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Sherlock e seus derivados



20/10/2020 | 08:30


Sherlock Holmes é um dos personagem com maior quantidade de adaptações e releituras na história da literatura, protagonista de mais de mil obras, entre livros, peças de teatro, filmes, quadrinhos e jogos. Com recente a adaptação do livro Enola Holmes: O Caso do Marquês Desaparecido (editora Verus), da escritora norte-americana Nancy Springer, pela Netflix, o detetive mais famoso do mundo, concebido originalmente por Arthur Conan Doyle, voltou aos holofotes - de onde talvez nunca tenha verdadeiramente saído.

"Eu leio Sherlock Holmes desde criança e, quando tinha dez ou doze anos, esgotei suas histórias e fiquei inconsolável. Parecia a mim que havia uma lacuna para uma figura feminina. Arthur Conan Doyle negligenciou o gênero feminino e me muniu com uma oportunidade de preencher essa lacuna que eu fico surpresa que ninguém tenha aproveitado antes", afirma em entrevista exclusiva ao Estadão a escritora Nancy Springer, que publicou o primeiro livro de Enola Holmes em 2006.

Apesar de o filme dirigido por Harry Bradbeer mudar muitos pontos-chave do enredo criado por Springer, a autora conta que aprovou a adaptação da Netflix com Millie Bobby Brown no papel de Enola e Henry Cavill como Sherlock: "Ambas obras funcionam perfeitamente bem de modo independente entre si".

O livro é um típico romance de formação que acompanha Enola em uma jornada de autodescobrimento iniciada com o sumiço de sua mãe. A primeira atitude da menina ao saber do desaparecimento de Eudoria Holmes é convocar seus irmãos mais velhos, Sherlock e Mycroft, para ajudá-la nas buscas.

No entanto, quando os cavalheiros tomam conhecimento da educação pouco ortodoxa para os padrões vitorianos que Eudoria, uma protofeminista e sufragista, vinha oferecendo à jovem, decidem matricular Enola em um internato a fim de torná-la uma dama adequada à sociedade da época. Para evitar esse destino, a menina foge dos irmãos - o que não é fácil, quando um deles é Sherlock Holmes - e procura a mãe por conta própria, se envolvendo em outro caso e se tornando, também, uma investigadora informal.

É justamente por revisitar um personagem tão importante pelo viés da questão de gênero que Enola Holmes, hoje uma saga com seis livros publicados e dois no prelo, ganha relevância. No início do primeiro romance, a protagonista compara mentalmente os talentos do irmão enumerados pelo dr. Watson em Um Estudo em Vermelho (químico, violinista, pugilista, pensador dedutivo) com as próprias aptidões adolescentes (ler, escrever, somar, encontrar ninhos e andar de bicicleta), e se sente diminuída e ofuscada, como muitas mulheres da época de fato foram.

A personagem tem uma carga autobiográfica bastante forte, afirma Springer. "Eu a baseei muito em mim mesma. Tive uma mãe desaparecida, não fisicamente, e dois irmãos mais velhos. Senti essa mesma sensação de solidão", revela a autora. Contudo, embora Enola seja jovem e inexperiente, ela aprende a usar sua feminilidade como uma vantagem em relação a Sherlock, disfarçando-se com traje de viúva ou usando as exuberantes vestimentas vitorianas para esconder dinheiro e objetos consigo.

"Enquanto Sherlock Holmes classificava o belo sexo como irracional e insignificante, eu sabia de coisas que sua mente ''lógica'' jamais poderia compreender", calcula a personagem ao fim de sua jornada.

"Sherlock é uma espécie de ''proto-Super-Homem'', ele foi um super-herói antes da época. Ele era um modelo, e mesmo que não tivesse superpoderes, era quase como se ele tivesse com seu pensamento dedutivo", analisa Springer, que acredita que a popularidade do detetive pode ajudar a sociedade a cultivar um pensamento mais racional, especialmente em um momento como a pandemia de covid-19. "Não podemos ter místicos dizendo o que fazer, precisamos encontrar soluções baseadas em fatos sólidos."

Nancy Springer não é a única a se apropriar do universo de Sherlock Holmes em suas histórias. Aliás, dezenas de escritores ao redor do mundo vêm fazendo a mesma coisa há anos, e o Brasil não é uma exceção. Por aqui, o gaúcho A.Z. Cordenonsi é um dos autores mais devotados à obra de Conan Doyle no País. Ele está lançando em 2020 O Caso da Conspiração Biológica, terceiro livro de uma pentalogia que narra a juventude de Sherlock e os seus primeiros mistérios solucionados ao lado de personalidades do século 19 como Nikola Tesla, Ada Lovelace e Louis Pasteur.

