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‘SUS terá muitas dificuldades no pós-coronavírus’

Marcello Casal Jr/Agência Brasil Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Francisco Lacerda
Do Diário do Grande ABC

06/09/2020 | 23:32


Ex-ministro da Saúde do governo de Jair Bolsonaro (sem partido), Luiz Henrique Mandetta (DEM) se diz “angustiado” ao ver o presidente tratar a Covid-19 como “gripezinha” e avalia como “trevas” as constantes trocas de ministros na pasta. Sugere que o SUS (Sistema Único de Saúde) – que pode perder até R$ 30 bilhões com a PEC (Proposta de Emenda à Constituição) do Teto de Gastos – seja priorizado, já que deve enfrentar maiores dificuldades no pós-pandemia devido à demanda reprimida de outros exames; foco na ciência e certificação dos resultados de vacinas, mas que o ministério não está preparado. “Sem corpo para propor saídas que são necessárias.”

Como médico, como avalia o comportamento de Bolsonaro no enfrentamento à Covid-19?
Como médico a gente é treinado a vida inteira para lutar contra a morte, a maior inimiga do médico. A morte significa nosso limite. E quando a gente vê que a morte está sendo provocada, seja por vírus, bactéria, pessoas, por qualquer coisa, fica profundamente focado em tentar transformar esse vírus, arrumar remédio, transformar as pessoas, para que ajudem a preservar a vida. A angústia é ver o maior líder da Nação, ou outras pessoas, sabendo que é doença contagiosa, tratar isso como ‘gripezinha’. Entendo que essas pessoas fazem parte da doença. Infelizmente, ele (Bolsonaro) passou a fase da negação muito forte, negando a doença, depois foi para fase de ter raiva de quem estava tentando se defender dessa doença. E a fase seguinte, que é a de fazer a reflexão, e passar para a fase de ajuda, que é quando se procura ajudar os pacientes, ele nunca entrou. A gente esperava que, com a própria doença que ele teve, que fosse refletir sobre os milhões de brasileiros que não têm médico particular do lado da porta do quarto, que não têm eletrocardiograma, não têm CTI (Centro de Tratamento Intensivo) aguardando por eles. Mas não, o presidente continua marcando a negação da doença e a raiva de tudo aquilo que seja científico, que é a porta de saída da doença. É decepcionante e muito angustiante.

O senhor acha que foi ‘fritado’ no Ministério da Saúde?
Acho que ali (na pasta) eu tinha feito padrão de comunicação muito forte com a população brasileira. Tinha feito a colocação de que tem de dar informação e transparência total de dados. Epidemia, doença nova. Porque a primeira linha de defesa das pessoas é construída a partir de informações e é dentro de casa, do núcleo familiar. Essa linha de defesa foi construída mostrando para as pessoas a face real. E 80% da população estava muito focada e muito aderida ao Ministério da Saúde. O presidente não estava. Ele esperava que a população aderisse àquelas teses absurdas, como a de isolamento vertical, quem tiver menos de 60 anos vai trabalhar, e mais de 60 fica em casa. Teria sido genocídio, carnificina, porque as pessoas moram juntas, os núcleos familiares são muito complexos. Depois queria que acreditassem na cloroquina, mesmo que não tenha eficácia. O foco dele sempre foi na economia, no pragmatismo, e o nosso foco sempre foi pela vida. É muito difícil quem luta contra a vida, mesmo que tenha interesses. Só que chegou uma hora em que ele queria que o ministério se calasse e parasse, e isso não dá para ser feito por quem é do ramo da saúde. Nossa função é salvar vidas. Então precisou chamar militar para cumprir ordem fúnebre de se calar e se ausentar do Ministério da Saúde para poder tirar do governo federal a responsabilidade e ficar só ‘tacando pedra’ em governador e prefeito, que estão na ponta tentando diminuir o sofrimento das famílias.

