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Trombonista Bocato marca dois golaços


João Marcos Coelho
Especial para o Diário

07/05/2005 | 13:14


A música instrumental brasileira vive um momento especial de um círculo virtuoso. De um lado, o perverso esquema tradicional das grandes gravadoras que normalmente batiam as portas na cara dos instrumentistas ruiu de modo espetacular. De outro, graças à internet, tornou-se barato produzir uma gravação e colocá-la no mercado com boas chances de comercialização.

Esta é uma explicação para justificar a quantidade de lançamentos de música instrumental nos primeiros meses deste ano. Deve haver outras, mas o importante agora é curtir o clímax desta fase. E o que é melhor: os músicos não sentem mais aquela gana de mostrar o seu trabalho como nos anos 60 e 70, quando a ansiedade de fazer só e exclusivamente os chamados “discos de autor” afugentava públicos mais amplos.

O trombonista nascido em São Bernardo é modelo desta nova atitude. Ele já chegou, em anos passados, a desabafar que iria para a Alemanha, que não aguentava mais o marasmo e a marginalidade do músico no Brasil. Pois o mesmo Bocato, instrumentista que não consegue produzir música superior sem estar com os pés bem fincados na realidade nacional, agora faz dois golaços: um para agradar ao chamado mercado, Antologia da Canção Brasileira, ao lado da flautista Lea Freire (selo Maritaca); outro, o típico disco de autor, Cacique Cantareira (EloMusic).

E prova que, em ambos os projetos, é possível fazer música de alta qualidade. A Antologia da Canção Brasileira tem produção primorosa do recém-chegado selo Maritaca, de São Paulo. E, no caso, estar antenado com o mercado é muito positivo, porque leva públicos inesperados a curtir instrumentistas de primeira. Não se improvisa muito, os arranjos são assinados por Lea Freire e a escolha das canções é de arrepiar: só clássicos da música popular brasileira.

Do sexteto participam o ótimo e experiente pianista Michel Freidenson, o guitarrista Djalma Lima, Sizão Machado no baixo e Edu Ribeiro na bateria. São cerca de 50 minutos de música distendida – só baladas – e interpretações irretocáveis.

Folha Morta, de Ary Barroso; Luz Negra, de Nelson Cavaquinho; a antológica Nunca, de Lupicínio Rodrigues; Nossos Momentos, de Haroldo Barbosa; Neste Mesmo Lugar, de Klécius Caldas; e Boa Noite, Amor, a música que virou tema de Elis Regina. Essas seis faixas recebem, sem favor algum, as melhores versões instrumentais já realizadas no país. Isso sem contar o originalíssimo arranjo de Bocato para As Rosas Não Falam, onde ele faz overdubbing (gravou todas as vozes dos acordes de acompanhamento ao trombone), do ritmo e da harmonia, para a flauta levíssima de Lea Freire.

Cacique Cantareira, ou “quebre tudo mas toque certo!”, o CD de autor de Bocato, surfa por outras praias. Tão instigantes quanto as da Antologia, mas em outras direções. Os músicos de Antologia participam da quebradeira do cacique Bocato e são reforçados por Márcio Azambuja no sax-tenor (solos impressionantes), Chico Willcox no baixo e Biroska na percussão.

São sete faixas onde a eletrificação funk convive com a percussão bem brasileira, e onde o fraseado dos temas à Banda Black Rio de Serginho do Trombone (compadre de Bocato) aparece combinado em performances irresistíveis. Ninguém fica parado.

E Bocato, claro, é um show à parte. Assina todos os temas e arrebenta no trombone. Em Cacique Cantareira, a faixa mais longa e curtida, de oito minutos, o Hammond dá o tom r&b e o tema parece uma reminiscência da abertura do poema sinfônico Assim Falava Zaratustra, de Richard Strauss.

Em Petróleo, Bocato faz um emocionado tributo cifrado a um de seus ídolos, o contrabaixista Charlie Mingus, citando literalmente o maravilhoso tema de Goodbye, Porkpie Hat, a música que Mingus compôs quando o sax-tenor Lester Young morreu.

Haveria muito mais para falar desta gravação antológica, desde as citações cifradas até os improvisos que, aqui sim, pululam – e sempre de alta qualidade. Mas a melhor dica é a seguinte: ouça os dois discos e se encante com a diversidade da atual música instrumental brasileira.



