não está trabalhando pelo aplicativo.

“Principalmente agora, na pandemia, aceitei esses trabalhos como renda extra e me adaptei. Ainda mais por ser loja que realiza entregas para outras mulheres, elas se sentem mais seguras quando vêem uma mulher chegando de moto, e isso é muito legal”, comenta a profissional.

Bruna trabalha todos os dias pelo aplicativo, das 11h às 14h30, e à tarde realiza as entregas com as parcerias e retorna ao aplicativo das 18h às 22h, realizando por dia cerca de 18 a 22 entregas. “Hoje não me vejo trabalhando em escritório, por exemplo. Já me acostumei com essa rotina de loucura. Mas, futuramente, tenho sonhos de montar algum comércio próprio, mas não vou abandonar a moto.” 

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