Como o senhor avalia o fato de termos general, ainda interino, na pasta da Saúde?
É a grande noite. São as trevas. Você para com a ciência. Eles chegaram com argumento de que são bons de logística. Até levei certo tempo para entender, já que é Ministério da Saúde e não ‘da Logística’. É perda de tempo. Basicamente pôs alguém lá por conta da carreira militar. Na ótica militar ele se explica; na ótica da saúde temos centenas de milhares de gestores muito bons, experimentados, que poderiam fazer esse trabalho de maneira efetiva. O SUS (Sistema Único de Saúde) vai ter dificuldades enormes no pós-coronavírus, porque, se olhar aí no (Grande) ABC, quantas mulheres faziam mamografia? Nesse período de cinco meses, quantas deixaram de fazer? Quantos cânceres eram descobertos no estágio um? E quando voltarem a fazer mamografia, quantos cânceres vão estar já no estágio tardio, que vai precisar de muito mais quimioterapia, radioterapia, cirurgias? E isso é com próstata, coração. Há impacto no sistema de saúde. Como é que nós vamos enfrentar a demanda reprimida? Como é que nós vamos recompor? A saúde mental, por exemplo, deve ter explosão de casos de depressão, ansiedade, porque ninguém está com a vida dentro do eixo normal, com ano extremamente duro para cada um. Esse tipo de cuidado com a saúde acredito que ali é muito difícil. Mudar ministro da Saúde já não é bom; mudar duas vezes é ainda pior. O Ministério da Saúde está hoje sem corpo para propor as saídas que são necessárias.

Qual o impacto negativo ao enfrentamento ao coronavírus com trocas constantes de ministro?
É este que estamos vendo. O ministro da Saúde diz ‘não vou mais mostrar números de casos, não quero mais responder a imprensa e detesto que se fale nesse assunto’. Aí precisa o Supremo Tribunal Federal falar para o ministro que é obrigado a mostrar o número de casos, e a imprensa ter de montar consórcio paralelo de apuração porque não confia. A credibilidade do Ministério da Saúde foi para o chão. Aí colocam protocolo de cloroquina. Além de perder credibilidade, fica com conduta que conspira a favor da doença. O vírus gosta disso, que não atenda à ciência, que diga que é ‘gripezinha’. Quem joga contra o vírus lava a mão, usa álcool gel, fica em casa, se protege, porque o certo agora é desviar da doença e pegar a vacina, que está ali na frente.

Qual a expectativa em relação à descoberta de vacinas para enfrentamento à Covid. Conhece as testadas no Brasil?
Ariano Suassuna costumava falar que o pessimista é chato; o otimista é sonhador, utópico. Prefiro me colocar realista esperançoso, pisando na realidade. O que tem hoje (remédios)? Como enfrentar isso (doença) hoje? Testes, cuidado, higiene. O que tem de focar agora é todo apoio à ciência e pedindo os resultados às agências, que certifiquem. Passo dois: preparar a produção. Não adianta ter 10 mil, 100 mil doses. Temos 215 milhões de habitantes. Como preparar para ter quantidade necessária? Vacinas estão marcando bem o anticorpo com duas doses. Parece que a diferença de tempo é de 21 dias entre a primeira e a segunda doses – a da Pfizer. Já imaginou ter de arrumar a vacina toda e 21 dias depois ter de repeti-la? É preciso jogar aberto. É um realismo, mas com esperança de que nós reunamos os melhores técnicos. Nós temos duas excelentes instituições, a Fiocruz e o Butantan, com experiência de produção de vacina. O Brasil tem o Programa Nacional de Imunização. O SUS construiu rede fantástica lá no Interior do Amazonas, no Acre, em Roraima, no Amapá, em São Paulo, no (Grande) ABC. Nós temos em todas as unidades de saúde rede de vacinação que muitos países não têm. E temos muita gente boa, com experiência em vacina. Vamos ser realistas, vamos esperar o tempo da ciência.