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Trombonista Bocato marca dois golaços

João Marcos Coelho
Especial para o Diário

07/05/2005 | 13:14


A música instrumental brasileira vive um momento especial de um círculo virtuoso. De um lado, o perverso esquema tradicional das grandes gravadoras que normalmente batiam as portas na cara dos instrumentistas ruiu de modo espetacular. De outro, graças à internet, tornou-se barato produzir uma gravação e colocá-la no mercado com boas chances de comercialização.

Esta é uma explicação para justificar a quantidade de lançamentos de música instrumental nos primeiros meses deste ano. Deve haver outras, mas o importante agora é curtir o clímax desta fase. E o que é melhor: os músicos não sentem mais aquela gana de mostrar o seu trabalho como nos anos 60 e 70, quando a ansiedade de fazer só e exclusivamente os chamados “discos de autor” afugentava públicos mais amplos.

O trombonista nascido em São Bernardo é modelo desta nova atitude. Ele já chegou, em anos passados, a desabafar que iria para a Alemanha, que não aguentava mais o marasmo e a marginalidade do músico no Brasil. Pois o mesmo Bocato, instrumentista que não consegue produzir música superior sem estar com os pés bem fincados na realidade nacional, agora faz dois golaços: um para agradar ao chamado mercado, Antologia da Canção Brasileira, ao lado da flautista Lea Freire (selo Maritaca); outro, o típico disco de autor, Cacique Cantareira (EloMusic).

E prova que, em ambos os projetos, é possível fazer música de alta qualidade. A Antologia da Canção Brasileira tem produção primorosa do recém-chegado selo Maritaca, de São Paulo. E, no caso, estar antenado com o mercado é muito positivo, porque leva públicos inesperados a curtir instrumentistas de primeira. Não se improvisa muito, os arranjos são assinados por Lea Freire e a escolha das canções é de arrepiar: só clássicos da música popular brasileira.

Do sexteto participam o ótimo e experiente pianista Michel Freidenson, o guitarrista Djalma Lima, Sizão Machado no baixo e Edu Ribeiro na bateria. São cerca de 50 minutos de música distendida – só baladas – e interpretações irretocáveis.

Folha Morta, de Ary Barroso; Luz Negra, de Nelson Cavaquinho; a antológica Nunca, de Lupicínio Rodrigues; Nossos Momentos, de Haroldo Barbosa; Neste Mesmo Lugar, de Klécius Caldas; e Boa Noite, Amor, a música que virou tema de Elis Regina. Essas seis faixas recebem, sem favor algum, as melhores versões instrumentais já realizadas no país. Isso sem contar o originalíssimo arranjo de Bocato para As Rosas Não Falam, onde ele faz overdubbing (gravou todas as vozes dos acordes de acompanhamento ao trombone), do ritmo e da harmonia, para a flauta levíssima de Lea Freire.

Cacique Cantareira, ou “quebre tudo mas toque certo!”, o CD de autor de Bocato, surfa por outras praias. Tão instigantes quanto as da Antologia, mas em outras direções. Os músicos de Antologia participam da quebradeira do cacique Bocato e são reforçados por Márcio Azambuja no sax-tenor (solos impressionantes), Chico Willcox no baixo e Biroska na percussão.

São sete faixas onde a eletrificação funk convive com a percussão bem brasileira, e onde o fraseado dos temas à Banda Black Rio de Serginho do Trombone (compadre de Bocato) aparece combinado em performances irresistíveis. Ninguém fica parado.

E Bocato, claro, é um show à parte. Assina todos os temas e arrebenta no trombone. Em Cacique Cantareira, a faixa mais longa e curtida, de oito minutos, o Hammond dá o tom r&b e o tema parece uma reminiscência da abertura do poema sinfônico Assim Falava Zaratustra, de Richard Strauss.

Em Petróleo, Bocato faz um emocionado tributo cifrado a um de seus ídolos, o contrabaixista Charlie Mingus, citando literalmente o maravilhoso tema de Goodbye, Porkpie Hat, a música que Mingus compôs quando o sax-tenor Lester Young morreu.

Haveria muito mais para falar desta gravação antológica, desde as citações cifradas até os improvisos que, aqui sim, pululam – e sempre de alta qualidade. Mas a melhor dica é a seguinte: ouça os dois discos e se encante com a diversidade da atual música instrumental brasileira.

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