Embora Cordenonsi tenha pesquisado algumas biografias fictícias do personagem, ele optou por escrever sobre sua juventude justamente porque é o período mais obscuro da vida de Holmes e, segundo ele, a época em que há maior liberdade para se criar. Dessa forma, ele consegue retratar um jovem Sherlock ainda hesitante ao andar nos bairros mais soturnos de Londres e aprendendo a tirar conclusões a partir de indícios cada vez mais insignificantes.

Para Cordenonsi, a relevância de Sherlock vem de uma ideia universal na modernidade: "A sociedade busca a civilidade. O crime é algo que acontece fora do processo civilizatório, então queremos que o criminoso seja descoberto". Além disso, o fato de o detetive resolver os casos que ache interessante independente de as vítimas terem condições de pagar acaba contribuindo para a aura do personagem. No entanto, Sherlock não está acima de defeitos, como o autor pontua: "Ele usa drogas, tem problemas com a cocaína, é machista".

Além da saga Sherlock e os Aventureiros, que Cordenonsi vem publicando desde 2017, o autor participa este ano da coletânea Sherlock Holmes - O Jogo Continua (editora Draco), organizada por Cirilo S. Lemos e Marcelo A. Galvão, que reúne contos de autores como Fábio Fernandes, Roberta Grassi e Antonio Luiz M. C. Costa ambientados no universo do detetive. Também recentemente a editora Avec publicou A Sabedoria dos Mortos, do premiado autor espanhol Rodolfo Martínez, que faz parte de sua série Os Arquivos Perdidos de Sherlock Holmes e imagina o personagem de Conan Doyle em uma situação digna dos contos de horror cósmico de H.P. Lovecraft.

"O personagem que a gente conhece hoje não é mais o do Conan Doyle", afirma Cordenonsi. "Várias coisas criadas para os filmes, as peças de teatro e outras adaptações acabaram entrando no imaginário do Sherlock Holmes." Entre esses elementos inexistentes ou quase não abordados no material original, o autor cita o cachimbo curvado e o chapéu que o detetive usa costumeiramente, além da importância hiperdimensionada de personagens como o irmão Mycroft e o rival Moriarty. "Hoje o Sherlock é um personagem muito mais multimídia, que vem dos livros, pastiches, teatro, cinema, ele se tornou maior até que o próprio Conan Doyle."

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.



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Sherlock e seus derivados


20/10/2020 | 08:30


Sherlock Holmes é um dos personagem com maior quantidade de adaptações e releituras na história da literatura, protagonista de mais de mil obras, entre livros, peças de teatro, filmes, quadrinhos e jogos. Com recente a adaptação do livro Enola Holmes: O Caso do Marquês Desaparecido (editora Verus), da escritora norte-americana Nancy Springer, pela Netflix, o detetive mais famoso do mundo, concebido originalmente por Arthur Conan Doyle, voltou aos holofotes - de onde talvez nunca tenha verdadeiramente saído.

"Eu leio Sherlock Holmes desde criança e, quando tinha dez ou doze anos, esgotei suas histórias e fiquei inconsolável. Parecia a mim que havia uma lacuna para uma figura feminina. Arthur Conan Doyle negligenciou o gênero feminino e me muniu com uma oportunidade de preencher essa lacuna que eu fico surpresa que ninguém tenha aproveitado antes", afirma em entrevista exclusiva ao Estadão a escritora Nancy Springer, que publicou o primeiro livro de Enola Holmes em 2006.

Apesar de o filme dirigido por Harry Bradbeer mudar muitos pontos-chave do enredo criado por Springer, a autora conta que aprovou a adaptação da Netflix com Millie Bobby Brown no papel de Enola e Henry Cavill como Sherlock: "Ambas obras funcionam perfeitamente bem de modo independente entre si".

O livro é um típico romance de formação que acompanha Enola em uma jornada de autodescobrimento iniciada com o sumiço de sua mãe. A primeira atitude da menina ao saber do desaparecimento de Eudoria Holmes é convocar seus irmãos mais velhos, Sherlock e Mycroft, para ajudá-la nas buscas.

No entanto, quando os cavalheiros tomam conhecimento da educação pouco ortodoxa para os padrões vitorianos que Eudoria, uma protofeminista e sufragista, vinha oferecendo à jovem, decidem matricular Enola em um internato a fim de torná-la uma dama adequada à sociedade da época. Para evitar esse destino, a menina foge dos irmãos - o que não é fácil, quando um deles é Sherlock Holmes - e procura a mãe por conta própria, se envolvendo em outro caso e se tornando, também, uma investigadora informal.