Governo do Paraná anunciou que vai assinar convênio com a Rússia para fabricar vacina sem comprovação de eficácia, a Sputnik V. O que o senhor acha disso?
Quando se tem situação como esta os políticos ficam todos muito animados para serem salvadores da Pátria, vêm com solução rápida, pronta. O (Vladimir) Putin (presidente da Rússia) está dando exatamente esse exemplo. Ninguém sabe o que aconteceu dentro do laboratório – as fases um e dois são dentro do laboratório –, ninguém tem consistência do que está dentro, qual é o mecanismo da vacina, e ele já deu o registro, já mandou produzir. Acho que devem estar fazendo algum diálogo. Não acho errado dialogar, mas daí a falar que está produzindo vacina mesmo sem teste parece caminho mais político do que científico.

A política de flexibilização da quarentena foi apropriada?
Ela é o que é possível. Nós somos País com muitas diferenças sociais. Essa doença veio para deixar claro que essas diferenças sociais foram tanto tempo toleradas, como se isso fosse natural. As pessoas moram em favelas, o transporte público no Brasil é uma catástrofe, as pessoas vão apinhadas dentro. Como falar de isolamento? Como falar de distanciamento? Nós temos população muito assimétrica (diferente) e crise social muito grande. A pressão é legítima, das pessoas querendo retomar suas vidas. Os prefeitos estão todos espremidos pelo calendário eleitoral. É tempestade perfeita para o vírus. Há pressa para ficarmos livres do vírus de uma vez, ninguém aguenta mais isso, todo mundo quer suas normalidades. O que posso dizer é medir, medir, medir. Nós assistimos a essa crônica durante o mês de agosto e (vai continuar) um bom período de setembro para depois ir caindo e voltando a número minimamente aceitável.

Sobre a PEC do teto de gastos, que pode tirar R$ 30 bilhões do SUS, acha que tem de acabar?
A saúde não é ilha. O Brasil fez escolhas muito erradas. Esta crise não nasce agora. Temos década que não foi perdida, foi incinerada, incendiada. (Os anos) 2010, 2020 são para esquecer sob qualquer ponto de vista, inclusive econômico. Gastar mais do que arrecada é mau negócio sempre, inclusive para a saúde. Qual é o Estado que a gente quer? Não é o mínimo nem o máximo. A gente quer o Estado suficiente, que cuide de questões elementares, segurança, educação, saúde, e deixe o País andar. Acho que o orçamento é a função primeira do Parlamento. Ele existe para fazer o orçamento, fiscalizar a execução do orçamento. Se for fazer o orçamento e gastar o dobro do que gasta, vai embarcar no que já vi lá atrás, inflação, desemprego. Acho que o Brasil tem de fazer essa discussão dentro do Parlamento e priorizar áreas que já estão muito claras para todo mundo que precisam ser priorizadas. E o SUS é uma delas.

Pretende concorrer à Presidência da República, ao Senado?
Como deputado federal já conclui dois mandatos na Câmara e não quis concorrer à reeleição. Não tenho interesse. Posso ser cabo eleitoral, posso ser cidadão, votar, ser candidato a qualquer coisa, tenho minhas prerrogativas. E 2022 está longe. A gente tem epidemia para debelar, sistema de saúde para consertar. Tem muita coisa para fazer até lá e a gente tem de ter foco, disciplina e ciência.

