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Protagonista do caso da favela Naval, Rambo tenta se eleger vereador

Celso Luiz/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Otávio Gambra, sentenciado por matar Mário Josino em 1997, concorre a uma vaga na Câmara de Diadema pelo PRTB: ‘Quero realizar algo pela cidade’


Daniel Tossato
Do Diário do Grande ABC

13/10/2020 | 00:13


“Gostaria que você deixasse de lado esse negócio de Rambo e o que aconteceu na (favela) Naval e focasse em outra coisa”, disse, ao fim da entrevista, Otávio Lourenço Gambra, o Rambo (PRTB), 62 anos, ex-policial militar que ficou conhecido por matar o conferente Mário José Josino e torturar outros homens quando realizava patrulha na comunidade, em Diadema, em março de 1997. Agora, 23 anos depois de colocar a cidade no meio do debate nacional sobre os excessos das forças policiais, Rambo tenta deixar essa página para trás, ingressou na política e é candidato a vereador de Diadema, pedindo a confiança dos diademenses para representá-los na Câmara.

Visivelmente acima do peso e com parcos cabelos brancos na cabeça, a atual figura nem de longe lembra o homem que assustou moradores da favela Naval. Às portas da terceira idade, o ex-policial alegou que decidiu ser candidato a pedidos de amigos e que isso o “despertou” para tentar ser vereador. “Eles até me disseram para me colocar como Rambo da favela Naval, mas achei melhor não”, declarou.

Enquanto falava da possibilidade de ser parlamentar e “tentar realizar algo pela população da cidade e não só ficar reclamando”, Gambra – como prefere ser chamado – adota tom calmo, como se precisasse desacelerar do turbilhão que sua vida se tornou desde 1997. Ficou preso em regime fechado durante oito anos, após ser sentenciado a 65 anos de reclusão por homicídio, tortura e tentativa de homicídio. Em 2001, conseguiu reduzir sua pena para 15 anos, dos quais grande parte em regimes semiaberto e aberto. “Sei que vou carregar o apelido Rambo para o resto da vida, mas já paguei minha dívida com a Justiça”, ponderou.

Ainda que rejeite o apelido, Gambra dá lugar a Rambo quando passa a relembrar dos fatídicos dias em que efetuou patrulha na favela Naval. Ele se inclina na mesa, sobe o tom de voz e passa a gesticular em demasia. A imagem do homem que está envelhecendo e que não demonstra perigo dá lugar a um outro, com olhar que ainda mantém certo grau de ameaça. “Sempre consegui separar o homem que é pai de família do homem que era policial”, disse. Sobre a atuação como PM, Rambo parece não ter algum tipo de remorso. “Veja bem, eu fiz o que tinha que fazer naquela comunidade. Era um pedido da cúpula da PM (Polícia Militar) para que nós atuássemos de forma incisiva contra suspeitos. E assim foi feito”, relembrou.

Depois da conversa com a equipe do Diário, Gambra foi pedir votos na Praça da Moça, na região central. Ele estava ao lado do amigo Flávio Capilé (SD), candidato a vereador em São Bernardo. Uma cena chamou atenção e, de certa forma, representa como o ex-policial toca a vida atualmente. Ele se aproximou de dois jovens que, despretensiosamente, fumavam maconha no local. Entregou seu ‘santinho’ e rapidamente saiu do lugar, sem nenhum gesto brusco. Os jovens não reconheceram Gambra – muito menos Rambo. Alertados pelo Diário de quem era o candidato que havia pedido seus votos, correram para apagar o cigarro.

‘Não era intenção e não acho que foi meu tiro que o matou’

Otávio Lourenço Gambra, então soldado da 2ª Companhia do 24º Batalhão da PM (Polícia Militar) de Diadema, virou o rosto de uma atuação policial na madrugada do dia 7 de março de 1997 que terminou na morte do conferente Mário José Josino, aos 30 anos. Josino, que trabalhava em uma prestadora de serviços para a Ford e não tinha passagem policial, e dois amigos passaram pela favela Naval, voltando de um bar, quando foram abordados em blitz feita por nove integrantes da corporação.

Após ser agredido, o trio entrou no Volkswagen Gol rumo à saída da comunidade. Gambra empunhou a arma e disparou. Um dos tiros acertou a nuca de Josino, que estava no banco de trás. Ele não resistiu.