É justamente por revisitar um personagem tão importante pelo viés da questão de gênero que Enola Holmes, hoje uma saga com seis livros publicados e dois no prelo, ganha relevância. No início do primeiro romance, a protagonista compara mentalmente os talentos do irmão enumerados pelo dr. Watson em Um Estudo em Vermelho (químico, violinista, pugilista, pensador dedutivo) com as próprias aptidões adolescentes (ler, escrever, somar, encontrar ninhos e andar de bicicleta), e se sente diminuída e ofuscada, como muitas mulheres da época de fato foram.

A personagem tem uma carga autobiográfica bastante forte, afirma Springer. "Eu a baseei muito em mim mesma. Tive uma mãe desaparecida, não fisicamente, e dois irmãos mais velhos. Senti essa mesma sensação de solidão", revela a autora. Contudo, embora Enola seja jovem e inexperiente, ela aprende a usar sua feminilidade como uma vantagem em relação a Sherlock, disfarçando-se com traje de viúva ou usando as exuberantes vestimentas vitorianas para esconder dinheiro e objetos consigo.

"Enquanto Sherlock Holmes classificava o belo sexo como irracional e insignificante, eu sabia de coisas que sua mente ''lógica'' jamais poderia compreender", calcula a personagem ao fim de sua jornada.

"Sherlock é uma espécie de ''proto-Super-Homem'', ele foi um super-herói antes da época. Ele era um modelo, e mesmo que não tivesse superpoderes, era quase como se ele tivesse com seu pensamento dedutivo", analisa Springer, que acredita que a popularidade do detetive pode ajudar a sociedade a cultivar um pensamento mais racional, especialmente em um momento como a pandemia de covid-19. "Não podemos ter místicos dizendo o que fazer, precisamos encontrar soluções baseadas em fatos sólidos."

Nancy Springer não é a única a se apropriar do universo de Sherlock Holmes em suas histórias. Aliás, dezenas de escritores ao redor do mundo vêm fazendo a mesma coisa há anos, e o Brasil não é uma exceção. Por aqui, o gaúcho A.Z. Cordenonsi é um dos autores mais devotados à obra de Conan Doyle no País. Ele está lançando em 2020 O Caso da Conspiração Biológica, terceiro livro de uma pentalogia que narra a juventude de Sherlock e os seus primeiros mistérios solucionados ao lado de personalidades do século 19 como Nikola Tesla, Ada Lovelace e Louis Pasteur.

Embora Cordenonsi tenha pesquisado algumas biografias fictícias do personagem, ele optou por escrever sobre sua juventude justamente porque é o período mais obscuro da vida de Holmes e, segundo ele, a época em que há maior liberdade para se criar. Dessa forma, ele consegue retratar um jovem Sherlock ainda hesitante ao andar nos bairros mais soturnos de Londres e aprendendo a tirar conclusões a partir de indícios cada vez mais insignificantes.

Para Cordenonsi, a relevância de Sherlock vem de uma ideia universal na modernidade: "A sociedade busca a civilidade. O crime é algo que acontece fora do processo civilizatório, então queremos que o criminoso seja descoberto". Além disso, o fato de o detetive resolver os casos que ache interessante independente de as vítimas terem condições de pagar acaba contribuindo para a aura do personagem. No entanto, Sherlock não está acima de defeitos, como o autor pontua: "Ele usa drogas, tem problemas com a cocaína, é machista".

Além da saga Sherlock e os Aventureiros, que Cordenonsi vem publicando desde 2017, o autor participa este ano da coletânea Sherlock Holmes - O Jogo Continua (editora Draco), organizada por Cirilo S. Lemos e Marcelo A. Galvão, que reúne contos de autores como Fábio Fernandes, Roberta Grassi e Antonio Luiz M. C. Costa ambientados no universo do detetive. Também recentemente a editora Avec publicou A Sabedoria dos Mortos, do premiado autor espanhol Rodolfo Martínez, que faz parte de sua série Os Arquivos Perdidos de Sherlock Holmes e imagina o personagem de Conan Doyle em uma situação digna dos contos de horror cósmico de H.P. Lovecraft.

"O personagem que a gente conhece hoje não é mais o do Conan Doyle", afirma Cordenonsi. "Várias coisas criadas para os filmes, as peças de teatro e outras adaptações acabaram entrando no imaginário do Sherlock Holmes." Entre esses elementos inexistentes ou quase não abordados no material original, o autor cita o cachimbo curvado e o chapéu que o detetive usa costumeiramente, além da importância hiperdimensionada de personagens como o irmão Mycroft e o rival Moriarty. "Hoje o Sherlock é um personagem muito mais multimídia, que vem dos livros, pastiches, teatro, cinema, ele se tornou maior até que o próprio Conan Doyle."

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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