Raio X

Nome: Luiz Henrique Mandetta
Estado civil: casado, com Teresinha
Idade: 56 anos – nasceu em 30 de novembro de 1964
Local de nascimento: Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, onde mora
Formação: medicina, pós-graduado e especializado em ortopedia pediátrica
Hobby: marcenaria
Local predileto: qualquer lugar, desde que esteja com a família
Livro que recomenda: Um Paciente Chamado Brasil, de sua autoria, que em breve será lançado
Artista que marcou sua vida: Augusto dos Anjos, poeta brasileiro
Profissão: médico
Onde trabalha: consultório 



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‘SUS terá muitas dificuldades no pós-coronavírus’

Francisco Lacerda
Do Diário do Grande ABC

06/09/2020 | 23:32


Ex-ministro da Saúde do governo de Jair Bolsonaro (sem partido), Luiz Henrique Mandetta (DEM) se diz “angustiado” ao ver o presidente tratar a Covid-19 como “gripezinha” e avalia como “trevas” as constantes trocas de ministros na pasta. Sugere que o SUS (Sistema Único de Saúde) – que pode perder até R$ 30 bilhões com a PEC (Proposta de Emenda à Constituição) do Teto de Gastos – seja priorizado, já que deve enfrentar maiores dificuldades no pós-pandemia devido à demanda reprimida de outros exames; foco na ciência e certificação dos resultados de vacinas, mas que o ministério não está preparado. “Sem corpo para propor saídas que são necessárias.”

Como médico, como avalia o comportamento de Bolsonaro no enfrentamento à Covid-19?
Como médico a gente é treinado a vida inteira para lutar contra a morte, a maior inimiga do médico. A morte significa nosso limite. E quando a gente vê que a morte está sendo provocada, seja por vírus, bactéria, pessoas, por qualquer coisa, fica profundamente focado em tentar transformar esse vírus, arrumar remédio, transformar as pessoas, para que ajudem a preservar a vida. A angústia é ver o maior líder da Nação, ou outras pessoas, sabendo que é doença contagiosa, tratar isso como ‘gripezinha’. Entendo que essas pessoas fazem parte da doença. Infelizmente, ele (Bolsonaro) passou a fase da negação muito forte, negando a doença, depois foi para fase de ter raiva de quem estava tentando se defender dessa doença. E a fase seguinte, que é a de fazer a reflexão, e passar para a fase de ajuda, que é quando se procura ajudar os pacientes, ele nunca entrou. A gente esperava que, com a própria doença que ele teve, que fosse refletir sobre os milhões de brasileiros que não têm médico particular do lado da porta do quarto, que não têm eletrocardiograma, não têm CTI (Centro de Tratamento Intensivo) aguardando por eles. Mas não, o presidente continua marcando a negação da doença e a raiva de tudo aquilo que seja científico, que é a porta de saída da doença. É decepcionante e muito angustiante.

O senhor acha que foi ‘fritado’ no Ministério da Saúde?
Acho que ali (na pasta) eu tinha feito padrão de comunicação muito forte com a população brasileira. Tinha feito a colocação de que tem de dar informação e transparência total de dados. Epidemia, doença nova. Porque a primeira linha de defesa das pessoas é construída a partir de informações e é dentro de casa, do núcleo familiar. Essa linha de defesa foi construída mostrando para as pessoas a face real. E 80% da população estava muito focada e muito aderida ao Ministério da Saúde. O presidente não estava. Ele esperava que a população aderisse àquelas teses absurdas, como a de isolamento vertical, quem tiver menos de 60 anos vai trabalhar, e mais de 60 fica em casa. Teria sido genocídio, carnificina, porque as pessoas moram juntas, os núcleos familiares são muito complexos. Depois queria que acreditassem na cloroquina, mesmo que não tenha eficácia. O foco dele sempre foi na economia, no pragmatismo, e o nosso foco sempre foi pela vida. É muito difícil quem luta contra a vida, mesmo que tenha interesses. Só que chegou uma hora em que ele queria que o ministério se calasse e parasse, e isso não dá para ser feito por quem é do ramo da saúde. Nossa função é salvar vidas. Então precisou chamar militar para cumprir ordem fúnebre de se calar e se ausentar do Ministério da Saúde para poder tirar do governo federal a responsabilidade e ficar só ‘tacando pedra’ em governador e prefeito, que estão na ponta tentando diminuir o sofrimento das famílias.