O Diário contou a história na edição do dia 8 de março de 1997, ainda sem todos os detalhes que viriam à tona semanas depois, com a exposição de uma gravação, feita por cinegrafista amador. No vídeo, os policiais, entre eles Gambra, aparecem agredindo outros moradores, com chutes e cassetetes. A imagem também capta a hora em que Gambra atira contra o carro onde estavam Josino e os amigos. A gravação rodou o mundo e colocou em xeque protocolos de atividade de policiais, em especial em favelas.

Questionado sobre o motivo que o fez atirar, Rambo (apelido que ele garante ter recebido somente depois do episódio) apenas diz que fez os disparos em advertência. “Não era minha intenção. Como eu já disse outra vez, acredito que não foi meu tiro que matou Josino, mas foi isso que ficou para a história”, disse. Até hoje, a família de Josino aguarda indenização por parte do governo do Estado.

Na entrevista exclusiva ao Diário, em um raro momento, Gambra deixou escapar a emoção. Foi quando comentou sobre sua expulsão da PM e do sofrimento que causou para a própria família. “Todo o processo foi muito doloroso, minha primeira mulher pediu separação, fiquei sem emprego. Foi complicado. Mas eu mantenho a farda interna, essa ninguém vai tirar de mim”, declarou o candidato a vereador de Diadema.

O momento emotivo, porém, logo dá lugar a casos citados por Gambra por ser protagonista de um dos mais chocantes episódios da PM de São Paulo. “Nunca escondi nada da minha família, nem do meu filho mais novo (Alejandro, 12). Eles sabem de tudo. Um tempo atrás o próprio Alejandro me colocou em uma saia justa ao arranjar uma confusão na escola. Em certa altura ele disse aos amigos: ‘Você sabe quem é meu pai? Meu pai é o Rambo’”, disse Gambra, antes de soltar uma gargalhada.

Gambra foi quem pegou a pena mais pesada – inicialmente 65 anos de prisão. Ele diz que nunca mais teve contato com a família da vítima. Após a morte de Josino, governantes de Diadema passaram a adotar medidas para reduzir os índices de violência na cidade.  



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Protagonista do caso da favela Naval, Rambo tenta se eleger vereador

Otávio Gambra, sentenciado por matar Mário Josino em 1997, concorre a uma vaga na Câmara de Diadema pelo PRTB: ‘Quero realizar algo pela cidade’

Daniel Tossato
Do Diário do Grande ABC

13/10/2020 | 00:13


“Gostaria que você deixasse de lado esse negócio de Rambo e o que aconteceu na (favela) Naval e focasse em outra coisa”, disse, ao fim da entrevista, Otávio Lourenço Gambra, o Rambo (PRTB), 62 anos, ex-policial militar que ficou conhecido por matar o conferente Mário José Josino e torturar outros homens quando realizava patrulha na comunidade, em Diadema, em março de 1997. Agora, 23 anos depois de colocar a cidade no meio do debate nacional sobre os excessos das forças policiais, Rambo tenta deixar essa página para trás, ingressou na política e é candidato a vereador de Diadema, pedindo a confiança dos diademenses para representá-los na Câmara.

Visivelmente acima do peso e com parcos cabelos brancos na cabeça, a atual figura nem de longe lembra o homem que assustou moradores da favela Naval. Às portas da terceira idade, o ex-policial alegou que decidiu ser candidato a pedidos de amigos e que isso o “despertou” para tentar ser vereador. “Eles até me disseram para me colocar como Rambo da favela Naval, mas achei melhor não”, declarou.

Enquanto falava da possibilidade de ser parlamentar e “tentar realizar algo pela população da cidade e não só ficar reclamando”, Gambra – como prefere ser chamado – adota tom calmo, como se precisasse desacelerar do turbilhão que sua vida se tornou desde 1997. Ficou preso em regime fechado durante oito anos, após ser sentenciado a 65 anos de reclusão por homicídio, tortura e tentativa de homicídio. Em 2001, conseguiu reduzir sua pena para 15 anos, dos quais grande parte em regimes semiaberto e aberto. “Sei que vou carregar o apelido Rambo para o resto da vida, mas já paguei minha dívida com a Justiça”, ponderou.

