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Quase humano, quase viral!


Antonio Carlos do Nascimento

09/11/2020 | 07:00


 Aproximadamente 2 bilhões de seres humanos habitavam a Terra enquanto a Europa era palco de mais um desastre evolutivo humano em seu viés bélico e irracional. É 1918, quarto ano do conflito conhecido como Primeira Guerra Mundial, a qual parece ter tido destino determinado por um micrométrico organismo que hoje conhecemos como H1N1, agente causador de devastadora doença.

Enquanto os governantes das pátrias envolvidas no confronto negavam a gravidade da epidemia, orientando seus veículos de comunicação a omitir a dimensão dos danos daquele flagelo, a imprensa da Espanha, país que permaneceu neutro no conflito, divulgava a devastação pandêmica à exatidão dos fatos e, não por menos, essa tragédia infecciosa ficou conhecida como Gripe Espanhola.

Sem consenso absoluto, a fonte contaminante parece ter se originado no Kansas, nos Estados Unidos, alcançando a Europa pelos soldados norte-americanos encaminhados para as frentes de combate junto aos aliados. Mas, se o vírus não escolheu bandeira naquele confronto, parece ter sido mais mortal nos mal alimentados pelotões alemães, que capitularam supostamente pela covardia viral e não pela coragem de seus inimigos.

Porém, tão interessante quanto a possibilidade decisiva do vírus no resultado da guerra é o quanto ele pode ter sido determinante no destino dos perdedores. Aos alemães, derrotados e moralmente estilhaçados, restava a sorte da piedade dos vencedores para sua reconstrução econômica, no que dependiam do peso das sanções impostas.

O presidente norte-americano Woodrow Wilson, parcimonioso estadista que viajou a Paris decidido a conduzir os acordos pós-guerra, suavizando rancores e humanizando a pena alemã, foi infectado pelo vírus e, ao que parece, expressou uma das facetas virais que já era conhecida, o acometimento do sistema nervoso central. As mudanças comportamentais de Wilson, asAntonisim como seu redirecionamento para rigorosa punição aos alemães, foram resultantes atribuídas àquela enfermidade, enquanto a ascensão nazista derivaria da miséria alemã gerada pela severidade das penas.

Desde o início da pandemia da Covid-19 vários cientistas alertam para o tropismo neurológico do coronavírus, o qual já era denunciado pela perda de olfato e paladar, assim como variáveis deficits cognitivos em grande percentual dos acometidos pela doença. Um estudo denominado Great British Intelligence Test (Grande Teste da Inteligência Britânica), desenvolvido pelo Imperial College London, sugere que estes acometimentos podem assumir proporções imensas.

A pesquisa analisou resultados de 84.285 pacientes que desenvolveram Covid-19 e possui conclusão preliminar demonstrando deficits cognitivos proporcionais à gravidade clínica apresentada, com os piores casos expressando deficits comparáveis ao decréscimo cognitivo de dez anos de envelhecimento, algo como dizer que mirramos em dez anos a atenção, memória, percepção, associação de ideias, raciocínio e outras nuances de nossa relação com o meio que nos circunda.

Irracionais, estes vírus molestam aleatoriamente, matam multidões sem que sejam genocidas, não intencionam, pois, não pensam, modificam a história desinteressados e reinam absolutos, visto que não são domináveis, ao menos não indefinidamente.

Seres humanos são racionais, transponíveis, finitos e de maioria pacífica, mas suas amostras belicosas e intransigentes, com nichos ceifadores de vidas e liberdades, desmancham conquistas de convívio e derretem futuros de seus iguais.

Curiosamente, a imprevisibilidade devastadora dos vírus, movimentos de destruição imponderáveis e a certeza da finitude não atormentam herméticos grupos de seres humanos, os quais contradizem seus pares e seguem cientes da imortalidade (e impunidade), interpretando intenção e culpa aos seus desejos e condenando a vítima. Quase humano, quase viral!



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