Como o senhor avalia o fato de termos general, ainda interino, na pasta da Saúde?
É a grande noite. São as trevas. Você para com a ciência. Eles chegaram com argumento de que são bons de logística. Até levei certo tempo para entender, já que é Ministério da Saúde e não ‘da Logística’. É perda de tempo. Basicamente pôs alguém lá por conta da carreira militar. Na ótica militar ele se explica; na ótica da saúde temos centenas de milhares de gestores muito bons, experimentados, que poderiam fazer esse trabalho de maneira efetiva. O SUS (Sistema Único de Saúde) vai ter dificuldades enormes no pós-coronavírus, porque, se olhar aí no (Grande) ABC, quantas mulheres faziam mamografia? Nesse período de cinco meses, quantas deixaram de fazer? Quantos cânceres eram descobertos no estágio um? E quando voltarem a fazer mamografia, quantos cânceres vão estar já no estágio tardio, que vai precisar de muito mais quimioterapia, radioterapia, cirurgias? E isso é com próstata, coração. Há impacto no sistema de saúde. Como é que nós vamos enfrentar a demanda reprimida? Como é que nós vamos recompor? A saúde mental, por exemplo, deve ter explosão de casos de depressão, ansiedade, porque ninguém está com a vida dentro do eixo normal, com ano extremamente duro para cada um. Esse tipo de cuidado com a saúde acredito que ali é muito difícil. Mudar ministro da Saúde já não é bom; mudar duas vezes é ainda pior. O Ministério da Saúde está hoje sem corpo para propor as saídas que são necessárias.

Qual o impacto negativo ao enfrentamento ao coronavírus com trocas constantes de ministro?
É este que estamos vendo. O ministro da Saúde diz ‘não vou mais mostrar números de casos, não quero mais responder a imprensa e detesto que se fale nesse assunto’. Aí precisa o Supremo Tribunal Federal falar para o ministro que é obrigado a mostrar o número de casos, e a imprensa ter de montar consórcio paralelo de apuração porque não confia. A credibilidade do Ministério da Saúde foi para o chão. Aí colocam protocolo de cloroquina. Além de perder credibilidade, fica com conduta que conspira a favor da doença. O vírus gosta disso, que não atenda à ciência, que diga que é ‘gripezinha’. Quem joga contra o vírus lava a mão, usa álcool gel, fica em casa, se protege, porque o certo agora é desviar da doença e pegar a vacina, que está ali na frente.

Qual a expectativa em relação à descoberta de vacinas para enfrentamento à Covid. Conhece as testadas no Brasil?
Ariano Suassuna costumava falar que o pessimista é chato; o otimista é sonhador, utópico. Prefiro me colocar realista esperançoso, pisando na realidade. O que tem hoje (remédios)? Como enfrentar isso (doença) hoje? Testes, cuidado, higiene. O que tem de focar agora é todo apoio à ciência e pedindo os resultados às agências, que certifiquem. Passo dois: preparar a produção. Não adianta ter 10 mil, 100 mil doses. Temos 215 milhões de habitantes. Como preparar para ter quantidade necessária? Vacinas estão marcando bem o anticorpo com duas doses. Parece que a diferença de tempo é de 21 dias entre a primeira e a segunda doses – a da Pfizer. Já imaginou ter de arrumar a vacina toda e 21 dias depois ter de repeti-la? É preciso jogar aberto. É um realismo, mas com esperança de que nós reunamos os melhores técnicos. Nós temos duas excelentes instituições, a Fiocruz e o Butantan, com experiência de produção de vacina. O Brasil tem o Programa Nacional de Imunização. O SUS construiu rede fantástica lá no Interior do Amazonas, no Acre, em Roraima, no Amapá, em São Paulo, no (Grande) ABC. Nós temos em todas as unidades de saúde rede de vacinação que muitos países não têm. E temos muita gente boa, com experiência em vacina. Vamos ser realistas, vamos esperar o tempo da ciência.