Ainda que rejeite o apelido, Gambra dá lugar a Rambo quando passa a relembrar dos fatídicos dias em que efetuou patrulha na favela Naval. Ele se inclina na mesa, sobe o tom de voz e passa a gesticular em demasia. A imagem do homem que está envelhecendo e que não demonstra perigo dá lugar a um outro, com olhar que ainda mantém certo grau de ameaça. “Sempre consegui separar o homem que é pai de família do homem que era policial”, disse. Sobre a atuação como PM, Rambo parece não ter algum tipo de remorso. “Veja bem, eu fiz o que tinha que fazer naquela comunidade. Era um pedido da cúpula da PM (Polícia Militar) para que nós atuássemos de forma incisiva contra suspeitos. E assim foi feito”, relembrou.

Depois da conversa com a equipe do Diário, Gambra foi pedir votos na Praça da Moça, na região central. Ele estava ao lado do amigo Flávio Capilé (SD), candidato a vereador em São Bernardo. Uma cena chamou atenção e, de certa forma, representa como o ex-policial toca a vida atualmente. Ele se aproximou de dois jovens que, despretensiosamente, fumavam maconha no local. Entregou seu ‘santinho’ e rapidamente saiu do lugar, sem nenhum gesto brusco. Os jovens não reconheceram Gambra – muito menos Rambo. Alertados pelo Diário de quem era o candidato que havia pedido seus votos, correram para apagar o cigarro.

‘Não era intenção e não acho que foi meu tiro que o matou’

Otávio Lourenço Gambra, então soldado da 2ª Companhia do 24º Batalhão da PM (Polícia Militar) de Diadema, virou o rosto de uma atuação policial na madrugada do dia 7 de março de 1997 que terminou na morte do conferente Mário José Josino, aos 30 anos. Josino, que trabalhava em uma prestadora de serviços para a Ford e não tinha passagem policial, e dois amigos passaram pela favela Naval, voltando de um bar, quando foram abordados em blitz feita por nove integrantes da corporação.

Após ser agredido, o trio entrou no Volkswagen Gol rumo à saída da comunidade. Gambra empunhou a arma e disparou. Um dos tiros acertou a nuca de Josino, que estava no banco de trás. Ele não resistiu.

O Diário contou a história na edição do dia 8 de março de 1997, ainda sem todos os detalhes que viriam à tona semanas depois, com a exposição de uma gravação, feita por cinegrafista amador. No vídeo, os policiais, entre eles Gambra, aparecem agredindo outros moradores, com chutes e cassetetes. A imagem também capta a hora em que Gambra atira contra o carro onde estavam Josino e os amigos. A gravação rodou o mundo e colocou em xeque protocolos de atividade de policiais, em especial em favelas.

Questionado sobre o motivo que o fez atirar, Rambo (apelido que ele garante ter recebido somente depois do episódio) apenas diz que fez os disparos em advertência. “Não era minha intenção. Como eu já disse outra vez, acredito que não foi meu tiro que matou Josino, mas foi isso que ficou para a história”, disse. Até hoje, a família de Josino aguarda indenização por parte do governo do Estado.

Na entrevista exclusiva ao Diário, em um raro momento, Gambra deixou escapar a emoção. Foi quando comentou sobre sua expulsão da PM e do sofrimento que causou para a própria família. “Todo o processo foi muito doloroso, minha primeira mulher pediu separação, fiquei sem emprego. Foi complicado. Mas eu mantenho a farda interna, essa ninguém vai tirar de mim”, declarou o candidato a vereador de Diadema.

O momento emotivo, porém, logo dá lugar a casos citados por Gambra por ser protagonista de um dos mais chocantes episódios da PM de São Paulo. “Nunca escondi nada da minha família, nem do meu filho mais novo (Alejandro, 12). Eles sabem de tudo. Um tempo atrás o próprio Alejandro me colocou em uma saia justa ao arranjar uma confusão na escola. Em certa altura ele disse aos amigos: ‘Você sabe quem é meu pai? Meu pai é o Rambo’”, disse Gambra, antes de soltar uma gargalhada.

Gambra foi quem pegou a pena mais pesada – inicialmente 65 anos de prisão. Ele diz que nunca mais teve contato com a família da vítima. Após a morte de Josino, governantes de Diadema passaram a adotar medidas para reduzir os índices de violência na cidade.  

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