Governo do Paraná anunciou que vai assinar convênio com a Rússia para fabricar vacina sem comprovação de eficácia, a Sputnik V. O que o senhor acha disso?
Quando se tem situação como esta os políticos ficam todos muito animados para serem salvadores da Pátria, vêm com solução rápida, pronta. O (Vladimir) Putin (presidente da Rússia) está dando exatamente esse exemplo. Ninguém sabe o que aconteceu dentro do laboratório – as fases um e dois são dentro do laboratório –, ninguém tem consistência do que está dentro, qual é o mecanismo da vacina, e ele já deu o registro, já mandou produzir. Acho que devem estar fazendo algum diálogo. Não acho errado dialogar, mas daí a falar que está produzindo vacina mesmo sem teste parece caminho mais político do que científico.

A política de flexibilização da quarentena foi apropriada?
Ela é o que é possível. Nós somos País com muitas diferenças sociais. Essa doença veio para deixar claro que essas diferenças sociais foram tanto tempo toleradas, como se isso fosse natural. As pessoas moram em favelas, o transporte público no Brasil é uma catástrofe, as pessoas vão apinhadas dentro. Como falar de isolamento? Como falar de distanciamento? Nós temos população muito assimétrica (diferente) e crise social muito grande. A pressão é legítima, das pessoas querendo retomar suas vidas. Os prefeitos estão todos espremidos pelo calendário eleitoral. É tempestade perfeita para o vírus. Há pressa para ficarmos livres do vírus de uma vez, ninguém aguenta mais isso, todo mundo quer suas normalidades. O que posso dizer é medir, medir, medir. Nós assistimos a essa crônica durante o mês de agosto e (vai continuar) um bom período de setembro para depois ir caindo e voltando a número minimamente aceitável.

Sobre a PEC do teto de gastos, que pode tirar R$ 30 bilhões do SUS, acha que tem de acabar?
A saúde não é ilha. O Brasil fez escolhas muito erradas. Esta crise não nasce agora. Temos década que não foi perdida, foi incinerada, incendiada. (Os anos) 2010, 2020 são para esquecer sob qualquer ponto de vista, inclusive econômico. Gastar mais do que arrecada é mau negócio sempre, inclusive para a saúde. Qual é o Estado que a gente quer? Não é o mínimo nem o máximo. A gente quer o Estado suficiente, que cuide de questões elementares, segurança, educação, saúde, e deixe o País andar. Acho que o orçamento é a função primeira do Parlamento. Ele existe para fazer o orçamento, fiscalizar a execução do orçamento. Se for fazer o orçamento e gastar o dobro do que gasta, vai embarcar no que já vi lá atrás, inflação, desemprego. Acho que o Brasil tem de fazer essa discussão dentro do Parlamento e priorizar áreas que já estão muito claras para todo mundo que precisam ser priorizadas. E o SUS é uma delas.

Pretende concorrer à Presidência da República, ao Senado?
Como deputado federal já conclui dois mandatos na Câmara e não quis concorrer à reeleição. Não tenho interesse. Posso ser cabo eleitoral, posso ser cidadão, votar, ser candidato a qualquer coisa, tenho minhas prerrogativas. E 2022 está longe. A gente tem epidemia para debelar, sistema de saúde para consertar. Tem muita coisa para fazer até lá e a gente tem de ter foco, disciplina e ciência.

Raio X

Nome: Luiz Henrique Mandetta
Estado civil: casado, com Teresinha
Idade: 56 anos – nasceu em 30 de novembro de 1964
Local de nascimento: Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, onde mora
Formação: medicina, pós-graduado e especializado em ortopedia pediátrica
Hobby: marcenaria
Local predileto: qualquer lugar, desde que esteja com a família
Livro que recomenda: Um Paciente Chamado Brasil, de sua autoria, que em breve será lançado
Artista que marcou sua vida: Augusto dos Anjos, poeta brasileiro
Profissão: médico
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